Tive um sonho interessante para levar para a análise.
Uma pessoa muito próxima havia morrido de repente. E eu sofria, sofria muito porque não pude conviver com ela e não pude concretizar todos os planos que dividimos em vida.
Eu acordava, dormia e o sonho continuava.
Acordei, joguei água fria na cara me mandei para o Quartier Latin e, como quem tem amigos não enfrenta a fila, fui furar a horda que queria ver, comer, lamber Yves Saint Laurent no Petit Palais. (A foto da fila postei no twitter porque esse blog não é baixo astral)
Não, não adianta você falar que é exposição de menininha.
São 407 roupas completas – vestidos, smokings, ternos, capas, calças e a obra do maior artista da alta costura.
O maior e o último.
Todas as musas que ele vestiu.
A quantidade de estilos que criou.
As regras que rompeu.
As que inventou.
As cores (do Marrocos, sempre de lá).
Ele mesmo – um lindo Cristo magrelo nu na propaganda do próprio perfume.
Yves.
40 anos de carreira. O cara que inventou o safári (saharienne em francês porque é bem mais charmoso), que colocou calça nas moças e reinventou o smoking. O que trouxe a moda do pós-guerra na passarela e foi criticado por Deus e o mundo. O que viajou o mundo (África, China, Rússia, Índia) sem sair de Paris.
Madonna com os peitos pontiagudos? Com um enorme laço cor de rosa nas costas?
O visual cargo?
O all black?
A fila que se forma há seis meses para ver tudo.
É tudo Yves.
A incrível paleta de cores.
O perfeccionismo a toda prova.
E a última coleção em 2002. Parece que ele já via as portas do céu.
Sem contar que foi quem transformou a namoradinha da França, Catherine Deneuve, em mito da elegância.
Vestiu todas as lindas do mundo em 4 décadas – brasileiras inclusive.
E o que amo mais: ele não é francês. É de Oran, na Algéria.
Conheceu seu grande amor em 1958 e com ele partilhou a vida e o trabalho durante 50 anos.
Quantos de nós vão dividir meio século de vida com alguém?
E eu achei tão interessante o fato de ele não encarar as lentes de frente.
De olhar de lado…
Eu entendo.
“J’ai toujours placé au-dessus” de tout le respect de ce métier, qui n’est pas tout à fait un art mais qui a besoin d’un artiste pour exister.”
Algo como “Eu tenho colocado acima de tudo o respeito por esta profissão, que não é completamente uma arte, mas que precisa de um artista para existir. “
Dicas da semana: Exposição do Takeshi Kitano na Fondation CARTIER (3 visitas para ele X 1 para a Monalisa)
A musiquete chiclete que não paro de ouvir. Si l’on s’aimait, si do Les Enfoirés!
Uma coisa anos oitenta. Ai, Minha calça de lycra rosa shock com preto. Meu cabelo espetado. Meu cinto de borracha.
Esqueça a onda retrô tipo Balão Mágico e coloque uma Nina Hagen pop-brega com sotaque de pastis na sua vida.
Para baixar:
Para ver e ouvir antes que tirem do ar
Logo mais um cineminha. Vou de biquini de bolinha.
Você sacou o sapato em cima do aquecedor?
Pois é… Há dois dias que a chuva não dá trégua.
Sábado fui a um thai entre o Canal St.Martin e a Gare de l’Est que eu vou te contar…
Atendimento de quinta, comida asiática de primeira. Açucarada, frita, calórica e deliciosa.
O vinho? Um malbec para celebrar a vida porteña que deixei (por enquanto). Estou terminando meu terceiro Caio e Cortázar me diz que posso ir chegando.
Domingo? Caiu o mundo.
Coloquei um vestido ideal para dias de neve, minha botinha que arrasa Nova York e fui encontrar Paola.
Paola, irmã de Juliana, moça-aeromoça de luxo-elegante da Air Canada, tinha 24 horas sob a chuva de Paris.
Só Montmartre nos salva.
E salvou.
Primeiro, champanhota gratuita no maravilhoso Café Qui Parle do amigo querido, Nicolas.
Depois, Le Vrai Paris para cair de boca na “baixa” gastronomia (francesa, bien sûr). Anote aí: 33 Rue des Abbesses.
Começamos com um Chablis e batatas fritas (!) e dividimos uma sopa de cebola nota 7,5.
