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There she goes again

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Quando eu cheguei, estava escrito que eu não iria me conformar.
Eu andava por aí com um caminhãozinho que tem nariz de palhaço.
No acampamento da escola, fui eleita Miss sei lá o quê.
Desfilei de fio dental e com flores de bougainville no cabelo.
No meio da “passarela”, saí correndo e me atirei de faixa e tudo na piscina.
A turma toda me acompanhou e ferramos com o evento.
Miss Take – here I am.

Larguei a natação e do alto de 1,62m (ou 1,64m dependendo da corcunda), resolvi jogar vôlei e basquete.
Adivinha quem fazia mais pontos no time?
Pulei a janela da escola em Curitiba. A mesma escola onde estudou o Leminski.
O diretor foi convencido a não contar para a minha mãe que eu havia me abrigado no internato masculino.
Haja lábia e cabeça aberta do Irmão Lino.

E veio o vestibular em Belo Horizonte.
Comunicação, “claro”.
Passei na melhor faculdade.
Tudo escrito.
E resolvi só usar roupa preta.
Comprei uma bateria com a grana da bolsa do CNPq.
Fui gentilmente convidada a não completar o período da bolsa.
Imagina que eu levava a minha baqueta para a biblioteca e tirava som de tudo – das mesas, livros, estantes, gaveteiros, ficheiros.
Tudo menos ralar para receber a grana da bolsa.
Eu fui representante da turma, presidente do CEC (D.A. para os íntimos).
E comprei uma briga do caramba: cortei a palhaçada de comprar maconha com o dinheiro público dado para a manutenção de nossa sala.
Não fui popular.
Foda-se.

Escrevi o discurso de formatura (que foi votado democraticamente – pois eu não seria a pessoa escolhida se fosse pelo rostinho bonito – e eu li vestida de Emília do Sítio do Pica-Pau).
Completamente fora de esquadro, iconoclasta, engraçada, mandona, mal-criada, amiga, perdida, avant garde.
Eu simplesmente não me encaixava – encaixo.
Então eu não grilo com a falta de peças, com o encaixe de cubo mágico – você precisa tentar mais de uma vez para acertar a seqüência.
Comigo, pelo menos.

Aí veio o mundo.
Escrevi na Veja.
Trabalhei na Globo.
Pesquisei livro do Jabor.
Conheci muita gente “famosa”.
E a música foi ficando para trás.
Larguei minha câmera fotográfica.
Dei o pé no fotógrafo, no designer.
O cabelo ruivo voltou ao natural.
Troquei as calças Vision por tailleurs.
Cuba por Paris.
Buenos Aires por Nova York.
Comprei casa, carro, fiz filho, descolei cachorro.
E virei gente grande.
Fiquei modesta, adorei um cartão de visitas, aprendi a me enfeiar para ser mais respeitada.
“She’s down on her knees, my friend”

Aí fiz 40.
E dizem que vem uma crise junto com esta idade.
Crise boa do caramba.
O passado veio voltando e cobrando a conta.
O presente foi se transformando.
Comecei a me redescobrir.
Rueira.
Sem vergonha.
Magra? Forte feito o Hulk.
Bonita sem pudor nenhum – não, não sou Giselão, mas sei te enfeitiçar feito nenhuma outra.
Yogini.
Destemida.
Descobri que creio em tudo, não sou atéia.
Descobri a fé.
Descobri que amo ajudar.
Não é dinheiro que me move.
Foda-se.

Descobri que sou um traveco mesmo.
Nasci torta, um hominho de saias.
E uma menininha escondida – às vezes.
Conheci uma penca de gente linda.
Falei tudo o que que me veio à cabeça.
E não parei mais.

Falo, abraço, beijo, ajudo, ajudo, ajudo.
Não durmo.
Não ligo.
Eu escrevo.
E eu descobri que ser feliz é isto.
Vim ao mundo para tomar todas as porradas e transformar.

Sou feliz de fato.

She’s gonna bawl and shout
She’s gonna work it
She’s gonna work it out, bye bye

Velvet Underground

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Sobre o texto de Fernanda

sábado, 5 de fevereiro de 2011

“Ah… minha querida, eu tenho medo é dessa simbiose da gente…
com você quis mais que um casamento… eu quis tocar uma verdade”

Eu sei que vou te amar

Desde que virou colunista da Folha, não perco um texto da Fernanda Torres.
Da atriz, gosto da voluptuosa de “Eu sei que vou te amar” – e já falei com Jabor que ele nos deu o melhor da atriz cedo demais.
Engraçado que, na semana da morte de Maria Schneider, faz pensar como cada uma viveu a vida depois de um sucesso tão grande e tão verdes.
Fernanda tinha 20. Maria, 19.
Fernanda emagreceu, caiu no besteirol, casou e não te convidou.
Maria pirou, caiu mil vezes e nunca mais se levantou.
Morreu.

