5 mai

Esse post começa num aeroporto.
E declaro que ontem, amanhã e depois de amanhã – todos serão o dia nacional do aeroporto.
De Congonhas ao Santos Dumont,  minha vida sempre foi esta. Sobrevoar cidades com saudades da floresta.
Você que, como eu, gosta do Rômulo Paes pode me criticar por esse versinho infame e de pé quebrado.
Mas tudo começa com minha ida com certa pressa (característica transmitida de pai para filha) a caminho do aeroporto.
Uma calma danada para comprar um protetor solar, pedir um capuccino e saber, pelo auto-falante, que esqueci meus dois celulares para trás.
Eu já disse (aqui mesmo) que o esquecimento é um termômetro (e dos mais importantes).
Pois o termômetro avisa e a burocracia quase me mata.
Do balcão da companhia aérea para o raio-X, do raio-X para o balcão para ser abandonada pela atendente de nome Ísis que preferia que eu perdesse o vôo e fosse procurar minha dupla de blackberries em outra freguesia.
Finalmente encontrei meu taxista amigo com meus dois celulares me esperando.

Minha vida é esta.
Ter gente boa que me ajuda quando eu não estou com a cabeça no lugar.

A anedota acima mostra que a culpa é da comunicação – e ela me leva para todos os lugares.
Como a comunicação é complicada em épocas de pouco tempo, de relações fluidas.
Talvez de algum dinheiro, mas de pouco tempo para ouvir.

Escrever é uma cachaça – mesmo para quem escreve sem jeito.
Ler é uma interpretação de si mesmo.
Afinal, nosso foco está no que somos, no que vivemos, no que esperamos.
Nas palavras de outrem, descobrimos o que somos. Ou o que não queremos ver.

Quando cito Caio, ou quando volto para o bardo, quando leio L’Étranger que ganhei de um dos inúmeros amigos que conheci porque aqui estou a procura de algo que não tenho. Algo que gostaria de ser.

As palavras.

Mais do que a química forte que acontece quando descobrimos alguém.
As palavras fogem do instinto. Elas revelam abismos, labirintos, elas mostram o que nem você sabia que era – e é seu.

Toda vez que anunciam que o prêmio da loteria está acumulado, penso no que faria. Meu pai tinha o hábito de “fazer uma fezinha” toda semana. Naquela época, você conhecia o dono da banca, o apontador de jogo do bicho, o moço da lotérica.
A graça, desconfio, era muito mais ir falando com as gentes do que colocar um dinheiro que – de antemão – sabíamos ter perdido.

Pausa – o comandante pede a palavra e ele tem o nome do meu pai.

Pois eu sempre tinha direito a apostar alguns números. Uma vez, um prêmio menor foi tirado e ninguém apareceu para buscar. Meu pai – coisa típica – disse que os números sorteados eram do meu bilhete. Bilhete este que, depois de pago, eu perdia na primeira esquina.
O que uma menina de 8 anos vai fazer com um prêmio de loteria?
Como contei, a graça do jogo era fazer o caminho até a lotérica.
Por noites e noites sonhei que encontrava o bilhete premiado. Estava no fundo do bolso de uma calça que não uso muito.
Com o bilhete eu iria até a Disneylândia e voltaria repleta de bichos de pelúcia.
Meu pai, claro, com a “perda” do bilhete se desobrigou de me dar uma viagem a Disney ou a qualquer outro paraíso artificial criado por gringos capitalistas.
Com o bilhete, foi-se embora a viagem.
E eu sobrevivi. Risos.

Pois hoje, tenho certeza, de que se eu ganhar na loteria (missão impossível porque nunca jogo), compro uma casa para a Antônia (uma casa nova, com quatro quartos, cozinha ladrilhada) e um sitio para o Moacir. Para o Cristiano, um carro novo para ele trabalhar. Para mim, um sonho: volto para o banco da escola e vou estudar.
Estudar línguas, história, filosofia. Viajar de quando em vez.

Aí penso de novo comigo: o que me impede de ganhar nessa loteria?

Escrito por anapessoa
4 mai

Almoçar às 17h30 e ainda ter fome.
Dor de garganta.
Ver a foto da menininha de 2 anos que foi adotada e acabou espancada pela bruxa de João e Maria.
Saber que no Chile, o ministro manda:
1.Triplicar la capacidad actual de las redes celulares para enviar y recibir mensajes de texto SMS.
2. Autonomía energética en las antenas celulares principales de la red, para que no dejen de funcionar por falta de energía eléctrica.
Desejar feliz aniversário para o irmão que está a 600km.
Viajar com os pés no chão.
Ter cansaço emocional.
Sair de casaco num dia de sol.
Nadar contra a maré.
Pagar par alguém te exercitar.
Isso e muito mais é tudo de que gosto.