Paola, corajosa, partiu para o magret de canard (que eu carinhosamente chamo de peito escondido do Donald) com batatas. Eu arrisquei algo mais light: uma daurade com legumes. (não tem nada a ver com o dourado que conhecemos no Brasil)
Foi o último bicho morto que comi… Eu sou vegetariana de coração e alma – não consigo mais. E, também, cansei de passar mal por conta dessa idéia estapafúrdia de provar coisas diferentes mesmo que seja contra meu credo…
Se serve de consolo, a bula do peixe diz que ele é do bem (ele, ao psicografar minha bula, não achou a mesma coisa):
La daurade est un poisson particulièrement maigre, puisqu’elle ne fournit que 1 g de lipides pour 100 g. Elle est ainsi très digeste. Avec seulement 76 calories pour 100 g de daurade, ce poisson est l’allié idéal pour un régime-minceur. Ce poisson présente également l’avantage de fournir d’importantes quantités de protéines de très bonne qualité (16 g pour 100 g). La daurade est d’autre part riche en magnésium, en fer, en phosphore et en calcium. Elle vous fournit de l’énergie grâce aux vitamines qu’elle contient, en particulier des vitamines du groupe B. Elle est enfin riche en iode.
Depois do assassinato na fazenda, uma caminhada e um papo sobre igreja dentro da Basilique du Sacré Coeur. Acendi uma vela para São José, vizinho de São João Batista e não paguei os dois euros pedidos pela oferenda.
Tem tanto ouro e história estranha na Igreja Católica que o correto seria me pagarem cinco euros pela ilustre visita.
Ao longo do dia, T.S.Elliot, Heloise e Abelard e outras histórias me rondando.
Meu nariz, vermelho, minha alma, cortada e eu tomando mais um vinhozinho.
Fazer o quê? Estou resistente…
Hoje de manhã foi duro levantar.
A chuva, o álcool, a poesia, o asfalto, e a vida lá e cá.
Pela primeira vez em séculos não arrumei a cama.
Fiz uma trança, botei jeans, duas blusas, casaco de couro, echarpe, carreguei sombrinha e pasta.
Enfrentar a chuva, a vida, o francês da Sorbonne – que tanto me deixa louca porque me mostra que, quando acabo de dominar passé composé, imparfait e outros, não sei nada de pronomes…
A chuva que não dá trégua.
Eu pensei: é hora de fazer comidinha da vovó.
Passei no supermercado, comprei as guarnições do cassoulet – leia-se feijão branco e legumes, sem carne.
Um arroz Uncle Ben’s (eu só tenho uma panela e não posso inovar muito).
Matei meu vinho branco da Borgogne (meia taça) e estou aqui igual a gata.
Rolando de alegria, com a pança feliz de feijão com arroz.
Enquanto minhas toalhas não saem da secadora, estudo francês, pago 2,99 euros e baixo Breakfast at Tiffany’s para ver logo mais e devoro pronomes em francês.
Acho que a chuva parou… Mas a rua pode ficar para amanhã.
- Fomos eu, o Monoprix e Uncle Ben’s que fizemos
- La daurade
“You know, beloved, as the whole world knows, how much I have lost in you, how at one wretched stroke of fortune that supreme act of flagrant treachery robbed me of my very self in robbing me of you; and how my sorrow for my loss is nothing compared with what I feel for the manner in which I lost you.” Heloise
Não é nada fácil ser você mesmo.
Não é, também, muito simples seguir um estilo de vida que abomine a mentira, o jogo, as pequenas sacanagens que acontecem no cotidiano e que vão minando nossa força, nossas convicções.
Desde muito pequenos, vamos aprendendo a separar o “certo” do errado.
Mas ninguém conta que vamos conviver mais com o errado do que qualquer outra coisa.
Não falo dos óbvios.
Do chefe desonesto, do amigo infiel, do sujeito que rouba no troco, rouba na divisão da conta de bar.
Do cara que ficou rico “de repente”.
Do que casou para se dar bem, mas dá suas fugidinhas porque ninguém é de ferro.
Eu falo das coisas mais simples.
De topar trabalhar 10, 12 horas por dia e se matar numa função que não é a sua para garantir um aluguel num lugar mais bonitinho.
De passar por cima de um tempo que é tão precioso: com amigos, família, com você mesmo; talvez, com ninguém.