Bom, hoje li a Folha e pulei a coluna da atriz.
Puro descuido.
E no Facebook, o Marcelo Tas fez o que faz de melhor: puxa o saco de quem interessa.
No caso, da Fernanda.
Fiquei curiosa e li a coluna esquecida.

O texto é negro.
Fernanda caiu.
Fim de ano pesado. Mortes, dores, doenças, problemas na família.
A psquiatra receitou um Rivotril.
Ela não se deu bem.
E consultou o mar de Fernando de Noronha.
Ouviu os outros também:

“Finja! Crie um personagem e finja ser ele”, me disse Domingos Oliveira. “Quem enfrenta a realidade enlouquece, a única saída para a sanidade é uma dose de alienação. A arte é a única saída possível.”

(in Folha de S.Paulo, 05/02/2011, Rivotril – por Fernanda Torres)

Achei tudo muito irônico pois tenho visto o número de gente que acessa meu blog subir e o número de comentários diminuir.Vovó sempre fala: Ri e o mundo rirá contingo. Chore e chorarás sozinha.

Pois meus textos andam numa pretura de betume.
Fazer o quê?
Cansei de ser palhaça.
Quando eu ando feliz da vida, a veia cômica vem forte.
Quando eu estou gente grande, fico preta.
Pode-se dizer que é uma modalidade de racismo literário.
E poucos têm a coragem de se auto-revelar assim.

Há quem me pergunte se os mais próximos lêem meus textos.
Alguns não lêem declaradamente.
Preferem fingir que me conhecem na vida “real”.
Isso, sim, diverte.

Olha, hoje o sábado amanheceu lindo.
Digo com certeza por que vi o sol chegar às 6h15.
Sim, o sol nessa época fica preguiçoso.
Aproveite seu dia.
E se for assinante da Folha, não deixe de ler: Rivotril.

Mais uma vez

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente

É o juízo final
A história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer

(Élcio Soares / Nelson Cavaquinho)


César Cardadeiro - um menino que será grande (Foto: divulgacão)

Passei o fim de semana com chuva e sol.
Você também?
Passeio.
Montar uma nova casa sem se desfazer da atual.
Que experiência.
É como criar uma nova personalidade para viver uma vida paralela.
Soma-se a isso a digital…
Talvez algum psiquiatra diga alguma coisa algum dia.

Enquanto minha maratona de viagens não começa oficialmente, aproveito o dia na Vila Madalena.
Ouvindo músicas antigas.
Tomando sol na praça a observar São Paulo que desperta agitada.
A velha vida que não se conforma com o que querem nos obrigar a ser, a ter, a fazer.

Juízo final é algo forte.
Nelson Cavaquinho tinha esse dom de transformar dúvida em música.
Li ontem um texto que alguém escondeu.
E penso que literatura é mesmo assim.

A casa nova.
Pensar que tudo pode ser reescrito.
Imaginar o sol.
O mar.
E um trabalho que vai ficar 4 anos sendo preparado para ir-se embora em dias.
Deve ser forte a sensação.

Desculpe a crueza do pensamento, mas ontem percebi que os homens colocaram os membros de fora em São Paulo.
Vi baratinhas, BMWs conversíveis e outras máquinas diferentes.
Dentro, barrigudos acompanhados de algumas louras.
Era dia de F1 – essa corrida vendida e admirada pelos baixotes e carecas.
Fui comer no peruano da moda.
Pisco Sauer – adoro a mistura de angostura e clara de ovo. Como pode?

Na contra-mão, ó céus…
O filme do Jabor.
Já “trabalhamos” juntos num livro que ainda não nasceu.
Não pense na história.
Pense nas colagens de uma época em que a inocência era outra.
Eu fui não gostando, aí fui gostando, fui entendendo o que quis o diretor.
Puro Nelson Rodrigues. Sem fim. Sem precisar de sentido.
Ary Fontoura, Jorge Loredo, Nanini, Elke Maravilha – mestres.
O menino César Cardadeiro rouba a cena.

Jabor demorou 24 anos para voltar à 7a arte.
Deve ser algo assim: de ter a outra vida de volta.
Mesmo que o filme passe.

O sol há de brilhar eternamente.