Escrito por anapessoa

voto consciente

voto consciente

Dizem que, quando queremos comprar um modelo específico de carro, passamos a ver mais e mais desse modelo nas ruas.
Quando gostamos de uma música, ela toca nas rádios com mais frequência…
O psicólogo William James (1909/1981) afirmava que a experiência de um indivíduo não é constituída por todos os acontecimentos do meio, mas, sim, por aqueles em que há interesse do indivíduo. Presta-se atenção àquilo que se escolhe dar atenção. Dessa forma, existe uma espécie de filtro que seleciona aspectos do meio e torna o sujeito ativo no controle de suas experiências.
Não fora assim, não seríamos humanos vivendo em sociedade…

E, para os brasileiros e latinos atentos, hoje no G1, o assunto (para variar) era discurso do Lula.

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta segunda-feira (3) que as eleições de outubro serão uma oportunidade para preparar a transição do Brasil da condição de economia emergente para a de potência global.”

E essa transição para além do discurso?

Por que os Estados Unidos  e a British Petroleum não conseguem controlar o vazamento de petróleo no Golfo do México? São 700 mil litros por dia… Porque nenhum país sabe, mesmo ricos, poderosos ou que quer que pensem que são ou serão um dia.

O que um desastre como esse nos ensina: a falar menos e planejar mais…
Na CBN, um comentário muito bom do Sérgio Abranches. Aperte o play.

Nos últimos dias, além de maratona, compras e churrasco (sou vegetariana!), o assunto – como o de todo mundo que tem uma conta para pagar foi trabalho.
O trabalho é o maior paradoxo da criação dos homens.
Amamos, odiamos, fugimos, afogamos – seja qual for o verbo, trabalhamos e muito.

E quem vive em São Paulo e não ouviu falar do Alfredo Assumpção da Fesa, precisa já fazer audometria.
Alfredo envia um texto e minha atenção vai lá com seu dardo certeiro.

O comando do mundo dos negócios pertencerá a quem tiver maior competência de gestão de capital humano.
“Pessoas não são commodities”. Precisam ser tratadas como seres humanos completos, incluindo seus sentimentos, suas crenças, valores e atitudes.

Nas próximas eleições, escolha bem seu candidato.

Escrito por anapessoa

visao embaçada

Hoje na padaria, um menino tão lindo que parecia moça. Uma coisa meio Gal, cabelo cacheado, um colar enorme de olho de boi, uma camisa/blaser que certamente foi herdada, um bigode ralo, uma sandália de tiras de couro, sem t-shirt, uma tentativa dândi.
Uma coisa meio lá meio cá. Visto assim não tem nada de bonito.
A menina de xadrez, franjinha moderna, legging preta, bermuda jeans. Mignon.
Os dois falavam muito baixo. Falavam pouco.
Às vezes parecia briga, às vezes não.
É impressionante a beleza dessa descoberta.
Sem lenço e sem documento.
Um domingo na padaria.

Eu com 3 coisas para fazer na cabeça. E com minha mãe aqui, meio de surpresa.
O namorido acaba de correr meia maratona.
Aí, na banca da Rodésia, vovó chega devagarzinho.
10 pacotes de figurinhas!
Levante o dedo a primeira criança que estiver completando o famoso álbum da Copa.
Só conheço colecionador com mais de trinta.

Alice correndo feliz no sol.
Tanta coisa para dizer…

Escrito por anapessoa

O dia amanhece e você cai da cama.ANA
Eu sigo firme na minha proposta.
Às 7 da manhã estava estacionando o carro na academia.A
Professora a postos.
E uma hora de chatice sem fim.
Agachamento, abdominal, corridinha, braço, saaaaaco.
No vestiário (contei que troquei de academia?), escolho meu lugarzinho.
Bancos enormes, dezenas de cabides com roupas de todas as cores, carnes magras e gordas em total exposição.
Estiquei meu pretinho basico e, junto dele, minha sacolinha com a sandália. E preparei o ataque.
A mulherada olhava a sacolinha com cara de que não via.
Mas a sacolinha branca chamava atenção. Sandalinha nova Balenciaga causa mesmo frisson.

