Posts com a Tag ‘Brasil’

O Brasil pelos brasileiros gaiatos. E a França… deixa para lá.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Aqui são umas das minhas observações, as vezes um pouco exageradas, sobre os franceses e outros estrangeiros no Brasil.
Nada sério.
E um adendo: todo o meu amor e respeito aos gays do mundo.

1 – Aqui no Brasil, tudo se organiza em fila: fila para pagar, fila para pedir, fila para entrar, fila para sair e fila para esperar a próxima fila. E duas pessoas ja bastam para constituir uma fila.
Na França a fila também não falha: é a juventude desesperada para tomar café gelado no Starbucks (americano sempre fatura com francês) ou então fila de gente no último trem do metrô. Porque taxi, fio, ninguém está podendo. Já vi até fila de rato na entrada do metrô Sèvres-Babylone, aquele que sai na porta do Le Bon Marché.

2 – Aqui no Brasil, o ano começa “depois do Carnaval”.
Lá na França começa sempre depois dos protestos dos jovens que não querem trabalhar mais do que 4 horas por semana. Imagina o absurdo.

3 – Aqui no Brasil, não se pode tocar a comida com as mãos. No MacDonalds, hamburger se come dentro de um guardanapo. Toda mesa de bar, restaurante ou lanchonete tem um distribuidor de guardanapos e de palitos. Mas esses guardanapos são quase de plastico, nada de suave ou agradável. O objetivo não é de limpar suas mãos ou sua boca mas é de pegar a comida com as mãos sem deixar papel nem na comida nem nas mãos.
Lá na França, confirmando a lenda, o povo acha uma loucura lavar qualquer coisa. Prato, bumbum, pé. Experimente dar uma volta pelo Bassin de la Villete numa noite quente e você verá a maior concentração por metro quadrado de sandálias finérrimas tipo Roger Vivier em pés absolutamente imundos. É uma coisa tão impressionante que, só de lembrar, perco o sono e corro para um dos meus 5 banheiros para lavar os minhas patinhas de tupi-guarany.

4 – Aqui no Brasil todo é gay (ou ‘viado’). Beber chá: e gay. Pedir um coca zero: é gay. Jogar vólei: é gay. Beber vinho: é gay. Não gostar de futebol: é gay. Ser francês: é gay, ser gaúcho: gay, ser mineiro: gay. Prestar atenção em como se vestir: é gay. Não falar que algo e gay : também é gay.
Na França, todo mundo é gay mesmo. Gay de pé sujo.
Fazer o que? O mundo é dos gays e adoro todos eles.

5- Aqui no Brasil, os homens não sabem fazer nada das tarefas do dia a dia: não sabem faxinar, nem usar uma maquina de lavar. Não sabem cozinhar, nem a nível de sobrevivência: fazer arroz ou massa. Não podem concertar um botão de camisa. Também não sabem coisas que estão consideradas fora como extremamente masculinas como trocar uma roda de carro. Fui realmente criado em outro mundo…
Eu também, talvez tenha sido criada em Marte.
Aí a francesada chega no Brasil, contrata uma babá e empregada e esquece rapidinho tudo o que aprendeu.

6 – Aqui no Brasil, sinais exterior de riqueza são muito comuns: carros importados, restaurantes caríssimos em bairros chiques, clubes seletivos cujos cotas atingem valores estratosféricas.
Ué, minha gente, lá é até mais fácil de achar a riqueza. Pegue o mapa dos bairros e siga a renda média anual das famílias abastadas.
75007 – 380.959 euros
75006 – 341.639 euros
75008 – 307.710 euros
75004 – 280.526 euros
Em primeiro lugar no 7ème arrondissement, o bairro da Torre Eiffel. Morar em apartamentos situados ao longo dos jardins da Torre Eiffel, ao longo da Esplanada des Invalides, ou nas belas avenidas no interior deste bairro é um privilégio. Ele é considerado como o bairro mais elitista da capital.
Em seguida vem o 6ème, cortado pelo boulevard Saint Germain, região onde se encontra o Jardin du Luxembourg, o boulevard Raspail e o Hotel des Monnaies.
O 8ème arrondissement é a região da Avenue Champs Elysées, do Parc Monceau, da avenue Montaigne e da Place de la Madeleine.
Para ser bandido em Paris nem precisa conhecer o mapa da cidade. É só seguir a pé pelo caracol parisiense.
Mas, é claro, pobre de lá anda de metrô, mas não esquece sua bolsinha Céline made in China.

7 – Aqui no Brasil, os casais sentam um do lado do outro nos bares e restaurantes como se eles estivessem dentro de um carro.
Em Paris, nego entra num copo sujo e pede um “Cosmo”. Bicha fina é outra coisa. Opa: gay fina francesa.

8 – Aqui no Brasil, os homens se vestem mal em geral ou seja não ligam. Sapatos para correr se usam no dia a dia, sair de short, chinelos e camiseta qualquer e comum. Comum também é sair de roupas de esportes mas sem a intenção de praticar esporte. Se vestir bem também é meio gay.
Na França, a juventude dourada faz fila nas Galeries Lafayette para comprar Havaianas.
Vai entender o conceito de vestir bem.

9 – Aqui no Brasil, o cliente não pede cerveja pro garção, o garção traz a cerveja de qualquer jeito.
Na França você pede e o garçon não traz. Você gasta horrores o o garçon continua fazendo carão.
Penso que deve ser bacana entrar num bar e já ser servido logo de cara. Ah, os trópicos!

10 – Aqui no Brasil, todo mundo torce para um time, de perto ou de longe.
Lá na França todo mundo torce o nariz. Pas Mal é o que mais se ouve. No lugar de: bacana, genial, fantástico – pas mal.

11 – Aqui no Brasil, sempre tem um padre falando na televisão ou na radio.
Em Paris, vejam só: programa de TV de sucesso tem bingo e jogatina no ar.
Cada qual com seu cada qual – gay ou não.