De um tempo que te permita respirar.
E que é o único que o torna amável com os desconhecidos.
Equilibrado quando os problemas aparecem.
Calmo quando o calo aperta.
Engraçado quando tudo é dor.
A tal sociedade do espetáculo, o capitalismo selvagem…
Bobagens.
Nossa sociedade é da histeria.
De gente que hoje aperta o gatilho porque o carro te deu uma fechada.
E ontem berrava por qualquer sinal aberto e o carro à frente, parado.
Hoje o amor fica lá atrás, junto com a conta do veterinário.
Primeiro, o trabalho, a carreira, a vida bonita num cartão de apresentação.
Depois o resto.
A vida em si.
Mesmo que o custo seja engolir todo santo dia um sapo tamanho XXXL.
Ou virar cúmplice e testemunha de gente que ganha a vida espalhando a incompetência, a intolerância, e até a desonestidade.
É como água em pedra.
Pinga, pinga, até que não tem mais pedra.
Pois é…
Eu estrou aqui maquinando um jeito de salvar a pedra.
Uma maneira de visitar mais uma vez o túmulo de Abelardo e Heloísa e acreditar que, sim, deve existir algo que sobreviva à vida.
(para F.C.)
Ai, o hammam. 2 enormes salões em mármore, uma sauna turca com um tanque/piscina de água gelada no meio do vapor escaldante.
Sensacional!
Você entra, pega seu sabonete de lama do Marrocos e fica suando…
Toma banhos gelados, passa a luva exfoliante…
Depois de horas no calor, pode ficar no grande salão, deitada no mármore geladinho, curtindo uma sauna mais light.
Dá até para fazer um lanchinho.
Ou vai direto para a gommage, uma exfoliação profissa.
Dali para o salão principal: um banho de óleo cítrico e massagem de primeira.
Aí é cair numa das esteiras e levitar.
Eu apaguei.
De repente, surge um chá de menta doce.
Fico imaginando que a sensação de um salão de ópio passa por aí…
Foram cinco horas completamente absorvida pelo calor, pela massagem, pelos arcos mouriscos, e pelos corpos tão diferentes dos meus.
Tenho que contar: nunca vi tantos peitos e tantas bundas diferentes.
Indianas, africanas, francesas, inglesas e uma brasileira tatuada.
Brancas, mestiças, chocolate, negras, cor de açafrão.
Magras, baixas, altas, gordas, médias.
Ninguém, é verdade, é igual a ninguém.
As mulheres são realmente algumas das criações mais bonitas da natureza.
oOoOoOoOo
Nações Unidas
E o jantar onde todo mundo saiu de um canto do planeta para comer poeira em Paris.
Comandando a orgia alimentar, uma indiana incrível.
Na adega, um casal chileno.
Uma brasileira, uma inglesa, uma alemã, uma americana.
Um chileno, um brasileiro lulista – coitado.
6, 7 garrafas de vinho.
Muita conversa.
E eu decidi que vou terminar minha temporada na Holanda.
oOoOoOoOo
Pensei em largar tudo e construir um Hammam em São Paulo.
Por que não?
Extrañamiento s. m. Destierro de una persona a un país extranjerom. Acción y efecto de extrañar o extrañarse.
Pois é…
A chuva passou, o sol fritou um ovo no asfalto, eu troquei de roupa e fui gastar meu tempo.
Ataulfo Alves que o diga: vestir uma camisa listada (original sem “r”) e sair por aí é bem coisa de parisiense.
A marselhesa é um hit…
E a caminhada a esmo também.
Encomenda para amiga.
Amiga que lê o blog e sabe que eu faço de bom grado (mas reclamo).
E olha que o perfume é especial.
Annick Goutal. Que delícia tomar um banho e colocar duas gotinhas.
Saí do metrô e vagabundeei.
Para lá e para cá vendo palácios, estátuas, navegando na idéia de república.
Faltavam duas horas para encontrar uma tchurma e decidi pegar o caminho mais longo.
Passeando pela Place Vendôme, logo botei a cabeça para viajar.
O que é ter grana para ficar no Ritz e encher a sacola de feira com Chanel, Comme des Garçons, Patek Phillippe?
Como sempre, turistas e mais turistas tirando fotos.
Desviei de um grupo.
Calçada liberada e eu fui com passos fortes.
Do outro lado da rua, uma pequena aglomeração.
