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Paisagem de sete faces

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Estrada No fim de ano fiquei maníaca com as paisagens de asfalto. Avião é muito prático, mas, da janela, quase tudo é sol e nuvem. Daqui de baixo, a paisagem tem algo de louco e de solitário. É muito mais forte.

Pelas estradas do sudeste-centro-oeste, o que mais me impressionou foi o contraste do verde escuro com o céu. Cada dia era uma explosão de nuvens e de luz.

Para dar um tom de aventura, e para não perder um minuto, fiz todas as fotos de estrada com o carro em movimento. Acho que, depois do malabarismo, até consigo prender mosquito com hashi.

Estou loucamente apaixonada com a biografia de Movsha Khatskelev ou Marc Chagall. Russo, judeu, pintor, habitante dos séculos XVIII e XIX. Isto sim é aventura. Como acabo de sair da “auto”biografia de Andy Warhol, acho que o impacto ganha mais cor. Imagine nem falar francês, comer pepino e arenque dia e noite porque Paris estava com os preços pela hora da morte, e circular com Modigliani, Léger, Apollinaire e Blaise Cendrars – que deu título a várias obras do artista. Circular pelo mundo antes e durante as grandes guerras. E enfrentá-las de pé. E viver. Simplesmente.
No dia em que Elvis completaria 75, eu trocaria seu ukelele preferido por uma máquina do tempo – e seria russa no século passado.

Depois de uma semana imersa em terra e poeira de minério das Geraes, ficou tudo claro: os mineiros são um pouco russos. Nenhum povo é mais naïf e enraizado nessa terra do que os filhos de Minas Gerais. E como vivem presos e atormentados pelas montanhas. Moram em paraísos, mas não saem de casa. Numa noite sem lobos e com vinho e chocolate no Caraça, fiquei vendo as sombras e roubando os causos dos outros. Galinha, lobo, dívidas, pão caseiro – nada disso é novidade. Cachoeira, dinheiro, conforto eletrônico – isso é para outras gentes.
Dormir tarde para contar histórias, falar dos outros. Acordar cedo – porque “tem” que ser assim.
Conhecer a pessoa pelo sobrenome, pelo nariz, pelas mãos. Algo tão primitivo e reconfortante.
E atravessar muitos nãos – é proibido descer a trilha de bicicleta, é proibido trazer animais, é proibido servir bebida a quem não está hospedado, não pode, NÃO, nada. Aí penso na herança portuguesa. Culturalmente, as presenças romana, germânica e moura foram muito significativas para os povos do “país dos poetas”. Ora, poetas se não são loucos, são melancólicos. Misturados aos disciplinados alemães e aos polivalentes romanos… Se são alegres são outro povo. E daí que “nãos”, batatas e ovos nos alimentam.

Solto na cidade de 10 milhões, você se permite mil delitos.
Mas faz questão de não dizer e de não saber nomes.
Preso entre as montanhas, vira outro.
Preocupado, ocupado, informado, comendo muito em pouco tempo.
É tarde, é tarde, é sempre tarde.

DSC_0066E foi justamente por conta dessa reflexão compulsória que escolhi um trecho do poeta itabirano para fechar nossa sexta-feira e o meu post.

“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
É feia. Mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

Carlos Drummond de Andrade