12 – Aqui no Brasil, a vida vai devagar. E normal estar preso no transito o dia todo. Mas não durma no semáforo não. Ai tem que ser rápido e sair ate antes do semáforo passar no verde. Não depende se tiver muitas pessoas atrás, nem se estiverem atrasados. Também é normal ficar 10 minutos na fila do supermercado embora que tenha só uma pessoa na sua frente. Ai demora para passar os artigos, e muitas vezes a pessoa da caixa tem que digitar os códigos de barra na mão ou pedir ajuda para outro funcionário para achar o preço de um artigo. Mas, na hora de retirar o cartão de credito, ai tem que ser rápido. Não é brincadeira, se não retirar o cartão na hora, a mesma moça da caixa que tomou 10 minutos para 10 artigos vai falar agressivamente para você agilizar: “pode retirar o cartão!”.
Quanto a isto, tenho minhas dúvidas. Penso que na França é igualzinho e um pouco mais mal educado. Nunca se viu num país tantos caixas relaxados e confusos. Nas tenebrosas liquidações de verão – soldes d’ete – as fia do caixa ficam loucas. Fora que têm que trabalhar mais de 4 horas por semana. Aí já sentiu o humor francês das bichas. Oooops – dos gays e atendentes em geral.

13 – Aqui no Brasil, os chineses são japoneses.
Bom, aqui no Brasil a gente têm um curso muito bom de história geral – e em qualquer escola pública de fundo de quintal. E rapidamente descobrimos que, no Brasil, está situada a maior colônia japonesa do mundo.
Talvez por isto, os chineses de lá – maltratados feito o cão e morando longe, nos banlieues, junto com os africanos, turcos e muçulmanos que são franceses de pai e mãe, mas continuam sendo chamados de estrangeiros – talvez por isto a gente não confunda chinês com japonês. E viado, bicha, gay e outros tipos comuns e bem aceitos em nossa fauna tropical.

14 – Aqui no Brasil, a música faz parte da vida. Qualquer lugar tem musica ao vivo. Muitos brasileiros sabem tocar violão embora “que” (sic) não consideram que toquem se perguntar pra eles. Tem músicos talentosos, mas não tantos tocam as musicas deles. Bares estão cheios de bandas de cover.
Sorte a nossa que, no Brasil, não tem ninguém fazendo cover de Non, je ne regrette rien da Edith Piaf, ou Douce France do Charles Trenet nos ônibus ou estações de metrô. No primeiro acorde de Le moribond do Jacques Brel iria ter gay e neguinho rindo alto…

15 – Aqui no Brasil, a política não funciona só na dimensão esquerda – direita. Brasil é um pais de esquerda em vários aspectos e de direita em outros. Por exemplo, se pode perder seu emprego de um dia pra outro quase sem aviso. Tem uma diferencia enorme entre os pobres e os ricos. Ganhar vinte vezes o salario minimo é bastante comum, e ganhar o salario minimo ainda mais. As crianças de classe media ou alta estudam quase todos em escolas particulares, as igrejas tem um impacto muito importante sobre decisões politicas. E de outro lado, existe um sistema de saúde publico, o estado tem muitas empresas, tem muitos funcionários públicos, tem bastante ajuda para erradicar a pobreza em regiões menos desenvolvidas do país. O mesmo governo é uma mistura de política conservadora, liberal e socialista.
Lá na França a coisa é bem mais simples: tem a Liliane Bettencourt e os políticos que ela compra para ter isenção fiscal. O Gérard Depardieu, que deixou seu país natal para escapar do aumento de impostos para os ricos, tem todo o nosso apoio – sendo ele gay ou não. Viado também.

16 – Aqui no Brasil, é comum de conhecer alguem, bater um papo, falar “a gente se vê, vamos combinar, ta?”, e nem trocar telefone.
Em Paris, se alguém falar com você, pode saber que não é francês.

17 – Aqui no Brasil, a palavra “aparecer” em geral significa, “não aparecer”. Exemplo: “Vou aparecer mais tarde” significa na pratica “não vou não”.
Lá na França quem aparece mesmo é o Karl Lagerfeld que é alemão. O resto tenta.

18 – Aqui no Brasil, o clima é muito bom. Tem bastante sol, não esta frio, todas as condicões estão reunidas para poder curtir atividades fora. Porem, os domingos, se quiser encontrar uma alma viva no meio da tarde, tem que ir pro shopping. As ruas estão as moscas, mas os shopping estão lotados. Shopping é a coisa mais sem graça do Brasil.
Lá em Paris, o povo também enlouquece no shopping. Adora um tricó no Le Bon Marché, ou nas Galleries Lafayette.
Agora, calor humano mesmo é no metrô em julho. O povo francês adora um bodum coladinho no cavaco.

19 – Aqui no Brasil, novela é mais importante do que cinema. Mas o cinema nacional é bom.
Em Paris, cinema americano arrasa. Filme francês, como eles dizem, é coisa de viado.

20 – Aqui no Brasil, não falta espaço. Falam que o pais tem dimensões continentais. E é verdade, daria para caber a humanidade inteira no Brasil. Mas então se tiver tanto espaço, por que é que as garagens dos prédios são tão estreitos? Porque existe até o conceito de vaga presa?
Em Paris não tem garagem. Ficam aqueles carros parados, todos batidos e amassados enfeiando o Quartier Latin. Não dava para fazer um estacionamento no Jardin du Luxembourg e jogar um tapete do século XV por cima?

21 – Aqui no Brasil, comida salgada é muito salgada e comida dolce é muito doce. Ate comida é muita comida.
Na França come-se pouco porque toda refeição é para levantar bandeira. O povo não tem pena nem do ganso. O coitado vive doente e entalado para garantir o foie gras da população.

22 – Aqui no Brasil, se produz o melhor café do mundo e em grandes quantidades. Uma pena que em geral se prepare muito mal e cheio de açúcar.
Você veja bem que gosto é algo que não se discute. Fazer fila no Starbucks é para os ousados.

23 – Aqui no Brasil, praias bonitas não faltam. Porem, a maioria dos brasileiros viajam todos para as mesmas praias, Búzios, Porto de Galinhas, Jericoacoara, etc.
Engraçado é ver que Saint Tropez, Marseille estão sempre lotadas – deve ser a brasileirada que enricou e adora fazer farofa na praia com seus amigos gays.
Agora, meu amigo gay ou não, praia na beira do Sena, é que é churrasco na laje. O resto é brincadeira de pagodeiro.

24 – Aqui no Brasil, futebol é quase religião e cada time uma capela.
Tem que fazer doutorado em Antropologia para explicar esta frase. Como parei no mestrado, não ouso questionar tanta sabedoria estrangeira.

