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Coco, cocada e quebra-queixo

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Les fleurs du mal

Acordo às cinco da manhã, faço uma hora e vou caminhar.

É calor logo cedo para os transparentes.
Em Boa Viagem, admirei-me com o que vi: cerca de cinco homens de uniforme azul royal no alto dos coqueiros.
Pensei logo: que bacana, a prefeitura poda as folhas secas dos coqueiros.
Poda?
Que nada, macacada…
Mutila.

A turma cortava, sem piedade, os brotos de coco, os cachos floridos, branquinhos e tão poéticos.
Eram dezenas, quase centenas, de cocos em produção sendo ceifados deste pobre verão.
Uns hão de dizer que é para proteger o povo que vai à praia.
Ora, bolas, quem passa debaixo de um coqueiro sabe que coco dá.
E a água vale o risco quando o sol é inclemente.

Pelo calçadão, a imagem do velório.
Algumas senhoras recolhiam galhos e flores para por eles orarem mais tarde.
E eu fiquei borocoxô.
Dia feio de gente má.

Nem Baudelaire aguentaria.

Previsões equivocadas dos 20 anos

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Cá estou no Recife em meio a uma viagem de análises antropológicas.
Não, nada de Gilberto Freyre mas muito dele também pois estar no nordeste é ver que Casa Grande e Senzala persistem embora o século seja XXI.

Pra gente sair da lama e enfrentar os urubus

Com a ajuda de um GPS completamente abilolado, entramos todos os dias em bairros pobres que só não chamo de favela porque são ditos bairros.

O centro antigo, antes uma lembrança de cores e festa – Chico Science vivia e eu era uma universitária/foca da Veja cheia de idéias sem começo e nem fim – virou um amontoado de casarões que correm sério risco de desabar.
O centro perdeu as cores e virou um centro qualquer do Brasil.
Com mendigos, putas, lixo.
A diferença é que os casarões seculares resistem, mostrando que, sim, insistimos em olhar para frente e esquecer o que nos trouxe aqui.

Como é estranho ver o Recife com olhos de 20 anos, rico em cultura e histórias que iriam levá-lo a um plano diferente e ver, aos 35, que nada do que se profetizava aconteceu.
O bairro mais elitizado, onde estou hospedada, a Boa Viagem, é um cenário de novela.
Literalmente.
Um trecho, a parte nobre, tem prédios pseudo-modernos com grandes varandas com vista para o mar.
Mas aqui embaixo a história muda de figura.
A praia é suja e o calçadão só é bem conservado nos trechos onde a Casa Grande domina.
Mas para a novela o que importa é o mar azul.
Com um bom filtro na lente, esses detalhes somem.
Atrás dos prédios, onde os tapumes mostram que o Projac acaba, vielas sem pavimentação, ruas tortas e sem planejamento, casas, casebres, lixo, muita pobreza.
Sem contar as avenidas de acesso que mostram que uma cidade sem plano urbanístico rapidamente perde personalidade.

Havia bairros agradáveis em minha memória: Casa Amarela (onde mora Ariano Suassuna), Casa Forte.
Descobrimos outros no entorno: Jaqueira, Espinheiro, Madalena.
São ruas arborizadas com edifícios modernos (leia-se muito vidro e ladrilho) cercados (ó sina) de pobreza por todos os lados.

O rio Capibaribe é lindo.
Seu nome deriva da língua tupi – Caapiuar-y-be ou Capibara-ybe (ou ipe) – e significa rio das Capivaras ou dos porcos selvagens.
Engraçado é que já vi famílias de capivaras na Marginal Pinheiros.
Aqui, vi esgotos e favelas ciliares.

O período eleitoral me leva a Brasília Teimosa.
No fim da Boa Viagem, 400 famílias vivem em palafitas feitas de restos de tudo.
Crianças caminham por ruas com esgoto a céu aberto e sem pavimentação.
Lula, depois de eleito, foi até lá e prometeu uma vida melhor.
A vida não melhorou.
Mas deve mudar: como a área é nobre, é questão de tempo para que sejam todos despejados.

Sim, fui conhecer as praias que o Guia 4 Rodas elegeu com as mais belas do país.

Brasília Teimosa, foto de Luiz Baltar

Chegamos em Porto de Galinhas e me assustei.
Cuspida pelos resorts, a cidade se revela um caos.
Vielas sem pavimentação, sem esgotamento, vias públicas transformadas em particulares.
A vista é bela.
Mas para se chegar lá, há que se fechar os olhos.

Vamos então mais longe, para Carneiros, a procura do idílio.
Os coqueiros ainda não foram derrubados para abrigar casas de aluguel – e elas são muitas.
A igrejinha do século XVIII resiste na boca do mar com seu verde e branco colonial.
Os nativos, quando não viram garçons, vendem castanha, alugam cavalos e barcos.
A água é quente.
O peixe, farto.

E eu fico aqui pensando comigo: deixar o caos confortável de São Paulo e descobrir que ainda sou senzala em Pernambuco?
Na minha cabeça tenho ouvido repetidas vezes um antigo hit do The Clash.