Tags: Escapada
4 set

No centro, ao lado de uma estação de ônibus, esbarrei de novo com o Itamar Assumpção.
Magro, cheio de dreads, cultuado ainda e nada maldito.
Maldito era o enrgético com uisque, depois com gim.
Maldita é a combinação com o celular.

O jazz.
O menino.
Os meninos.
E esta coisa de travesti – que, quem entende dos astros, dos seres do outro mundo, quem entende manda que eu anule, que eu pare, que eu não assuste.

Devo sair por aí de vestidinho rosa de lacinho.
E devo sorrir com biquinho.
E o mundo viverá tranquilo e eu apavorada.

O Jazz era nos Fundos mas o passeio foi na praça Roosevelt.
Os loucos, os bêbados, os tarados, toda a trupe reunida.
Eles comiam minha amiga com os olhos e eu, com minha corda de mulher maravilha, ia dando estaladas no chão para espantar tudo que é invisível e qualquer vampiro.

No restaurante escolhido, mojito.
Ceviche depois de duas esfirras de carne.
Ou 3?
E a promoção: dois Aperol Spritz dão direito à uma taça de vidro vagabunda.
E eu realmente preciso de uma taça de vidro.
Um sanduiche de grao de bico, um pacote de biscoito de gergelim.
Eu pensando: vai ser até bom, preciso de um quilinho a mais no momento.

Mas o maldito celular e a coragem estúpida dos bêbados.
Se era para fazer tanta besteira usando a ponta dos dedos e uma tela de cristal, melhor teria sido ter subido no palco e ter cantado “Código de acesso”.

Escrito por anapessoa
Tags: Ensaio
3 set

Não é mais rico quem tem mais, mas quem precisa menos.”

provérbio budista

 

O tempo é agora.
Quem deixa para amanhã, acaba se surpreendendo.
Eu nasci com um dedo na tomada.
E não durmo se não termino o projeto, o casamento, a história, o tudo.
Eu sou daquelas que não desliga se todas as gavetas não estiverem arrumadas, pratos lavados e guardados. Cinzas de charuto devidamente empacotadas e no lixo.
Eu durmo?

E eu amo os novos tempos.
A internet, a conexão virtual, o romance por fibra ótica.
Tudo o que é virtual pega fogo.
Para quê o real?
A vida pode ser muito mais do que o aqui. Pode ser na Síria.
No Iraque.
No Japão.
E ainda assim real.

Deu errado hoje?
Tenta de novo amanhã.
Tem coisa boa para tentar mais e mais e mais.
E a liberdade?
Fazer tudo o que não pode.
A regra.
O certo.

Fazer tudo errado de verdade.
Ai, mais de 30, mais de 40 é muito mais gostoso.
Vai por mim.

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Escrito por anapessoa

 

doce açúcar café

doce açúcar café

Siciliano, puro açúcar.
Doce com ricota, limão, chocolate ou baunilha…
A Itália tem sotaque bem mais doce no Bixiga.

Tomo café turco a seco.
Muitos projetos interessantes para quebrar paredes e derrubar muros.
Direto, sem rodeios.
O cacife é sempre alto e restritivo.
Como eu gosto do perigo.

Dias de pouco sono, muitas idéias e um turbilhão de coisas.
De Converse verde, salto ou tênis para praticar esportes.
Meias, malhas, vestidos justos ou de pernas nuas.
O calor deixa o frio em São Paulo.

E eu sinto a primavera chegando.
Com todas as flores num ramalhete único.
Uma delas deve durar mais que as outras.

Escrito por anapessoa
Tags: Ensaio
31 ago

Delícia voltar às origens e ver seu passado te tragando feito areia movediça e cuspindo os ossinhos com um cabelo de Debbie Harry.
O rock voltou.
A bike rolou.
A força está me deixando com braços de menino.
A loucura está rondando a praça.
A gentileza acontece.
A paranóia do escritório sumiu.
A faca e a bota foram para o armário.
Amor para todos os lados.
Na rua, na net, ao telefone, em tudo.
E só não dá tempo de trabalhar.

Trabalho enobrece?
Trabalho é andar dez casinhas para trás, no meu caso.
O tal julgamento de Brodsky.