25 – Aqui no Brasil, as pessoas acham que dirigir mal, ter transito, obras com atraso, corrupção, burocracia, falta de educação, são conceitos especificamente brasileiros. Mas nunca fui num pais onde as pessoas dirigem bem, onde nunca tem transito, onde as obras terminam na data prevista, onde corrupção é só uma teoria, onde não tem papelada para tudo e onde tudo mundo é bem educado!
Você é gay ou francês?! Ou todas as anteriores?

26 – Aqui no Brasil, esporte é ou academia ou futebol. Uma pena que só o futebol seja olímpico.
Na França esporte é fazer xixi na piscina pública.

27 – Aqui no Brasil, existe (sic) três padrões de tomadas. Vai entender porque…
Um provérbio francês diz que há um tipo diferente de queijo francês para cada um dos dias do ano, e Charles de Gaulle uma vez perguntou: “como você pode governar um país no qual existem 246 tipos de queijo?” Vai entender…

28 – Aqui no Brasil, não se assuste se estiver convidado para uma festa de aniversário de dois anos de uma criança. Vai ter mais adultos do que crianças, e mais cerveja do que suco de laranja. Também não se assuste se parece mais com a coroação de um imperador romano do que como o aniversário de dois anos. E ‘normal’.
A festa de debutantes, uma tradição que parece tão ultrapassada, ainda faz muitas meninas sonharem na França. As garotas bem nascidas, entre 16 e 20 anos, participam do tradicional baile de debutantes do Hotel Crillon, em Paris.
Festa de criança no Brasil perde para tanta bobagem.

29 – Aqui no Brasil, não tem o conceito de refeição com entrada, prato principal, queijo, e sobremesa separados. Em geral se faz um prato com tudo: verdura, carne, queijo, arroz e feijão. Dai sempre acaba comer uma mistura de todo.
E desde quando o conceito de entrada, prato principal, queijo e sobremesa é um conceito?
Oiê?

30 – Aqui no Brasil, o Deus esta muito presente… pelo menos na linguagem: ‘vai com o Deus’, ‘se Deus quiser’, ‘Deus me livre’, ‘ai meu Deus’, ‘graças a Deus’, ‘pelo amor de Deus’. Ainda bem que ele é Brasileiro.
Je suis désolée, les affaires sont les affaires. E um francês sabe bem o que isto significa.

31 – Aqui no Brasil, cada vez que ouço a palavra ‘Blitz’, tenho a impressão que a Alemanha vai invadir de novo. Reminiscência da consciência coletiva francesa…
Fique tranquilo, a Alemanha, com sua economia em velocidade de cruzeiro, não iria jamais invadir um endividado e na rabeira. Dá azar… No máximo, os alemães podem comprar umas vinícolas e trocar La Grande Dame por  “Glückliche kaiser”!

32 – Aqui no Brasil, pais com muita ascendência italiana, tem uma lei que se chama ‘lei do silencio’. Que mau gosto! Parece que esqueceram que la na Itália, a lei do silencio (também chamada de “omerta”) se refere a uma pratica da mafia que se vinga das pessoas que denunciam suas atividades criminais.
Fica um ditado francês: Plus le singe monte haut, plus on voit son derrière. (Lit. Quanto mais o macaco sobe, mais enxergamos sua bunda.)

33 – Aqui no Brasil, se acha tudo (sic) tipo de nomes, e muitos nomes americanos abrasileirados: Gilson, Rickson, Denilson, Maicon, etc.
Frontin, Garret, Haydée, Aimée, Arkell. Oiê?

34 – Aqui no Brasil, quando comprar tem que negociar.
Na França, você paga caro logo de cara. Vai entender a lógica…

35 – Aqui no Brasil, os homens se abraçam muito. Mas não é só um abraço: se abraça, se toca os ombros, a barriga ou as costas. Mas nunca se beija. Isso também é gay.
36 – Aqui no Brasil, o polegar erguido é sinal pra tudo : “Ta bom?”, “obrigado”, “desculpa”.
Sem noção, sem comentários.

37 – Aqui no Brasil, quando um filme passa na televisão, não passa uma vez só. Se perder pode ficar tranquilo que vai passar mais umas dez outras vezes nos próximos dias. Assim já vi “Hitch” umas quatro vezes sem querer assistir nenhuma.
Você deve ser francês ou americano para ficar tanto tempo na frente da TV. Tanta coisa para fazer lá fora…

38 – Aqui no Brasil, tem um jeito estranho de falar coisas muito comuns. Por exemplo, quando encontrar uma pessoa, pode falar “bom dia”, mas também se fala “e ai?”. E ai o que? Parece uma frase abortada. Uma resposta correta e comum a “obrigado” e “imagina”. Imagina o que? Talvez eu quem falte de imaginação.
A expressão mor francesa e nenhum comentário:
“Pas Mal.”
E, claro, salve simpatia.

39 – Aqui no Brasil, todo mundo gosta de pipoca e de cachorro quente. Não entendo.
Oiê? Queria que todo mundo gostasse de cassoulé e ratatouille?

40 – Aqui no Brasil, quando você tem algo pra falar, é bom avisar que vai falar antes de falar. Assim, se ouvi muito: “vou te falar uma coisa”, “deixa te falar uma coisa”, “é o seguinte”, e até o meu preferido: “olha só pra você ver”. Obrigado por me avisar, já tinha esquecido para que tinha olhos.
Sem comentários. A educação não me permite nem fazer graça com isto.

41 – Aqui no Brasil, as lojas, o negócios e os lugares sempre acham um jeito de se vender como o melhor. Já comi em em vários ‘melhor bufe da cidade’ na mesma cidade. Outro superativo de cara de pau é ‘o maior da América latina’. Não costa nada e ninguém vai ir conferir.
Queria que o povo desse um tiro na cabeça por que perdeu uma estrela do Guia Michelin? A gente tem chopp para beber…

42 – Aqui no Brasil, tem uma relação ambígua e assimétrica com a América latina. A cultura do resto da América latina não entra no Brasil, mas a cultura brasileira se exporta la. Poucos são os brasileiros que conhecem artistas argentinos ou colombianos, poucos são os brasileiros que vão de ferias na América latina (a não ser Buenos Aires ou o Machu Pichu), mas eles em geral visitaram mais países europeus do que eu. O Brasil as vezes parece uma ilha gigante na América latina, embora que tenha uma fronteira com quase todos os outros países do continente.
Será que é porque falamos português e eles espanhol?
Ou será que é porque temos geografia e história em todas as escolas – mesmo as piores do Enem?