POW!
Um baixote me deu uma cabeçada.
Ao lado dele uma loura dessas de Pigalle. Atrás, uma câmera, 200 assistentes, quem sabe a Carla Bruni.
Desculpa dali, desculpa daqui. Pensei: “tô arrasando Paris em chamas”.
Mentira: saquei na hora o encontro histórico.
Era o Woody Allen!
Na curva, saquei meu telefone e tirei a foto. Ninguém iria acreditar que trombei no judeuzinho que fez tantos filmaços.
Risos e mais risos.
Depois dessa, chutei o pau. Entrei na Hermés e fiz umas compritchas de mil euros.
Eu tenho certeza de que isso é uma manifestação do meu inconsciente que quer voltar logo para casa.
Afinal, tenho que trabalhar para pagar essa conta!
Agora, estou me preparando para dar uma passada na grande Mesquita de Paris.
Além de ter um chá famoso, o Hammam me foi recomendado por duas pessoas.
Fazer uma sauninha, tomar um chá de hortelã…
Vamos ver no que vai dar.
Ela finge que limpa as calçadas imundas.
Ela deixa um ar diferente na cidade.
Ela me faz vestir um casaco (adoro), mas me faz levar a sombrinha (detesto).
Fico rindo quando nós, brasileiros, falamos que somos misturados.
Somos uma espécie de submarino.
Leite com uma barra de chocolate.
Um pouco derrete. Se você não mexer fica a barra negra se desfazendo e o leite ganhando uma certa cor.
Somos misturados? Que nada.
A mistura que não fica homogênea está aqui.
Eu pego o metrô e sou a única ariana modelo “tampa de rosca”.
São chineses os que me acompanham.
Para colorir, entram e saem os africanos com seus turbantes, túnicas, sua voz gritada, suas crianças meio sujinhas e levadas.
Os brancos, sem graça.
Eles têm pés machucados.
Levam livro, jornal, sacola plástica.
Muitos moram mais longe e têm menos dinheiro.
E os gays?
Ah, são muitos.
Eles são os mais lindos, os mais elegantes.
E os turistas?
Centenas.
Dizem as estatísticas que esse é o país que mais recebe turistas.
E árabes.
As meninas com seus véus negros.
Nos trens, música de ciganos.
Paquis, Indianos.
Alguns latinoamericanos.
E eu.
Perdida nas ruas poeirentas.
Adorando a chuva que cai lá fora.
Com a escova vencida.
E algumas ondas no cabelo.
Visitando farmácias e supermercados para tentar entender essa gente.
E descobrindo que ir aos museus à noite é muito mais divertido.
Adoro a chuva.
A-hã.
Estranha a literatura porcaria que ando produzindo.
A história vem aparecendo na cabeça, mas eu teimo.
Não escrevo.
E aí a história vai tecendo detalhes, eu perco o fio da meada do meu dia, e qualquer hora tenho que colocar tudo no papel.
Até agora foram cinco páginas. Pouco? Mas dói.
Por que eu não quero fazer e Chico Xavier me obriga.
Saco.
Pois bem, amigos, aqui em Paris a coisa anda preta.
Ando comendo carne e passando mal – depois de 18 anos vegetariando.
(não falarei aqui do teor alcóolico do que ando bebendo)
Por que?
Não sei.
Talvez para me reiventar.
Cigarro metafórico que não me serve de nada.
Hoje voltei para casa cedo. Estudei francês sem muito saco.
Tomei meu vinho, almocei tarde e dormi com Caio. Eu e ele estamos gostando muito de Paris.
Eu faço a cama e ele está lá, o livro doido me esperando.
Não tem Torre Eiffel ou Arco do Triunfo que me façam deixá-lo.
Biblioteca Mitterrand? Sebos, livrarias?
Louvre nem Quai D’Orsay.
Ando lendo devagar – para ele ficar comigo até fim de agosto.
Tenho a impressão de que não serei fiel.
E Cortázar pode me pegar.
Belga metido a argentino.
Metade Clarice, metade bruxo.
Esses dias dei uma navegada com minha internet de manivela…
E li a história da canadense que raspou cabeça e sobrancelhas para fingir que tinha câncer.
Arrecadou grana, viajou para a Disneylândia até que o pai descobriu a história e desmentiu tudo.
Parece com a menina que dia sim, dia não pega metrô comigo.