Trabalho?
Tô ralando, minha nega.
Yoga.
Meditação.
Nos intervalos, faço algum dindim.

E estou considerando seriamente me teletransportar para o Japão.
Era uma vez uma Ana.
Durante anos Ana foi feliz.
Mas ela descobriu que, de ponta cabeça, seria ainda mais do que quis.

Segunda-feira, pode me arrancar cada pedaço de carne.
As unhas vermelhas.
O pêlo.
Me arranha inteira.

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Escrito por anapessoa
28 ago

Chō

Chō

Eu sempre fui uma fera.
Tem gente que me acompanha aqui há 6 anos e que já viu.
O lado B.
A saída as 3h da matina para um lugar estranho.
A casa de shows mais iconoclasta de NYc com senha para entrar.
E eu entro.
E eu sou convidada para o segundo andar – onde as coisas estranhas acontecem.
O moço amarrado no banheiro da festa no apartamento gigante em Copacabana, quando duvidou que eu faria bondage. (e eu nunca fiz – mas dei uns nós bem dados – risos. Não fiquei para ver quem soltou o bobo).

Mas o terreno aqui é borderliner.
Tem realidade e mentira.
Ficção.

Na cabeça e no texto, muito mais do que no sexo e no trabalho, vale tudo.
A questão de ser acelerada é o preço.
Então estou descendo a ladeira com mais cuidado.
E muito mais perigosa. Mas doce como nunca.

Meu lado B está virando A.
Finalmente. Que venha a pessoa de verdade.

蝶は私の体に侵入しました。

Escrito por anapessoa

A wild being from birth
My spirit spurns control
Wondering the wide earth searching for my soul

(Lou Reed)

Comecei este post em 2013.
E ele ficou aqui adormecido.
Hora de terminar porque não gosto de nada pela metade.

Ser ou ter, eis a grande e verdadeira questão.
Ter é maravilhoso – cada vez que recebo a conta meu condomínio penso em consultar um cardiologista…
Mas o ser tem sido a minha grande descoberta dos últimos tempos.
Ser tudo e com intensidade.
Sem vergonha.
Faladeira.
Começando o caminho da espiritualidade – justo a mais cética. Ou uma das mais.

Não jogar.
Não brincar com o outro.
A não ser que o jogo seja aberto, com regras sobre a mesa.

Deixar-se ir com o rio.
Com a água salgada do mar.
Simplesmente pegar o carro e dirigir duas horas para passar mais duas horas com os pés na areia molhada.
E voltar atrasada.

O ser que te faz objeto.
O que te devora.
O que te venera.
O que te pede calma.
O que chega sem licença.

Este lado de quem beijou o túmulo de Oscar Wilde segurando em uma das mãos uma taça de puro Absyntho.
Este lado que te quer inteiro.
Sem performance.
Sem sucesso.
Sem capa protetora de super-herói.

A Ana artista, cantora, malabarista.
A Ana, antes raivosa, agora cheia de mantras e mandingas.
A Ana que ainda estende a mão para quem morde.

Ser mordida.
Com força.
Ficar roxa por dias e dias.

Voltar a erguer o corpo inteiro em um só braço.
Pernas para o lado.
Respiração e força no períneo.

Este ser indomável.
Que se afunda nos bares da Praça Roosevelt.
Que te dá tudo até tesão.
Que carrega o anel de 75 anos de um pedido.
Que se despe sem vergonha e sem preconceito.

Que resolve passar uma quinta-feira inteira na cama.
Que te dissolve.
Que te resolve.

E que, no fim, volta sozinha de táxi.
Sim, sou eu.
Eu não tenho medo – nunca tive.
Mas já caí no abismo – não foi culpa minha, foi um acidente de carro.
E, talvez, por isto mesmo, eu não tenha medo.
Minha hora não era aquela.
E quando for, será.

Eu quero apenas o abraço sincero.
O eu te amo de quem verdadeiramente abre a alma.
Não quero seu dinheiro.
Seu sucesso.
Seu desprezo.
Sua inveja.

Quero o sapo.
Aquele que, depois do beijo, continua sapo.
E eu te beijo sem parar.