43 – Aqui no Brasil, relacionamentos são codificados e cada etapa tem um rótulo: peguete, ficante, namorada, noiva, esposa, (ex-mulher…). Amor com rótulos.
Já leu Jorge Amado ou quer que a gente desenhe? Pede ajuda ao Caribé…

44 – Aqui no Brasil, a comida é: arroz, feijão e mais alguma coisa.
Na Franças, comida é boa e a gente gosta. Aqui, especialmente em Minas, também.

45 – Aqui no Brasil, o povo é muito receptivo. E natural acolher alguem novo no seu grupo de amigos. Isso faz a maior diferencia do mundo. Obrigado brasileiros.
E o Francês ainda cospe no prato…

46 – Aqui no Brasil, o brasileiros acreditam pouco no Brasil. As coisas não podem funcionar totalmente ou dar certo, porque aqui, é assim, é Brasil. Tem um sentimento geral de inferioridade que é gritante. Principalmente a respeito dos Estados Unidos. To esperando o dia quando o Brasil vai abrir seus olhos.
Neste dia vocês estará na fila do Starbucks num calor de 40oC. E usando óculos escuros chineses.

47 – Aqui no Brasil, de vez em quando no vocabulário aparece uma palavra francesa. Por exemplo ‘petit gâteau’. Mas para ser entendido, tem que falar essas palavras com o sotaque local. Faz sentido mas não deixa de ser esquisito.
Releia seu próprio texto que você vai entender melhor de sotaque esquisito. Você bateu a cabeça no bidê quando era pequeno?

48 – Aqui no Brasil, tem um organismo chamado o DETRAN. Nem quero falar disso não, não saberia por onde começar…
Mal chegou e já foi comprar um carro. Louco para largar o metrô e le vélo!

49 – Aqui no Brasil, dentro dos carros, sempre tem uma sacola de tecido no alavanca de mudança pra colocar o lixo.
E os franceses fazem o quê? Jogam o lixo no chão do veículo? Oh! Ah! Que horror!

50 – Aqui no Brasil, os brasileiros se escovam os dentes no escritório depois do almoço.
Na França não?
Désolée. E compra um chiclé, pelo menos.

51 – Aqui no Brasil, se limpa o chão com esse tipo de álcool que parece uma geleia.
Na França não se limpa, e disto sou prova. Nem com gel nem com líquido.

52 – Aqui no Brasil, a versão digital de ‘fazer fila’ e ‘digitar codigos’. No banco, pra tirar dinheiro tem dois códigos. No supermercado, o leitor de código de barra estando funcionando mal tem que digitar os códigos dos produtos. Mas os melhores são os boletos pra pagar na internet: uns 50 dígitos. Sempre tem que errar um pelo menos. Demora. Aqui no Brasil, o sistema sempre ta “fora do ar”. Qualquer sistema, principalmente os terminais de pagamento de cartão de credito.
O TI é francês – é por isto.

53- Aqui no Brasil, tem um lugar chamado cartório. Grande invenção para ser roubado direito e perder seu tempo durante horas para tarefas como certificar uma copia (que o funcionário nem vai olhar), o conferir que sua firma é sua firma.
Casar na prefeitura do bairro é que é ser fino.
Experimenta ir aos correios na França…

54 – Aqui no Brasil, parece que a profissão onde as pessoas são mais felizes é coletor de lixo. Eles estão sempre empolgados, correndo atrás do caminhão como se fosse um trilho do carnaval. Eles também são atletas. Tens a energia de correr, jogar as sacolas, gritar, e ainda falar com as mulheres passando na rua.
55 – Aqui no Brasil, pode pedir a metade da pizza de um sabor e a metade de outro. Ideia simples e genial.
Que observações de gênio. Realmente, não vale o comentário. Chama o Pierre Verger!

56 – Aqui no Brasil, nao tem agua quente nas casas. Dai tem aquele sistema muito esperto que é o chuveiro que aquece a agua. Só tem um porem. Ou tem agua quente ou tem um débito bom. Tem que escolher porque não da para ter os dois.
Lá vem desculpa para não tomar banho…

57 – Aqui no Brasil, as pessoas saem da casa dos pais quando casam. Assim tem bastante pessoas de 30 anos ou mais morando com os pais.
Três meses após a entrada em vigor da lei que autorizou o casamento homossexual na França, um primeiro balanço indicou que quase 600 casamentos entre pessoas do mesmo sexo foram celebrados nas 50 maiores cidades do país. O número corresponde a apenas 1% das cerimônias no período.O jornal Le Monde acha que os homossexuais franceses estão esperando passar a polêmica criada pelas grandes manifestações contra o casamento gay para poder realizar as cerimônias com simplicidade e discrição.
Protesto por casamento gay? Tsc tsc tsc.

58 – Aqui no Brasil, tem três palavras para mandioca: mandioca, aipim e macaxeira. La na franca nem existe mandioca.
Désolée.

59 – Aqui no Brasil, tem o numero de telefone tem um DDD e também um numero de operadora. Uma complicação a mais que pode virar a maior confusão.
Ah! Oh! Que confusão!

60 – Aqui no Brasil, quando encontrar com uma pessoa, se fala: “Beleza?” e a resposta pode ser “Jóia”. Traduzindo numa outra língua, parece que faz pouco sentido, ou parece um dialogo entre o Dalai-Lama e um discípulo dele. Por exemplo em inglês: “The beauty? – The joy”. Como se fosse um duelo filosófico de conceitos abstratos.
Aqui no Brasil, a torneira sempre pinga. Aqui no Brasil, no taxi, nunca se paga o que esta escrito. Ou se aproxima pra cima ou pra baixo. Aqui no Brasil, marcar um encontro as 20:00 significa as 21:00 ou depois. Principalmente se tiver muitas pessoas envolvidas.
Gente, o fofo veio trabalhar e até agora não se situou? Ele morava onde na França? Em Rennes? Manda o moço para o escritório do Google em Barão de Cocais.

61 – Aqui em Belo Horizonte, e a menor cidade grande do mundo. 5 milhões de habitantes, mas todo mundo conhece todo mundo. Por isso que se fala que BH é um ovo. Eu diria que é um ovo frito. Assim fica mais mineiro.
Frito ficou o francês que falou bobagem.
Frito e queimado.

 

(Este texto é uma resposta às bobagens que li em: sou francês e não fiz o dever de casa.)

Em dias de ressaca,

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

tome um café amargo e siga em frente.