E eu, que ontem perdi outro brinco – e acho que isso quer dizer algo – , hoje esqueci acessórios e pedaços de roupa em casa. Imagina ter que voltar para buscar e chegar tarde… Pois o esquecimento é meu termômetro. E chegar faltando pedaço, meu estilo.

Já no mundo dos homens, a notícia faz rir.

A revista “Time” negou no início da tarde desta quinta-feira (29) que tivesse colocado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o primeiro em uma lista de líderes mais influentes do mundo.

Pela manhã, o site da revista norte-americana divulgou uma relação com os nomes dos 25 líderes mais influentes do mundo escolhidos pela publicação. A lista era numerada de 1 a 25, não estava em ordem alfabética, e colocava o presidente brasileiro enacabeçando a lista (UOL)

Lula, para mim você será sempre o primeiro:

- a dizer que não ouviu, não viu, não sabe de nada

Vocé é top!

Na ditatura, as batatas…

Uma das que mais gosto.

THE REALISTS

HOPE that you may understand!
What can books of men that wive
In a dragon-guarded land,
paintings of the dolphin-drawn
Sea-nymphs in their pearly wagons
Do, but awake a hope to live
That had gone
With the dragons?

Escrito por anapessoa
28 abr

Hoje tive um pesadelo tão engraçado, mas tão engraçado que acordei às gargalhadas.
Eu não posso contar porque eu iria perder um tempão para chegar ao fim da história.

look book

Mas tem a ver com mundo digital – o assunto de ontem.
Então vamos à dimensão paralela.

A idéia de ser digital, para mim, tem tudo a ver com Caio Fernando de Abreu. Escrevo umas frases dele que sei de cabeça.

” Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada ‘impulso vital’. Pois esse impulso ás vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como ‘estou contente outra vez’ “

O Caio deve ter sido aquele cara que levava desaforo para casa.
E transformava em literatura.
Porque só tem uma época na vida em que acreditamos que falar por último ou ser naif/irônico é muito importante. A época em que não somos humildes.

Pois o mundo digital é Caio. Ele transforma a paulada de hoje no conforto de amanhã.

Estou chegando em casa agora – sai para uma reunião as 19h e acabei perdendo o francês e ouvindo o que aquele homem tinha a dizer. Ele não me contou muita coisa nova. Mas jogou uns números doidos no ar.
Vocês viram que a Fiat está fazendo um carro todo baseado em palpites e idéias dos internautas? 30 mil enviaram suas elucubrações para a montadora.
E o Brasil que tem 40 milhões de habitantes nas redes sociais? E, segundo avisa Rodrigo Guzman, é também o país campeão de pedidos de “censura” no Google. Dizem que tem a ver com direito de propriedade…
Ah! Na América Latina estão os habitantes que passam mais tempo em frente do computador.

Adoro, adoro estatísticas socio-culturais. Acho que tem a ver com ter nascido numa família de engenheiros, estatísticos, matemáticos… E uma advogada fora da curva – minha mãe. Aí nasci híbrida. Risos.

E o que eu acho da tradição? TV, jornal, papel? Eu não troco meu Baudelaire de verdade por um kindle de plástico.
Mas ainda vou ter um kindle.
E você?

Termino esse post híbrido como eu com duas sacadas do Caio que são daquelas de fechar o boteco e de pedir mais uma em outro lugar, um lugar desconhecido.

“Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida me enfia pela goela a baixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar.”

“Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.”

Escrito por anapessoa
27 abr

A Geek (traduzida no Terra) hoje vem com uma pesquisa ótima: “Americanos ficam 60% do tempo na web móvel em redes sociais.” O que dizem:

O surpreendente é que apenas 14% do tempo é utilizado na visualização de portais, categoria tida como a segunda mais popular, segundo o Mashable. “Isso demonstra como as redes sociais acabam impactando o tráfego na internet móvel”, disse o vice-presidente de marketing da Groud Truth, que realizou a pesquisa. De acordo com os dados levantados pela Groud Truth, em algumas semanas o uso de mídias sociais a partir de dispositivos móveis chega a superar os acessos a partir de computadores pessoais em sites direcionados ao uso móvel em comparação a redes sociais criadas para o uso em computadores, como o Facebook ou MySpace, destaca o site PR-USA.

