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Chuvinha com cassoulet: programa imbatível

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Fomos eu, o Monoprix e Uncle Ben's que fizemos

Você sacou o sapato em cima do aquecedor?
Pois é… Há dois dias que a chuva não dá trégua.

Sábado fui a um thai entre o Canal St.Martin e a Gare de l’Est que eu vou te contar…
Atendimento de quinta, comida asiática de primeira. Açucarada, frita, calórica e deliciosa.
O vinho? Um malbec para celebrar a vida porteña que deixei (por enquanto). Estou terminando meu terceiro Caio e Cortázar me diz que posso ir chegando.

Domingo? Caiu o mundo.
Coloquei um vestido ideal para dias de neve, minha botinha que arrasa Nova York e fui encontrar Paola.
Paola, irmã de Juliana, moça-aeromoça de luxo-elegante da Air Canada, tinha 24 horas sob a chuva de Paris.
Só Montmartre nos salva.
E salvou.
Primeiro, champanhota gratuita no maravilhoso Café Qui Parle do amigo querido, Nicolas.
Depois, Le Vrai Paris para cair de boca na “baixa” gastronomia (francesa, bien sûr). Anote aí: 33 Rue des Abbesses.
Começamos com um Chablis e batatas fritas (!) e dividimos uma sopa de cebola nota 7,5.
Paola, corajosa, partiu para o magret de canard (que eu carinhosamente chamo de peito escondido do Donald) com batatas. Eu arrisquei algo mais light: uma daurade com legumes. (não tem nada a ver com o dourado que conhecemos no Brasil)

La daurade

Foi o último bicho morto que comi… Eu sou vegetariana de coração e alma – não consigo mais. E, também, cansei de passar mal por conta dessa idéia estapafúrdia de provar coisas diferentes mesmo que seja contra meu credo…
Se serve de consolo, a bula do peixe diz que ele é do bem (ele, ao psicografar minha bula, não achou a mesma coisa):

La daurade est un poisson particulièrement maigre, puisqu’elle ne fournit que 1 g de lipides pour 100 g. Elle est ainsi très digeste. Avec seulement 76 calories pour 100 g de daurade, ce poisson est l’allié idéal pour un régime-minceur. Ce poisson présente également l’avantage de fournir d’importantes quantités de protéines de très bonne qualité (16 g pour 100 g). La daurade est d’autre part riche en magnésium, en fer, en phosphore et en calcium. Elle vous fournit de l’énergie grâce aux vitamines qu’elle contient, en particulier des vitamines du groupe B. Elle est enfin riche en iode.

Depois do assassinato na fazenda, uma caminhada e um papo sobre igreja dentro da Basilique du Sacré Coeur. Acendi uma vela para São José, vizinho de São João Batista e não paguei os dois euros pedidos pela oferenda.
Tem tanto ouro e história estranha na Igreja Católica que o correto seria me pagarem cinco euros pela ilustre visita.

Ao longo do dia, T.S.Elliot, Heloise e Abelard e outras histórias me rondando.

Meu nariz, vermelho, minha alma, cortada e eu tomando mais um vinhozinho.
Fazer o quê? Estou resistente…

Hoje de manhã foi duro levantar.
A chuva, o álcool, a poesia, o asfalto, e a vida lá e cá.
Pela primeira vez em séculos não arrumei a cama.
Fiz uma trança, botei jeans, duas blusas, casaco de couro, echarpe, carreguei sombrinha e pasta.

Enfrentar a chuva, a vida, o francês da Sorbonne – que tanto me deixa louca porque me mostra que, quando acabo de dominar passé composé, imparfait e outros, não sei nada de pronomes…

A chuva que não dá trégua.
Eu pensei: é hora de fazer comidinha da vovó.
Passei no supermercado, comprei as guarnições do cassoulet – leia-se feijão branco e legumes, sem carne.
Um arroz Uncle Ben’s (eu só tenho uma panela e não posso inovar muito).
Matei meu vinho branco da Borgogne (meia taça) e estou aqui igual a gata.
Rolando de alegria, com a pança feliz de feijão com arroz.