Nas manchetes, além de mensalão, Sarney e outros quitutes, o cardápio é variado:
– Polícia conclui que mãe matou duas filhas;
– Mãe e filho são achados mortos em prédio;
– Casal é morto e crianças são abandonadas;
– Chacina deixa 6 mortos e 1 ferido em SP;
– Homem morre atropelado ao fugir de ladrões e o corpo antinge e mata outro motorista.

Acordei com gosto de cabo de guarda-chuva na boca.
Cabeça pesada como pedra no alto da montanha.
País de m.
Eleitores de m.
Tudo m. m. m.
Daí que pensei que meu humor irônico não pode morrer.
Pois já está tudo morrendo mesmo.
Ele há de se salvar.
Rir do bigode do Sarney, do saldo da minha conta bancária, rir dos fornecedores que, como ratos, tentam te levar uns nacos.
Rir da chuva, do sol, rir.
E continuar a chutar a cachorrada.
Hoje mesmo fiz uma croniqueta.
Segue:

Era uma vez uma viúva alegre.
Saltitava de peitos novos pelo bosque quando encontrou uma amiga.
A amiga, emburrada, não saltitava, urrava.
Tentava, desesperada, se fazer ouvir ao celular.
Do outro lado da linha, a atendente de telemarketing.
– Lalalalalá.
A viúva achou muita graça de tudo e foi celebrar no bar.
Lá encontrou um moço rico e ficaram muito amigos.
Ela ganhou carro novo, celular e computador.
E todo ano, caso não faça chuva, ela leva mantimentos para o Lar dos Meninos Pobres.

Moral da história: quem pula com peitos de silicone vai mais longe.
Patrocínio: Petrobrás.
Apoio: Lei Rouanet.

Fim.

Era uma vez um país.

Capítulo 25 – Táxi

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Cada mergulho, um flash

Uma americana a serviço de empresas da Nova Zelândia.
Um encontro informal – marcado.
E um passado – quem diria? – em comum.
Enfrentaram a mesma empresa.
A garotada nervosa e sem talento.
Aquele CEO alemão conhecido pela grosseria.

As duas se olharam – disseram pouca coisa sobre o assunto.
Estava tudo muito claro.
Uma experiência e tanto.
Uma nos EUA, outra no Brasil.

Elas se cansaram de tanta gritaria.
Hoje ganham mais e vivem melhor.
Ainda viajam pelo mundo.
A americana recruta profissionais de ponta e que sejam preocupados com a sustentabilidade corporativa.
Gente do bem para crescer sem puxadas de tapete e ataques de ego.

Pegou o táxi pensando…
Mundo pequeno.

Assim, de repente

sábado, 21 de maio de 2011

mineiridades

Pensei em me mudar para uma casa.
Não posso reclamar do momento em que o Brasil está vivendo.
Estamos em 6º lugar no ranking das cidades com bilionários…

Quem sabe?
No meu quarteirão… Quintal, edícula, uma praça em frente.
Eu posso ser uma pobre excêntrica no jardim dos bilhões.

Assim, sem pensar, os dias têm se agitado.
Não tenho mais horário para marcar almoço com amigos.
Um trabalho novo pinta.
Eu vou inventando modas e modos.

Assim, num sábado, suco e argentino (não combina, eu sei) e “pau” no ex-presidente do FMI.
Reunião com arquitetos.
Adoro gente maluca.

Cachorrada. Sorvete. Gataria.
Sábados frios com sol.
Repetitiva, sem imaginação.
Textinho vagabundo e reciclado.
É, como diz a anetoda, o que temos para hoje.
(e é uma delícia – por isso divido – afinal, disseram que o apocalipse seria hoje)

 

Sobre a fé e o amor

domingo, 10 de abril de 2011

Vapor barato - autor: desconhecido

Ontem fui ao show do U2.
Em minha tenra juventude, vesti a carapuça preta de couro cheia de alfinetes de rata de espetáculos. Teatro, rock, bossa nova, performance, dança – com ou sem dinheiro, era a minha praia.

Meu último show “de fato” foi um Free Jazz Festival… Quem nasceu nos anos 80 nem deve saber o que é.
Mas imagine que Chet Baker veio para uma edição e quase deu o bolo no show encenando e cantando um clássico de conteúdo dúbio de Cole Porter.

Depois do meu último e (por que não?) fatídico Free Jazz, onde fiz uma roleta russa de namorados, despedi-me de um saudoso amigo mineiro, eu me aposentei.
Passei a freqüentar lugares menores, cervejas geladas, esperas cujo tempo equivale a um pacote de pipoca , ingressos sempre disponíveis.
Para não dizer que não tive recaídas, seis anos atrás fui a um Personal Fest em Buenos Aires e vi Bebel Gilberto, Jorge Drexler e fugi dos Pet Shop Boys.
Para sobreviver, foram litros de energético com vodka, um amor louco pela vida porteña e uma desistência de uma festa do Goldie (ex caso de Björk)

Esse preâmbulo todo não é para descer a ripa em amantes de shows e grandes eventos, é só para explicar a minha pequena experiência muito particular de ontem.
Topa seguir comigo?

Comprado na terça passada um ingresso de segunda mão e sem ágio pela bagatela de R$216,00, resolvi melhorar minha aposta.
Foram R$250 reais para o motorista levar e buscar. Não, não vamos discutir preços quando o resultado é casa e cama em uma hora.
Cheguei às 19h porque não queria confusão.
Entrei com relativa facilidade – furei a fila com um bom argumento.
O ingresso era de pista, o que significa: não haveria lugar para sentar ou descansar.
Paciência.

Em uma hora, escolhi uma área que julguei calma e com boa visão do palco e comprei minhas fichas de água mineral.
Show sem álcool porque eu não pretendia explorar os banheiros químicos…
Você há de convir comigo que tenho uma certa experiência neste metier.

A banda de abertura começou a apresentação por volta de 20h.
Ato contínuo, as pessoas começaram a sacar celulares e câmeras.
O show acabou, logo veio o do U2 e o que era ato contínuo virou moto-contínuo.

