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Água em marte

terça-feira, 29 de maio de 2012

Procura-se abrigo

Encontraram água em Marte?
Se eu usar um escafandro moderno posso respirar?

Essa sensação que me voltou hoje surgiu pela primeira vez em 2001.
Depois de um período vivendo em Cuba, cheguei em São Paulo e fiquei catatônica em frente a uma prateleira de supermercado.
Juro que pensei em consultar um psiquiatra.
Era pós-Torres de Nova York, era pós-Cuba dos anos 50 corrompida até os ossos, era um momento em São Paulo frenética, desorientada, era necessidade de pagar aluguel.

Hoje fiquei com vontade de escrever para sir Richard Branson criar logo uma rota TERRA-MARTE.
Eu venderia a alma para me exilar em outro planeta.
Levaria umas mudas de roupa, o filho, umas fotos em papel.

Hoje, estupidamente, abri um vídeo enviado por ativistas sírios.
O vídeo não tem nem 10 segundos.
E mostra as crianças mortas, com tiros enormes, do tamanho de uma nação.
Os adultos sacudindo aqueles trapos sem vida, gritando por não ter pátria, por não ter fé.
Todos, eu e meus problemas tão pequenos e tão duros incluídos, precisando fugir da Terra.

Um governo que manda matar velhos, mulheres, crianças.
Gente escolhida ao acaso.
Efeito colateral de um líder covarde e violento, de um mundo perdido, de um desesperançado século XXI.

Por aqui, ex-presidente tão bandido quando qualquer anterior.
Um corrompido cheio de soberba – como aquele de lá, por que não?
Ex-ministro defensor de bicheiro assassino em troca de 15 milhões de reais que ninguém sabe (mas todo mundo desconfia) de onde saíram.
Repórter que recebia benesses de bicheiro
Ministro encontrando com ex-presidente lobista querendo atrasar julgamento dos ladrões da pátria.
Por aqui, vizinho que quer dar golpe em condomínio.
Gente que mente na sua carta.

Por aqui, tudo reduzido a um salve-se quem puder.

Ontem brinquei em rede social: “Meu pirão primeiro! É muita marmelada…”
Brincadeira de péssimo gosto.
Quero ir embora.
Para muito muito muito longe.

carpete

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
tortos

tortos

Arrastando quilos de coisas – caramujo de táxi.
Uma trilha brilhante mostra o ponto de partida.
Na volta à casa, perdi meu sentimento de lar.
Um mês e meio fora para quem havia jurado nunca tanto sumir.

Anestesia.
Casa.
Alma.

Um cano estourado me trouxe de volta à tona.
Sem banho.
Sem comida.
Numa São Paulo vazia.
De repente, feliz.

Como pode ser assim, perdida?
(e com canelas debaixo d’água)

Coco, cocada e quebra-queixo

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Les fleurs du mal

Acordo às cinco da manhã, faço uma hora e vou caminhar.

É calor logo cedo para os transparentes.
Em Boa Viagem, admirei-me com o que vi: cerca de cinco homens de uniforme azul royal no alto dos coqueiros.
Pensei logo: que bacana, a prefeitura poda as folhas secas dos coqueiros.
Poda?
Que nada, macacada…
Mutila.

A turma cortava, sem piedade, os brotos de coco, os cachos floridos, branquinhos e tão poéticos.
Eram dezenas, quase centenas, de cocos em produção sendo ceifados deste pobre verão.
Uns hão de dizer que é para proteger o povo que vai à praia.
Ora, bolas, quem passa debaixo de um coqueiro sabe que coco dá.
E a água vale o risco quando o sol é inclemente.

Pelo calçadão, a imagem do velório.
Algumas senhoras recolhiam galhos e flores para por eles orarem mais tarde.
E eu fiquei borocoxô.
Dia feio de gente má.

Nem Baudelaire aguentaria.

Anéis de saturno

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Parei na banca.
Água de coco (preferia um chopp – mas as 8h da manhã, melhor não me exibir).
A vista embaçada de calor.
A cabeça queimando.
Tirei o tênis.
O vendedor perguntou se eu era gringa.
Falei que sim: alienígena de Órion.
Ele não discutiu se a constelação do equador celeste era habitável.
Disse que nasci em Bellatrix.
Ele perguntou se nevava por lá.
Dei de ombros e expliquei ser tudo culpa de Apolo.
Pobre Artêmis, chorei.
– Mas, encerrei a conversa, a 240 anos-luz da Terra o azul espectral compensa.
Ele fez que sim com a cabeça, perguntou se queria outro coco.

Descalça.
Com areia nos cabelos, corri para dentro de casa.
Ar-condicionado: 24°C.
Em menos de dez minutos, saí do planeta.
Dizem que os anéis de Saturno são feitos de gelo, poeiras e material rochoso.
Eu desconfio que haja algo mais.
Se você estiver em Botswana, conte-me como é ver estrelas brilhando de noite.

Da série: achados microscópicos

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ver a chuva da janela.
Conta-gotas.
Soprar asas de tanajura.

Ouvir música.
Tudo o que se mistura e vira água.
Saber bicadas e subentender piados.

Falar com a bisavó.
Lembrar do gosto de pão com manteiga e café com leite.
Esquecer dos pesos e medidas.

Dia de Carlos Drummond.
Se você é mineiro, pode.
Se não, ouça – só.

Fugir como passarinho novo.
Sem saber direito como agir, asinhas.
E voltar com o peito ofegante.

Jogamos com muita raça e amor
travessuras na garoa.

Derretidos

Para Leon Cakoff.

Era uma vez…

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Saio de um avião.
A casa de pernas para o ar.
A vida prática foi feita para os outros – decido.
Durmo pouco, vôo de novo.
Confiro minha conta do cartão de crédito – Nova York tem seu preço.

Termino de ler o jornal.
Ofereço ao vizinho que olha pela janela o céu de brigadeiro.
O comandante avisa: menos 50 Celsius lá fora.
Tímido. Carente.
Fala do trabalho, da vida, pergunta sobre a terra, o telefone, a rotina.
Suave, escondo-me em meu mundo digital particular.

As crianças gritam.
Um copo de água.
O moço é todo chocolate, chicletes, praia e sol.

Eu troquei as cores por uma história em preto e branco.
Branca de neve paraguaia em Recife.
Sem férias.
Um filme B.

Só isso.