Mas continuo indomável.
E te assusto.

 

Escrito por anapessoa
18 ago

Ontem voltei a malhar.
Peguei leve: duas aulinhas de mocinha.
Alongamento com as vovós e localizada com aquelas que um dia juram que vão ter bumbum empinado.
Fui na hora do almoço.
Fui de bike.
Já saí pronta, de malha, para não perder muito tempo.
Olhei para o meu corpo no espelho.
Há dois meses, parei de correr e de fazer toda e qualquer atividade física.

O corpo é algo espetacular.
Olhei para minhas colegas – malhadoras de plantão.
E eu lá: a anti-academia em Pessoa Ana.
Eu com minha malha de dez anos atrás.
Body de yoga de algodão com elastano. Pochete de neoprene velha.
Elas todas uniformizadas – o que é legal. Olhei os tênis da moda: coloridos.
Os tons de turquesa.
Os tecidos tecnológicos que vestem bem e secam rápido.

E eu.
Meu pernão de Romário campeão de 1994.
Meu tríceps saltadão de ashtanga.
Minha saboneteira que carrega um sabonete Granado de um lado e flûte à champagne no outro.
Minha barriga – que é uma barriga. Nem inha nem ão. Ela não faz feio.
Pensei nas estrias: minhas listras que amo e que adquiri num estirão de crescimento, muito antes de ser mãe.
Lembrei da colega maldosa em Cuba me perguntando o que eram estas cicatrizes e eu, com um bikini minúsculo, explicando que são fruto da destruição de fibras elásticas e colágenas na pele.
Fruto do crescimento. É o corpo dizendo que quem manda é ele.
E eu tinha um corpo sarado quando a maldosa tentou achar um defeito na piscina olímpica do Fidel.
Eu me diverti – este tipo de jogo feminino nunca me pega na curva.

As minhas estrias são alinhadas e grandes, 4 ao todo – duas de cada lado.
As do meu irmão são iguais.
Olhei minhas ancas largas, ossudas, e minha bunda inexistente.
Tem gente que tem barriga chapada, eu tenho bumbum reto.

E minha força de Bruce Lee.
As colegas levantando 2,5kg, pegando anilha de 5kg para colocar na barra.
E eu testando 2,5; 5, 7, 10kg.
Eu sou forte para caramba.
Sempre fui.

Não vou me esquecer daquele reveillon na pós-adolescência em que o cara pegou 3 vezes no meu braço para conferir o músculo.
Na época eu fazia karatê.
Olhei para ele e fiz: “-Bu!”.
Ele se apaixonou e começou o ano novo segurando nos meus dois braços.
Não largou do meu tríceps nem um segundo.

Olhei para o espelho e gostei do que vi.
Este corpo tem história.
Não é feio.
Não é capa de revista de malhação.
Mas ele é meu e está lá, inteiro, apesar do meu descuido.

Vi meus braços fortes.
Olhei minha canela mais fina do que o normal – mas as coxas grandes.
Dei um sorriso para mim mesma.
Eu sorrio com todos os dentes.
Em volta da minha boca, nas laterais, surgem umas dobras bonitas.

Pensei comigo: como é bom ter 40 anos.

Escrito por anapessoa

Autorretrato em branco e preto

Digamos que passei uns 6 anos adormecida numa cápsula de Propofol.
Nego, o soninho era bom demais.
Eu era uma dona de casa meio gordinha, que fazia o café nespresso, a torrada integral e o queijo da Canastra.
Bolo de carne, bobó de camarão, muffins recheados e pão de banana com amêndoas.
Mas Michael exagerou na dose e achei melhor dar um tempo no agente anestésico intravenoso de curta ação.

Quando acordei, eu era eu de novo.
Que loucura!

Com os cabelos pintados, mais curtos.
Com a mesma piração randômica na cabeça.
O mesmo peso dos 23 anos.
A fada da dor me deixou assim.
Mas com 17 anos de experiência nas costas.
Eu era praticamente a mulher maravilha de patins.

O toque do meu celular ainda é “I Love Rock ‘n Roll”
E “I’m a natural ma’am
Doin’ all I can”
Você sabe.