Ohos de plasma

As engenhocas eletrônicas não só fabricavam indícios do crime – sim, “eu fui ao show” – como aproximavam os ídolos de cada um dos fãs. O Adam Clayton que eu via pequenininho, como o gesto que representa o meu salário, preenchia a tela de cristal líquido da minha vizinha da frente.
O aparelhinho dela não só tinha um belo zoom como corrigia problemas de foco e imperfeições de luz.
Nas telas, filtrados e aprisionados, destituídos de espinhas e rugas, isolados da chuva que veio e voltou, os músicos dividiam a performance em pequenos atos (ou seriam curta-metragens?) dirigidos por Marias, Josés e Pafúncios.
O show não acontecia no palco, ele aconteceria mais tarde em conversas de bar, em edições caseiras para o YouTube.
O show seria como um bicho de estimação: seria levado para passear, colocado para dormir e até ganharia roupinhas com cores iguais às do dono.

Não, a média do público pagante não era de garotos – mas de gente que, como eu, tem mais de 30.
Essas pessoas vez ou outra passavam afoitas distribuindo uma cotovelada aqui, outra ali. Derrubavam gotas gordas de cerveja (gelada pelo que pude constatar) e desferiam alguns pisões em unhas encravadas.
As câmeras, celulares – estes eram prioridade.
Não havia abraços de namorados, não havia beijos apaixonados em rápidos momentos mágicos provocados por músicas que vão ao passado e evocam momentos que não voltarão jamais.
O que havia era uma multidão hipnotizada, operadores de câmeras que buscavam disfarçar a câimbra nos braços e que acreditavam estar numa missão para desbravadores.
Registrar o primeiro show da U2 360° Tour no Brasil.

Não sei se, ao fim da história, os milhares de técnicos de som, luz e imagem postaram seus vídeos, fotos e criações.
Sei que pedi a separação de corpos por diferenças irreconciliáveis.

O blog da Bethânia, Liz Taylor e o misto da padoca

quinta-feira, 24 de março de 2011

O mundo é mesmo animado.
Atire a primeira pedra o motorista que, num sinal (farol se fores paulista) vermelho, olha para o lado e vê o vizinho limpando o salão na maior naturalidade.
E a naturista americana que, para facilitar, saiu logo pelada e esqueceu o GPS?
Ficou presa a 150 metros de altura numa montanha e o bombeiro ainda teve que levar uns panos para carregar a moça pendurada no helicóptero… Não, claro, sem antes tirar uma foto do mico que rodou os sites internacionais.
De americanos em americanos, vamos para a vovó com mais de 90 que mandou bala no vizinho porque exigiu e não levou um beijo na boca.
E o troglodita austríaco ex-governador da Califórnia que chamou os brasileiros de mexicanos?
Somos todos xicanos mesmo, pode esculhambar.
Sem se cansar, defendeu a energia nuclear.
Eu, sinceramente, penso que devem instalar usinas lá para os lados de Hollywood – iria dar mais dinheiro do que filme.
E, com certeza, seria um estouro de bilheteria!
Hoje sofri forte preconceito em minha aula de hidroginástica geriátrica.
A colega, incomodada por ficar para trás na corrida, falou que aquela turma era para a terceira idade e quem fosse rápido que procurasse uma pista de F1…
Fui rir da vovó e engoli água!
Ai, o povo fala de Elizabeth que será enterrada perto de Michael.
Feliz da doida que viveu metade do que a inglesa de olhos cor de violeta.
E as maravilhas da desigualdade de renda?
Em São Paulo, você come fora, recebe a conta de 300 reais e paga só 50.
É só esperar a quadrilha que anda fazendo a limpa nos restaurantes.
Pague 50 para o bandido e dê banana para o restaurante.
Afinal, já dizia o ditado: “ladrão que rouba de ladrão…”
Se você não tem 50, o misto da padoca é muito econômico.
Peço um para mim e vem tanto queijo e presunto que alimento a cachorra e o gato.
Se é saudável eu não sei…

E eu apoio totalmente o blog da Bethânia. Se entrar na lei Rouanet, vou doar meu IR todinho para ela fazer rimas ricas…

A mesma praça, o mesmo banco

domingo, 16 de janeiro de 2011

O ano começa numa grande expectativa e mostra que nem tudo é renovação.
2010 (lembra?) abriu os serviços com Angra dos Reis desabando sobre cabeça e membros de muita gente. Depois foi a vez do Rio e de Niterói.

Em dezembro passado, um amigo gringo superdesavisado anunciava, feliz, que iria passar o reveillon em alguma cidade do litoral fluminense.
Eu logo joguei um balde de água fria: todo cuidado é pouco!

Nem preciso contar que a virada dele foi debaixo d’água e ninguém imaginava que mais de seiscentas pessoas iriam partir desta para debaixo de lama, sem socorro e sem despedida.

Nossa língua – difícil e muitas vezes maltratada por esta que vos escreve – algumas vezes nos coloca em xeque.
Nascida há cerca de dois mil anos, filha dos povos pré-romanos que habitavam a região ocidental da Península Ibérica, a língua portuguesa virou hit nos séculos XV e XVI quando os reis das piadas de padaria estabeleceram um império que ia do Brasil, na América do Sul, até Goa, na Índia.

Vasta distância, muita gente colonizada, e a língua foi virando uma criolice doida que logo confundiu “x” com “ch”, “s” com “z”.
E é por isso que, hoje, os jornais insistem em culpar o Aquecimento Global pela tragédia.

AQUECIMENTO não, cara pálida, ESQUECIMENTO.

Esquecimento proposital e político porque tirar pobre de beira de rio e de encosta de morro dá um trabalho danado, gera manchetes e imagens de famílias desdentadas chorando e arrastando seus poucos pertences pela telinha superpovoada. Imagens que serão amplamente usadas pelos adversários de urna e que, certamente, inflacionarão o mercado de compra e venda de votos.
ESQUECIMENTO porque desapropriar mansões em área de risco é algo que não se viu na Colônia. Taí a história do ex-governador de Roraima para exemplificar uma questão tão nacional.

Lendo meu jornal paulistano fiquei sabendo que, em Brisbane, na Austrália, onde a enxurrada também mudou a geografia, 25 pessoas morreram e dezenas estão desaparecidas. Alguns tubarões apareceram asfixiados no asfalto. Koalas, cangurus e cobras sobreviventes agora correm risco por não encontrarem água e alimento.
Lá, tenho certeza, o aquecimento global será preso, julgado e condenado.
Aqui, quando não é culpa do povo, que constrói em área de risco, a culpa é de São Pedro.
Claro, ele deve ter alguma coisa com a história, afinal Pedro vem do grego Petrus que significa pedra, rocha. Os católicos aprendem cedo que Jesus, antes de se mandar, deu novo nome ao apóstolo Simão e disse:
-“Pedro, tu és pedra e, sobre esta pedra edificarei minha igreja”.
Pois a culpa não é da região pedregosa, onde a água da chuva não se infiltra e arranca a terra onde estão casas, pessoas, cachorros, cavalos e galinhas – todos irregulares e inconsequentes?
A culpa de São Pedro então está comprovada.

