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Casa nova

quarta-feira, 14 de março de 2012

Carlos

A Companhia das Letras promove hoje o lançamento de quatro novas edições da obra de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).
“A Rosa do Povo”, “Claro Enigma”, “Contos de Aprendiz” e “Fala, Amendoeira” são os primeiros dos mais de 40 livros que a nova editora do poeta pretende publicar nos próximos quatro anos.
O evento “Drummond e o Mundo” terá direção e apresentação do compositor e crítico José Miguel Wisnik.
Drummond também será o homenageado deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Curiosamente o assunto não foi manchete hoje.
Manchete é bandido que explode caixa eletrônico, é assassino em jet ski, é senador que “rompe” com presidenta.
Brasil, sil, sil, sil, sil.

Drummond de capa nova, sem cheirinho de naftalina – como todos os do meu acervo?
Vamos ao primeiro livro, com 55 poemas, escrito na década de 1940.
Uma rosa nasce para o povo, será a poesia para o coletivo?
O poeta escrevia sob a luz dos duros acontecimentos da 2a Grande Guerra.
Nas páginas, escancaradas “sua indignação e tristeza melancólica com o mundo, com a violência e com a necessidade de se ter uma ideologia…” (por Márcia Lígia Guidin)

No primeiro (e, talvez, mais famoso) poema do livro, “Consideração do poema”, o poeta declara:

“Não rimarei a palavra sono
Com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
Ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
Elas saltam, se beijam, se dissolvem,
No céu livre por vezes um desenho,
São puras, largas, autênticas, indevassáveis.
Uma pedra no meio do caminho
Ou apenas um rastro, não importa.
(…)”

O fato é que, diferentemente do humor de outros livros, nestes poemas CDA tem um tom solene, grave e triste. Vejamos um trecho de outro famoso poema, “Procura da poesia”:

“Não faça versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
Não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. (…)”

E como o poeta se via no cotidiano da cidade, em outro famoso poema, “A flor e a náusea”:

“Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me? (…)”
(Leia a reportagem completa em http://vestibular.uol.com.br/ultnot/livrosresumos/ult2755u120.jhtm)

Ah, mundo vasto mundo, no dia em que o poeta ganha nova edição, para mim nada é mais importante.
Celebrar Drummond, a poesia, a arte até quando política.

Numa quarta com cara morna de segunda atôa, deixei meus afazeres de lado, misturei Wilde com o poeta mineiro de minha preferência e esqueci de contas, de emprego, de pés no chão.
Voei, voei.
E ainda estou no alto.
Feito balão de gás.
Uma hora esvazio e ninguém vai saber onde fui parar.