Ela fala com sotaque e francês milimetricamente errado: tem 3 filhos e não tem emprego.
Aceita 25 centavos, tíquete-refeição.
E não é que ontem ela estava pegando um pacotaço de M&M na máquina?
Filhos exigentes esses que ela não tem…
Por isso tenho uma política: dou dinheiro para músicos mambembes, vendedores de flores, bêbados piadistas e para todo tipo de vagabundo que decidiu ter coragem.
Viver sem mentir é um vício que não tem cura e causa estrago.
Quando a gente se descobre no meio de um cotidiano comum e rasteiro e algo vira o jogo.
Tudo o que aconteceu ou que vai acontecer não tem a menor importância.
Estou aqui, na minha vida de excessos, extremos, de pontas, oitos e oitentas.
Você, não.
A sua é toda certinha e a sua cabeça roda na minha para rir um pouco das besteiras que eu faço ininterruptamente, dia trás dia. Você queria ser um pouco o que sou. Ou você queria ter nem que fosse por um minuto.
Gitana.
Bavarde. Eu falo muito mais do que faço e você ainda acredita.
Ontem, tive uma epifania.
No meio do nada, do passeio, caiu um raio em minha cabeça.
E eu tirei minha couraça de ferro, minha carcaça de executiva e decidi ser eu mesma. Fiz uma foto.
Ficou horrível.
E eu deletei.
Se vou virar carniça, que fique bem na foto que eu quiser. Mas eu me vi e eu não sou nada disso.
Eu só saquei que meu destino é de Carlos. Ser gauche, ser sénestre.
E chutar um pouco o pau. Chutar todo o santo dia.
Porque me seguraram no freio e agora eu desembestei.
Acho tudo muito chato.
Tenho aquele ego de quem ainda vive aos vinte anos.
Eu sempre sei tudo ou eu acho quase tudo muito pequeno.
E escrever não é mais cachaça.
É pura respiração.
Eu não consigo mais costurar para fora.
Eu ainda luto contra. Só para contrariar. Sina.
Depois que resolvi cair de boca em tudo.
Ai, meus dois copos de vinho – eu não tenho taça – me mostram o perigo.
Na corda bamba por onde eu caminho pode ser que haja espaço para mais gente.
Se voce vier comigo, eu não prometo nada.
A gente vai rodar moinho.
A gente vai viajar o mundo.
Vamos para o samba, para a festa de madame.
Você me escreve, eu te chamo para um café.
Eu dou retorno –sou adestradinha.
Eu faço ar de mistério.
E sou puro Ruben Fonseca : não deixo me fotografar.
Ai, Brigitte, por que você não me avisou que não tinha atalho ?
Mas deixa, eu gosto do caminho mais longo.
“Tinha cinco anos mais que trinta. (…) Será possível plantar morangos aqui ?
O bonde guinchou na curva. Amanhã, decidi, amanhã sem falta começo a fumar.”
Caio Fernando Abreu
Acordei cedo.
Acordei os cachorros.
Que acordaram a casa inteira.
Fiquei de calça de corrida, sapatilha de ballet e camiseta do pijama.
Escovando dente louca e descabelada pela campagne. E de batom vermelho. Batom que usei uma vez só há 7 anos.
Eu, os cachorros, o trigo e meus pensamentos. E a boca vermelha.
Café da manhã.
Um pouquinho de ovo, um pouco de chá, um pão de grãos.
E todas as cinco garrafas de champagne da noite anterior.
Bora para a cidade.
Carne, batata, vinho rosé, pão, pimentões laranjas, amarelos, vermelhos.
Botar a mesa.
Preparar o assado.
Apenas mais uma tacinha de champagne.
Eu estava estragada, mas não dá para recusar.
O rosé era doce demais.
Chove, faz sol, chove de novo, sol. Deu a louca no tempo.
E nada, nada mais.
Lavar tudo.
Sair pela vila.
Sentir cheiro de mato molhado, de cavalo, de vaca.
Passar na venda.
Levar sidra e suco de maçã. O suco é mais caro!
Abrir uma Laurent Perrier tamanho F-1.
O dia inteiro meio suja, descabelada, nos campos de trigo.
E só o batom de 7 anos.
Eu queria mesmo ser a mulher invisível.
