Para o site TechShout, essa pode ser a estatística que faltava para fazer com que as grandes redes sociais, como o Facebook ou o MySpace, e também empresas de publicidade passem a se interessar pelos usuários que navegam a partir de dispositivos móveis. (TERRA)


Vivendo num pais onde a população não tem dinheiro para comprar um computador (com CPU), tenho certeza que a onda já chegou por aqui. Pois  acompanhem os números:

- em 2001, 15% dos brasileiros tinham celular;

- em 2008, mais da metade dos brasileiros com de dez anos de idade ou mais, ou seja, cerca de 86 milhões de pessoas, tinham telefone celular para uso pessoal

Ser moderno X ter discurso modernoOs dados são da ‘minha’ consultadíssima Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad – IBGE), divulgada em dezembro do ano passado.

A coincidência é que hoje, ouvindo rádio no carro, ouvi o especialista em novas mídias contar que uma TV a cabo (Alô AC, é da sua empresa mesmo que estamos falando) quer investir 15 milhões de dólares para oferecer acesso, mas a nossa legislação não permite. A empresa não está fazendo nada por bondade, mas porque sabe que existe mercado.
Pois temos celular, mas o acesso à rede ainda é caro e com cobertura ruim.
O comentarista alfinetou o presidente, que defende a democratização digital para aumentar o acesso ao conhecimento… Mas nao muda as leis e finge que nao pode fazer nada. A discussão é grande e poderíamos passar horas aqui…

Para resumir, eu acho que a rede é algo que já existe. E tem uma força capaz de derrubar gigantes.
Já discuti aqui a história do Kindle e o direto à propriedade – que é um gigante travestido de Robin Hood.
Sobre esse tema do post, penso que é preciso quebrar preconceitos e entrar logo nessa onda.

Como a história prova, quem ficar de fora, vai pagar caro por isso. E quem entrar por entrar, vai se queimar. Mas para dar essa virada, é preciso coragem – pois como tudo na vida, a diferença entre o discurso e a ação muda a história.

Escrito por anapessoa
26 abr

Responda rápido e sem pensar: o que você faz com 11 anos de história?
Eu ando batucando este samba na minha cabeça. E não encontro enredo nem melodia.
Dizem por aí, que uma coisa atrai a outra.
Pois meu plano A ruiu por completo. Não tem choro nem vela.

Tudo ao mesmo tempo e agora, dona Ana.
Desta vez, mais do que sempre.
E você vai ter que decidir.
Casar ou comprar uma bicicleta são questões muito mais fáceis de resolver.

Hoje, com calma, comecei a mudar algumas coisas na vida. Coloquei prioridades.
Comer – direito e na hora certa – uma vez.
Fazer ginástica para o estresse sair junto com o suor.
Parece bobagem, mas não é. Está difícil para caramba de fazer.

Ainda não parei para respirar e sei que isso atrapalha. Mas é só o que consigo controlar agora.
Comer uma vez por dia na hora certa.
Fazer ginástica 2 horas por semana.

Como é difícil nascer e renascer a cada dia.

Escrito por anapessoa
25 abr

Vesti uma camisa listada… Quem mandou mudar para Belo Horizonte?

Mudou-se para Belo Horizonte, trabalhou na Rádio Mineira e entrou em contato com compositores amigos da noite, como Rômulo Paes, recaindo sempre na boêmia. De volta ao Rio, jurou estar curado. Faleceu em sua casa no bairro de Vila Isabel no ano de 1937, aos 26 anos, em consequência da doença que o perseguia desde sempre.

Que lindo não chegar aos trinta e não ter que pensar no que não fez.

Você suspeita que eu não seja um bom sujeito.
Para tudo conte comigo.

Quem conhece essa mulher
é que sabe o que ela é

Segurança era a única coisa que ele não desejava
“Now we rise, and we are every were”

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando

Ce qui suit dévoile des moments clés de l’intrigue.
On comprendra, après mes explications, que je l’aie dit sans aucune intention de blasphème et seulement avec l’affection un peu ironique qu’un artiste a le droit d’éprouver à l’égard des personnages de sa création.

Porque se chamava homem
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem

Maybe I have been here before
I know this room, I’ve walked this floor

Os “primeiros erros” inauguram uma fatalidade que, de elo em elo, semeará a desgraça numa família, inevitáveis seqüelas da irresponsabilidade e da desobediência.

Para mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta.