Mas você não sabe que Debbie tem Ana no nome, gato.
Eu e ela temos uma história em comum.
“Once I had a love and it was gas
Soon turned out, it was a pain in the ass
Seemed like the real thing, only to find
Mucho mistrust, love’s gone behind”

Em meio a passeatas e muito cartão de visita, eu continuo tocando minha batera.
E tingindo o cabelo de branco, cada vez mais branco.
Com meu batom vermelho.
E minha cara de pau infernal.
Fingindo que eu não sei o problema que eu vou te causar.

Eu ainda falo: “cuidado comigo”.
Ah, mas vocês são mesmo todos iguais.
E eu acordei.
Fazer o que?

Propofol nunca mais.

Escrito por anapessoa

Jazz, guayabera e um silêncio

Meia vida se encerra em nove folhas de papel.
Quem paga o jornal?
O banho da cachorra?
IPTU, Condomínio?
A vida, o dinheiro, os bens, as coisas?

Quem fica com o espremedor de laranja?
O toca-discos?
A máquina de waffle. A panela.

Dois meses de jogo duro.
De viradas dignas de Nina Simone.
Do ceticismo se fez luz.
Das certezas se fez a solidão.
Das dúvidas se fez de tudo e mais um pouco.
E eu comecei a recitar vários mantras.

Um dia na estrada, um banho de mar.
Discussões, como sempre, sal no carro.
Um impresso.
Rubricas em 8 páginas.

E assim começa a nova vida.
Passando em branco todas as coisas.
Mas deveria conter coisas este papel?

Aqui jaz Parati numa noite de amor vendo os telhados.
A varanda com rede do Jardim Botânico.
Os exus no jardim.
O carro novo amassado em uma escada de qualquer ladeira em Santa Tereza.

Aqui jaz Cuba.
O carnaval de Olinda.
Jamaica de red or white wine, champagne?
Aqui jaz o prédio da Bela Vista com bela vista para Masp.
Aqui jaz o fantasma de dona Bibiana.
Jaz o apartamento da João Lira.
Bibi, Leleco, Mafalda, Marmelo, Bo Ba (de Lina).
A praia do Leblon.
O posto 9.
A banda de Ipanema e as Carmelitas.

Um ou outro forró mal-dançado.
Uma festa de arromba no Humaitá.
Alguns festivais de cinema.
Um carro novo, importado.
Nova York.
Punta Del Leste.
Um reveillon em Itatiaia.

Aqui termina a festa de arromba para 400 pessoas.
Com muito espumante brasileiro e uísque estrangeiro.
Os amigos de todas as partes.
Aqui jaz meu vegetarianismo.
Meus quilos a mais – contados e recontados e perdidos como que para mostrar que a vida pode nascer das cinzas.
E eu estou de novo como eu era quando tinha 23 anos.
E nao me pareço em nada com aquela menina.

Aqui jazz.
Ali samba.
Aqui fidelidade eterna.
Ali confusão que custou caro.

Algumas raves.
Gafieiras.
Mochilões.
E, que engraçado, nunca fomos juntos para a Europa.
Paris, Praga, Amsterdã.
Cada um a seu tempo.
E por sua conta.

Em nove páginas, não existe nem um capítulo de histórias.
Só coisas.
E coisas são mudas.
Inanimadas.

Que o juiz faça uma graça, cite Oscar Wilde.
Ou, ao menos, Vinícius.
Se ele nada fizer, prometo queimar todas as nove páginas ao som de John Coltrane.

Aí, sim, tudo o que jazz.
E segunda-feira eu sairei pela calçada, com cara e alma lavada.
Pronta para qualquer parada.
Ou andada.

Porque eu sou Pessoa.
E amo tudo o que já não é.

 

Escrito por anapessoa
14 ago

 

O dia mais triste de nossas vidas

Hoje é sexta-feira.

Dia internacional de um monte de coisas.
Entre elas de começar uma vida nova
E de ser você novamente.

Sexta-feira é dia em que os fracos saem por aí se achando fortes.
E dia em que os fortes se recolhem para enfrentar a segunda-feira sem máscara e sem armas.

I’m a real rebel with a cause.
Nina Simone

Escrito por anapessoa