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Umbigo enterrado

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Fazenda do Pará

Ao lado de onde estamos na velha fotografia havia uma enorme castanheira.
Dela, delícias pequeninas do Pará.
Horas incansáveis de buscas entre folhas, terra e gravetos.
Tec, tac, tec.
Pedras para quebrar a casca.

O curral.
Ainda ouço bezerros aos berros.
Mães que enchiam tinas respondem com caaaaaalma.
Tomar o leite ainda quente e misturar um pouco de açúcar cristal na espuma densa.
Conhaque, espuma e leite gordo.

Suco de folha colorida.
Borboleta 89.
Contar bichos de pé.
Raspar casca de canela.

Meu avô tem hoje 90 anos.
Falo com ele todas as semanas.
Para eu voltar a vê-lo em carne, osso, pescoço e poesia faltam alguns aeroportos e quase dois meses.
Enquanto isso, matamos saudades em telefonemas aos domingos.

Deve ser grande saber-se pequeno com tanta estrada.

Leituras de domingo

domingo, 30 de janeiro de 2011

Estou em Belo Horizonte por um motivo principal: meu avô comemora hoje 90 anos.
Meu avô foi médico por obrigação (acho que nunca clinicou e trabalhou como sanitarista), fazendeiro por paixão e hoje é uma criança grande.
Passa os dias desenhando, colorindo, vendo gravuras.
Ele está inteiro, a cabeça funcionando, argumentação nota 10, continua sintonizado na TV francesa e lendo seu Estadão diário.
Mas desconectou-se do mundo prático (contas, administração da casa, etc) e vive assim, de poesia.
Pode parecer triste, afinal, a velhice deixa as pessoas de certa forma menores, frágeis, expostas.
Mas eu acho sublime.
Aos 90, penso que a morte nos visita a todo minuto e só conseguimos nos concentrar no que realmente nos interessa.
No caso dele, as artes.

Ontem decidi o que fazer com o corpo da Mafaldinha.
Fiquei arrastando correntes pelo vento.
Só viveu 12 anos, sofreu muito, que tristeza, blablablá.
O que vou fazer?
Como o corpinho do Bibi teve outro destino, pensei em fazer algo para me despedir dos dois.
Daí a contratacão de uma empresa – coisas que, imagino, só existam em São Paulo – especializada em cremação de animais de estimação.
O que vou fazer com as cinzas?
Não sei.

Bom, esse preâmbulo sem lé com cré é para chegar aqui.
Como acho que estou terminando essa fase gigante de transição, minha mãe saiu comprando livros que me fizessem entender minha própria miséria.

corridas e outros domingos

(Se você não tem mãe jovem e doutora que agora estuda filosofia e teologia, talvez não entenda esse método de alento materno)
“The Diaries of Adam and Eve”, de Mark Twain, comecei a ler ontem.
E Adão já aparece danado com aquela mulher que resolve colocar nome em tudo.
E admirado.
O livro, considerado por muitos, a melhor obra de Mark Twain é de uma inteligência – e consequente ironia para tratar de um tema tão complicado – que chega a ser pesado.

Hoje, deixei de lado a questão de gênero e me atirei num Murakami.
Não um dos clássicos, mas o revelador “Do que eu falo quando eu falo de corrida”.
Se você pensa que este é um livro (chato) para maratonistas, esqueça.
É um livro sobre quem já fez a transição e, agora, começa a olhar para trás e entender.
Um livro para tratar de perseverança.

Estou aqui, de camisola, numa sacada de classe média alta com vista para as montanhas e as favelas, mergulhada nas descobertas de um corredor solitário que teve a obra traduzida em 38 idiomas e ganhou o prêmio Franz Kafka.
Pensando nos passos que já começaram a se desenhar – é uma pena eu não poder compartilhar com vocês duas mudanças fortes na minha vida.
Pensando no que ficou para trás e como me construí apesar disso.

Estou atrasada para a festa do vovô.
Por que tudo o que penso em escrever acaba sendo melhor do que o que realmente escrevo?