Eu, no meu domingo de sol, acordei revoltada com a irresponsabilidade política, impressionanda com gente que não teve a sorte de ser estilista nem sócio de banco e que perdeu pai, filho, mãe e continua com o pé na lama tirando corpos e salvando gente que há dois dias espera por socorro.
Gente que perdeu tudo e que está em estado de transe, tentando arrancar pedaços de gente da lama.
Gente que, de certa forma, teve alguma sorte de não ser classe alta e que, portanto, não foi amplamente fotografado, falado e comentado enquanto enterrava 2 filhos, a irmã, o cunhado, 4 sobrinhos, mãe e pai.

Este sentimento de impotência, esta vontade de sair gritando, louca, pela rua contra a bazófia, esta vontade de chutar pessoas e de beijar os cachorros, este grito que mora no peito.
Esta dita coragem que me faz seguir em frente mesmo assim.
Este confessionário em berros.
E eu penso: qual é a palavra para “blog” em português?

O Chile merece o presidente que tem, o Brasil, também!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Piñera, presidente do Chile, ao comprovar que os mineiros estavam vivos

Podem me detestar.
Mas eu não me interessei muito pelo resgate no Chile.
Se fôssemos acompanhar todos os casos semelhantes, em especial na China e na Rússia, dava até para fazer um programa de TV.
Algo entre um reality show e o programa do Sílvio Santos.
Com direito a ver os homens sucumbindo ao vivo ou escolhendo um novo eletrodoméstico na Porta da Esperança.

Apenas uma coisa me chamou a atenção.
Foram (estão sendo) muitas críticas ao presidente chileno – se você não sabe, grande parte da verba gasta no resgate saiu do governo federal do Chile.
Pelo que entendo, faz parte da liturgia do cargo de um líder de Estado dar apoio à nação em momentos como esse.
Ele vai faturar com isso?
Não importa. Ele tem que estar lá. É o papel de um presidente.

E em tempos de radicalismo político no Brasil, não quero fazer palanque para Serra ou Dilma.
Quero relembrar a brilhante participação de meu presidente em um caso muito mais triste e dramático do que o do Chile.

Na sexta-feira, dia 22 de agosto de 2003, às 13:26h, vinte e um engenheiros e técnicos do CTA (Centro de Tecnologia Aeroespacial), sediado em São José dos Campos, SP, morreram em um incêndio no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), localizado no Estado do Maranhão, quando preparavam o lançamento de um protótipo do foguete de fabricação nacional, o VLS (Veículo Lançador de Satélites).

Reproduzo matéria da BBC Brasil:

Lula disse que queria dar um “aviso ao povo brasileiro” em função do que aconteceu na base espacial de Alcântara.
“Estes homens morreram prestando um serviço inestimável à nossa pátria. Certamente vamos seguir com a política espacial e pretendemos continuar com a base de Alcântara, principalmente para lançamento de foguetes”, disse.
Lula disse que quer que os familiares da vítimas saibam “que o governo brasileiro estará solidário” e fará o que estiver ao seu alcance para “minorar o sofrimento dos entes queridos dos que se foram.”
Mas Lula não disse se o governo vai indenizar as famílias, nem se visitará Alcântara.

Até hoje as famílias dos engenheiros e técnicos que morreram na explosão não receberam a indenização que o presidente prometeu (ajuda de custo para os filhos em idade escolar, entre outras).
E o seguro das famílias (Bradesco Seguros) recusa-se a pagar o sinistro por acidente de trabalho. Pagou um seguro de vida comum.

Pouco depois do acidente, leiam o que saiu no Terra:

Lula e Putin no Itamaraty, foto de Ricardo Stuckert

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem uma frase infeliz ao comentar o acidente da Base de Lançamentos em Alcântara, no Maranhão, onde a explosão do Veículo Lançador de Satélites (VLS 01) matou 21 pessoas em 22 de agosto.
Lula disse que “há males que vêm para o bem”, conforme o relato de fotógrafos que cobriam o encontro do brasileiro com o presidente russo, Vladimir Putin.
“Há males que vêm para o bem. Ao invés de prejudicar, pode estimular os avanços do conhecimento tecnológico”, teria dito Lula, de acordo com os fotógrafos em Nova York.
Lula agradeceu Putin pelo apoio de seu país nas investigações do acidente.

Um curto-circuito provocou a explosão do VLS 01. Essa foi a terceira tentativa frustrada de lançar um foguete totalmente nacional ao espaço.

Eu gostaria de mantar uma lista para o Lula:
Os nomes dos 21 engenheiros e técnicos mortos na tragédia.
– Amintas Rocha Brito,
– Antonio Sérgio Cezarini,
– Carlos Alberto Pedrini,
– César Augusto Varejão,
– Daniel Faria Gonçalves,
– Eliseu Reinaldo Vieira,
– Gil César Marques,
– Gines Ananias Garcia,
– Jonas Barbosa Filho,
– José Aparecido Pinheiro,
– José Eduardo de Almeida,
– José Eduardo Pereira,
– José Pedro Peres da Silva,
– Luís Primon de Araújo,
– Mário César Levy,
– Massanobu Shimabukuro,
– Maurício Biella Valle,
– Roberto Tadashi Seguchi,
– Rodolfo Donizetti de Oliveira,
– Sidney Aparecido de Moraes,
– Walter Pereira Júnior.

No final de 2003 o governo federal pagou uma indenização de R$ 100 mil para cada uma das 21 famílias das vítimas do acidente. Também indenizou o tratamento médico e psicológico dos familiares e algumas despesas de educação dos filhos das vítimas.
Insatisfeitos, os familiares procuraram a Justiça, reivindicando, em média, uma indenização de R$ 2 milhões. (Lula chegou a falar em algo em torno de R$1milhão).
Algumas das ações propostas individualmente pelos familiares das vítimas já tiveram decisões favoráveis em primeira instância, mas que foram questionadas pela Advocacia Geral da União (AGU), com respeito ao valor pedido das indenizações.
Segundo a AGU, “não há legislação específica que fixe parâmetros de indenização por danos materiais e morais aos servidores públicos estatutários, vitimados em acidente, como no presente caso”.

