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Europa, pindaíba e Pindorama

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Foi na Grécia antiga que surgiu uma teoria curiosa.
Segundo ela, nosso corpo é constituído dos humores, quatro líquidos essenciais: sangue, bílis negra, fleuma e bílis amarela.
Hipócrates, justamente o pai da medicina moderna, derrapou na curva e comprou a idéia de que distúrbios da saúde seriam decorrentes do desequilíbrio entre os humores.
Galeno classificou os temperamentos de acordo com a predominância de tais líquidos.
Fleumático seria o indivíduo lento e apático; colérico, o enfurecido; melancólico é autoexplicativo.
Essa teoria seguiu firme no arreio até o século XVII.
De lá para cá, o homem continuou ateando fogo em moças bonitas; destruindo cidades; comprando muito gato por lebre no churrasquinho de porta de estádio; pirando na batatinha (até o tubérculo minguar no mercado) – e, dizem por aí, pisando no tomate e, quando sobrava tempo e a Rússia importunava, na Lua.
Se uma pulga acabou com um terço da população da Europa no século XIV, nós é que não vamos discutir se as tais Guerras foram “Mundiais” mesmo sabendo que, do lado de cá do Oceano, a pancadaria ficou restrita a cafés e botecos de frequência duvidosa.
O fato, meu senhor, é que eu ainda duvido dos tais efeitos (ou defeitos) da globalização, mas, para não ficar de fora, recorro de tempos em tempos aos intelectuais para entender qual é a bagunça da vez que ameaça as tangas dos nossos índios.

“Onde fica a Grécia?”. “Na Pindaíba.” Isso. Grécia, capital Pindaíba! Aliás, o capital tá na pindaíba! E diz que Atenas virou Apenas!
E os gregos foram pedir ajuda a Zeus. E ele mandou pro raio que os parta. Rarará! E esta: “Bill Gates quer que o Brasil dê dinheiro para os países pobres”.
Espanha, Portugal e Itália?! Eu não vou dar dinheiro pro Berlusconi gastar tudo em quenga.
(…)
Apolo vira gogoboy da The Week. Medusa transforma pessoas em pedras e vai vender na Cracolândia. Dionísio vende seus teatros pra Universal.
E uma turma de rancorosos e hipócritas quer que Aquiles trate seu calcanhar pelo SUS.
Tudo por Atenas R$ 1,99!
Ah, e Sófocles pegou um bico na Globo. Colaborar com “Malhação”! Rarará! E a Grécia é o berço da democracia: aí o Papandreou teve uma recaída democrática e ia consultar o povo sobre o pacote europeu e o G20 democrático quase mata o cara! Referendo? Nem refudendo!

Macaco Simão, Folha de S.Paulo, 05/11/2011
http://www2.uol.com.br/josesimao/colunafolha.htm

Não adianta negar: no Brasil, tudo acaba em piada. Seja de português ou não.
Grécia, Berlusconi, Obama, crise… O que vier a gente traça.
E pergunto aos pesquisadores de plantão: de onde veio esse humor todo? No caso acima, veio da Grécia…
Rimos das desgraças alheias, rimos das nossas, colocamos em público tudo o que é privado.
E assim somos.
Jamais me esquecerei da missa no interior: eu estava com 11 anos e prestava atenção na preleção sobre adultério.
Depois de explicar o que dizia a Bíblia, o que falaram os apóstolos, Jesus e toda a turma do evangelho, o padre quis dar um exemplo.
E apontou para um casal.
“Todo mundo sabe que a fulana tem um caso com o vizinho. E o fulano está lá, casado, cumprindo com as obrigações de marido, corno manso mesmo”.
Fazer o quê a não ser rir?
Foi a preleção mais honesta da paróquia – e o corno manso, confirmando a piada, mais uma vez pagou a conta.
O nome do fulano?
Papandreou.

Grande Sertão, Veredas

sábado, 2 de janeiro de 2010

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.DSC_0108

Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.

Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa… O mais difí cil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.

João Guimarães Rosa


Pois meus planos chegaram até Goiás, fizeram uma curva e sumiram. As malas eu fui abrindo, arrumando a coisas e guardando tudo de novo. Para depois abrir mais uma vez. Eu fui saindo da civilização para parar em Minas. De Minas, Brasília. De Brasília, Goiás. Chapada e chuva.

Antes que o ano fosse embora, eu vi que o destino é mais forte. E em veia de cigana corre estrada. É sina.
No meio de um pasto, com boi de todas as cores, voaram duas araras azuis. E não é que também toca celular?

E tome estrada de volta, aeroporto… Eu que já tinha despedido de avião em 2009.
Brasília, chuva.
Belo Horizonte, chuva.
Dormi suada e com a roupa de um dia inteiro.
Cinco horas da manhã, estrada.
Café com leite, maquiagem no banheiro. Biscoito de queijo e pastel de angu.
Tudo para chegar numa cidade tão pequena e tão cheia de terra.
Barão de Cocais. Antes foi São João do Morro Grande.
Fui enterrar meu pai.

DSC_0002Fiquei pensando se escrevia. Se passava essa.
Mas me deu tanta vontade que esse texto tem vindo e voltado desde o dia 29 de dezembro do ano passado.
Um velório de interior num piso com tacos gastos.
Num clube que já não existe mais.
Durante a noite toda, choradeira, bolo, café, pão de queijo.
Água lá fora e aqui dentro.
Tinha gente que entrava para ver corpo.
Tinha doido que encontrava pedaço de bolo e calor.
Eu só cheguei de manhã.
Muita moça velha rezando.
Muito encontro de gente antiga.

Ele estava lá, com a pele amarela, de terno e coberto de flores de plástico.
Contei 13 coroas, depois chegaram mais.
Todas flores de plástico porque lá não nasce delicadeza.

Vi tanta gente de quem não lembro o nome.
Dizem que ele falava de ano novo e rezava uma oitena.
Deu três suspiros e acabou.
No bolso, a foto de um filho e um dinheiro “da sorte”.
A caçula incluiu um desenho.

A matriz ficou lotada.
Teve discurso de vereadora. Do padre que foi colega de seminário. Do primo. Do irmão mais velho.
Três dias de luto oficial.
Era estranho ser olhada, apalpada, e vestir a personagem.
Quando a procissão partiu, caiu uma chuva forte.
Jogaram logo a caixa e cobriram de terra vermelha.
Orgulho de ser “pé-de-pomba”.
Seco e sob chuva.

E o ano novo entrou com mais chuva e com muito tio, primo, galinha, peru, cidra e salpicão.
Foram horas de causos – sem censura.
Muita risada, muita piada. Briga para colocar a mesa.
Gente amontoada em quartos com muito bordado, renda, bibelô, louça antiga, boneca de pano e toalha cheirosa. Broa, biscoito de nata, pão, queijo da roça.

Se eu pudesse mudar tudo e escolher um outro reveillon, eu não mudaria nada.
E confesso sem modéstia o meu orgulho de ser de uma família louca, esbaforida, complicada, faladeira e que tem um talento danado para rir da própria desgraça e fazer de tudo isso uma grande experiência.

Feliz 2010.

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