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O amolador

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Avô, pai, filho

Em seu roteiro, Vila Romana, Lapa, Pompéia.
Ironia do destino, carregava a bicicleta por toda a cidade mas nunca tivera coragem de se aventurar sobre rodas.
Herança de família.

O avô rodava a cidade com sandálias de tira de couro. E gritava alto para chamar os clientes.
Quando o filho casou, juntou todas as economias, tomou um empréstimo com o agiota do bairro e deu a bicicleta.
Foi por causa dela que morreu – dois assaltantes, quatro punhos, quatro patas.
Caído no chão, chutado, usou o apito recém comprado. O socorro chegou tarde.

Quando fez 15 anos, dois presentes: a bicicleta do pai e o ofício do avô.
Amolador de facas.

Hoje cedo aproveitou o sol, o céu.
Passou pelo casal que, diferente dele, acordara tarde.
Roupas esportivas.
– Chame no 72 em cinco minutos. É um conjunto.

Quatro reais por peça. 6 com cabo de madrepérola.
Em casa, tinha colheres, garfos – vários de plástico, recolhidas pelas ruas, lixeiras de lanchonete.
E uma faca – faca de serra.
Impossível de amolar.

Dias depois, nos jornais, na TV, em todo lugar.
Empurrando a bicicleta, não soube de nada.
Gira mundo e não enxerga ao seu redor.

Dizem que foi pacto.
Crime premeditado.
Usaram facas afiadas, trazidas da África.

A mancha marrom de sangue coagulado nunca mais saiu do assoalho.