Os familiares dos mortos no acidente fundaram a Associação dos Familiares das Vítimas do Acidente do VLS (ASFAVV).
Essa associação defende a continuidade do projeto do VLS, busca na Justiça o direito de saber quem foram de fato os verdadeiros responsáveis pela tragédia ocorrida, e luta para “manter acessa a chama de humanidade”, que os 21 engenheiros e técnicos falecidos deixaram a partir do seu trabalho interrompido no CLA.

Se você se comoveu com o caso no Chile, eu só te peço que pense no brasileiros que morreram em Alcântara

Sobre queijos e pombos

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Cartaz da prefeitura

Alguém me explica por que o teclado europeu é completamente diferente do americano (vulgo nosso)?
Os poucos minutos que consigo ter acesso a um computador na Sorbonne, eu fico catando milho nesse teclado europeu…
O mundo conspira para eu me desconectar mais vezes…

o0o0o0o0o0o

Hoje foi pancadão…
Depois de dormir cinco horas – gastei boa parte do meu domingo comendo verbos, advérbios, pronomes…
Essa manhã-tarde foi prova na veia.
A hora de ver se a grana que investi em mim mesma vai ter retorno.
Eu sei que alguns mais íntimos vão torcer o nariz, mas tenho que me elogiar.
Sexta-feira fiz prova de fonética. Não pense que é baba…
É difícil pacas…
Você sabia que existem sílabas orais, ligações consonantais, ligações obrigatórias… e por aí vai?
Pois tirei 8 em 10 com direito a elogio da professora.
Segundo ela, minha pronúncia é (quase) fluente e (algo) elegante.
Devo agradecer à champagne de champagne, bien sûr, e ao vinho de Cassis (fica entre Marseille e Toulon) – eu recomendo o rosé La Ferme Blanche geladinho. Somente o álcool destrava a língua com tanta eficiência e graça!

Viva o álcool francês engarrafado na própria vinícola. Viva o solo estrangeiro!

0O0O0O0

Esta manhã, prova de gramática.
Não foi fácil… Confesso que ainda não estou à vontade, mas começo a entender o uso das danadas das flexões.
E fiz a prova com segurança de quem “deu de si”: sou o próprio jogador da segunda divisão rezando para alguém da primeira dar sopa do tipo quebrar a perna.

0O0O0O0

Depois de tanta ralação, culinária francesa e causos.

Na estação, atrasada, com calor e aflita… Quase chuto uma pomba!
Detalhe: a estação Vavin tem dois andares de subsolo…
Manca como um palhaço de desenho animado.
Levando susto com os trens que chegavam e os que partiam, mas não deixando de procurar uma migalhinha de qualquer coisa.
Uma pomba.

Ao sair da estação, calculei: foram 3 minutos de túnel… como a pomba entrou?
Na certa ela tem Carte Navigo e pega o metrô sempre naquela hora.
Acabei me lembrando do cara que mora na estação Place Monge.

Todo dia, eu chego às 8h da matina e ele está lá, dormindo na mesma cadeira.
Tem uma mochilinha bem vazia e mais nada.
Algumas vezes, quando meu trem chega, ele sai do sono e sorri para os passantes.

Sorrir é um alimento tão poderoso quanto o pão.

Sorrir quebra muita gente.
E dizem que faz chorar.

0O0O0O0

Compradas num estabelecimento de 1825

Queijo. Acabo de comer uma maravilha de outro planeta!
Anote, compre e viaje comigo.
Tomme Noire des Pyrénées. Que queijo incrível, que loucura!
Parece um queijo minas mais caprichado.
Com um pedaço de pão. E o banquete está pronto.
Ai, o chèvre do almoço…

E flores – cravos e flores do campo frescas para amigos que aqui moraram, moram e para o Brasil voltarão.
Um dia.
Esse mundo muito grande que faz a gente andar para lá e para cá como bois de Poty numa página de Guimarães Rosa.

Eu sou aquele da ponta esquerda. Mete a cara e esconde o corpo atrás da boiada.

o0o0o0o0o0o

A outra pomba…
Estava morta no chão, ao lado de uma poça d’água.
Pobre pomba morta numa calçada.

o0o0o0o0o0o

E mais tarde… a pomba intelectual vou sobre os livros na Fnac…
Subsolo do shopping na Place Italie. Foram atrás dela.
Ela levantou a poeira – ou você acha que limpam o alto das prateleiras?
Voou pelos caixas e sumiu.
Espero que não tenham matado.
Uma pomba dessas merece respeito.

Um “time”

domingo, 20 de junho de 2010

Desconstruindo Eiffel

Nicolas Anelka foi dispensado da Copa por insultar o treinador Raymond Domenech.
O zagueiro Willian Gallas fez gestos obscenos para os jornalistas.
O chefe da delegação e da CBF deles (FFF), Jean-Louis Valentin, pediu demissão. “Estou aborrecido. Os jogadores não querem treinar. É uma vergonha. Nestas circunstâncias, decidi voltar a Paris e me demitir“, disse Valentin
O lateral Evra e o preparador Duverne foram contidos antes de trocarem agressões.
Os jogadores fizeram uma reunião neste domingo e decidiram cancelar o treino da tarde.

Para nós brasileiros, que os bleus se ferrem. Certo?
Eu, como socióloga sem função, fico pensando, o que rola? ¿Que pasa?
Quando um jogador parte para cima do técnico, algo anda errado…
Quando o treinador quer se pegar com outro jogador…
Quando a galera decide que não vai trabalhar…

Mundo moderno. Muita estrela para pouca constelação.
Todo mundo sendo criado para ser chefe, ninguém quer ser soldado.
Egos flamejantes.

Eu, sinceramente, quero zuzum de abelha.
Passarinho na grama.
Sol da tarde.
Não quero chefe, soldado, nada.
Eu gosto de trabalhar – não tenho saco para gente que acha que deveria ser chefe. Deveria estar em algum pódio porque acha que é o cara.
Eu entendo que o cara que se autoproclama “o” cara, desculpe a palavra, tem que usar microscópio para se achar.
Quero um canto sem tanto ego e sem tanta chatice.

Adoro futebol. Mas essa Copa está de lascar.
Vá ver o jogo do Brasil que eu tenho mais o que ler.