Escrito por anapessoa

Do lado direito, Ana Pessoa a caminho do aeroporto

A vida na telinha é muito mais bacana.

Esse blog, por exemplo, é muito provavelmente uma cópia baratinha de uma série sem muita audiência de uma TV da América Latina. As histórias tentam sempre acabar “para cima”. Mas não escondem aquele exagero latino – com drama, cor e nonsense.

Eu, por exemplo, estou pagando a língua e o cartão de crédito por ter ousado pensar em voltar na Executiva nessa última viagem.
Pensei, reservei e iria perguntar no balcão. Viajei, ainda não paguei e o caso virou tema de auditoria. Ai, como é duro nascer na Classe B e ter cara de Classe C. Nem pensou, já está errado com direito a reprimenda.

Hoje, pleno sábado de sol, tive que deixar dois leitores/colaboradores de fora da “minha” revista – seria minha se não tivesse uma “arte” tão complicada e com tantas vontades que não têm nada a ver com um produto feito para ser bonito e vender. Vira egotrip e falta de traquejo social. Explico a puxada de tapete: o tema que era “casamento americano” descambou para uma velhusquice de “renda”. E aí a crônica com história e a bolsa descolada ficaram “too much” para essa edição. Sarah e Leo, estou devendo várias para vocês. E estou com vergonha. Mas foi-se o tempo que editor era chefe…

Na real, a gente faz cara de paisagem e finge que “la vita è molto bella”.
Aqui, por exemplo, só o lado rosa. As fotos, escolhidas, as histórias, editadas.
Não preciso repetir que ainda não dormi o que o corpo pede. Que ando adiando decisões de vida por puro medo e uma grande dose de preguiça.
fim de carreira, aqui vou euQue gastei 250 paus para fazer pé e mão e dar uma hidratada no cabelo.
Mas a foto ao lado é a própria ressurreição de Nelson Rodrigues, meu líder espiritual.
Onde se vê viagens para lugares inusitados e vida “loca”, leia-se falta de rumo e um exibicionismo visceral.
Onde o cabelo desalinha e a noite promete, leia-se “Facebook e hoje, assim como ontem, fiquei com sono”.
Neste sábado promissor, não fui dançar música cubana, não aproveitei o visual “saidinha do salão” para agitar por aí (com a barriga para dentro).
Esquentei a sopa de mandioquinha congelada (8 minutos e um twist de sal marinho), tomei o vinho que abri ontem – portanto estava com a temperatura abaixo do ideal e mostra que poderia ter deixado para lá.
Porque ter mais de 30 e 5 é um porre muitas vezes.
Sem o pique de quem tem a vida toda para errar.
Sem a garra para brigar até o último minuto.
Sem coragem para começar tudo de novo.
E meio de saco cheio para quem tem vinte e acha que sabe tudo ou que tem tempo para dúvida.

Andam dizendo que estou meio sem humor. Justo eu!
Nelson, meu pai, ajude-me.

Peguei meu conselheiro – tomo 4 da coleção da Cia. das Letras – e eis que ele me escreve:

“Somos burros, burríssimos.

… se o diáfano espectro de Maria Stuart virou crioulo, há de ter sussurrado: – Vá jogar assim no raio que o parta!
Mas eu dizia que toda a cidade parou. As nossas madames Bovary, as nossas Anas Karêninas suspenderam seus amores e seus pecados, das três às seis. Os bandidos do Leblon não assaltaram senhoras nem crianças.
(…)
Ontem ninguém era credor nem devedor.
Éramos apenas brasileiros, da cabeça aos sapatos. No centro da cidade, durante o jogo e depois do jogo, toda a cidade se inundou de papel picado. Chovia tudo das sacadas. Quando Garrincha fez o segundo gol, até papel higiênico foi atirado das janelas altas. Mas a nação inteira crispou-se de sonho.
Doce escrete do Brasil! Nós o malhamos, aqui, como se ele fosse um judas de sábado de Aleluia. O Maracanã, o Morumbi, o Pacaembu e o Mineirão vaiaram seus craques. E, assim humilhada e assim ofendida, partiu um dia a seleção nacional. Partiu para a gigantesca jornada do Tri. E aconteceu o milagre: a distância aproximou o escrete do povo. Sim, o exílio deu-nos a verdadeira imagem do time brasileiro.”

De duas, uma: ou vou jogar futebol, ou atiro papel higiênico da janela.

Canto I Do Inferno

Escrito por anapessoa