Enquanto minhas toalhas não saem da secadora, estudo francês, pago 2,99 euros e baixo Breakfast at Tiffany’s para ver logo mais e devoro pronomes em francês.

Acho que a chuva parou… Mas a rua pode ficar para amanhã.

Meu primeiro cigarrinho

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Experimenta tentar pegar minha carteira

A-hã.
Estranha a literatura porcaria que ando produzindo.
A história vem aparecendo na cabeça, mas eu teimo.

Não escrevo.

E aí a história vai tecendo detalhes, eu perco o fio da meada do meu dia, e qualquer hora tenho que colocar tudo no papel.
Até agora foram cinco páginas. Pouco? Mas dói.
Por que eu não quero fazer e Chico Xavier me obriga.
Saco.

Pois bem, amigos, aqui em Paris a coisa anda preta.
Ando comendo carne e passando mal – depois de 18 anos vegetariando.
(não falarei aqui do teor alcóolico do que ando bebendo)
Por que?
Não sei.
Talvez para me reiventar.
Cigarro metafórico que não me serve de nada.

Hoje voltei para casa cedo. Estudei francês sem muito saco.
Tomei meu vinho, almocei tarde e dormi com Caio. Eu e ele estamos gostando muito de Paris.
Eu faço a cama e ele está lá, o livro doido me esperando.
Não tem Torre Eiffel ou Arco do Triunfo que me façam deixá-lo.
Biblioteca Mitterrand? Sebos, livrarias?
Louvre nem Quai D’Orsay.
Ando lendo devagar – para ele ficar comigo até fim de agosto.
Tenho a impressão de que não serei fiel.
E Cortázar pode me pegar.
Belga metido a argentino.
Metade Clarice, metade bruxo.

Esses dias dei uma navegada com minha internet de manivela…
E li a história da canadense que raspou cabeça e sobrancelhas para fingir que tinha câncer.
Arrecadou grana, viajou para a Disneylândia até que o pai descobriu a história e desmentiu tudo.
Parece com a menina que dia sim, dia não pega metrô comigo.
Ela fala com sotaque e francês milimetricamente errado: tem 3 filhos e não tem emprego.
Aceita 25 centavos, tíquete-refeição.
E não é que ontem ela estava pegando um pacotaço de M&M na máquina?
Filhos exigentes esses que ela não tem…

Por isso tenho uma política: dou dinheiro para músicos mambembes, vendedores de flores, bêbados piadistas e para todo tipo de vagabundo que decidiu ter coragem.

Viver sem mentir é um vício que não tem cura e causa estrago.

Epifania

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Quando a gente se descobre no meio de um cotidiano comum e rasteiro e algo vira o jogo.
Tudo o que aconteceu ou que vai acontecer não tem a menor importância.

Pufff.

Estou aqui, na minha vida de excessos, extremos, de pontas, oitos e oitentas.
Você, não.
A sua é toda certinha e a sua cabeça roda na minha para rir um pouco das besteiras que eu faço ininterruptamente, dia trás dia. Você queria ser um pouco o que sou. Ou você queria ter nem que fosse por um minuto.
Gitana.
Bavarde. Eu falo muito mais do que faço e você ainda acredita.
Ontem, tive uma epifania.
No meio do nada, do passeio, caiu um raio em minha cabeça.
E eu tirei minha couraça de ferro, minha carcaça de executiva e decidi ser eu mesma. Fiz uma foto.
Ficou horrível.
E eu deletei.
Se vou virar carniça, que fique bem na foto que eu quiser. Mas eu me vi e eu não sou nada disso.
Eu só saquei que meu destino é de Carlos. Ser gauche, ser sénestre.
E chutar um pouco o pau. Chutar todo o santo dia.

Porque me seguraram no freio e agora eu desembestei.
Acho tudo muito chato.
Tenho aquele ego de quem ainda vive aos vinte anos.

Espelho

Eu sempre sei tudo ou eu acho quase tudo muito pequeno.
E escrever não é mais cachaça.
É pura respiração.
Eu não consigo mais costurar para fora.
Eu ainda luto contra. Só para contrariar. Sina.
Depois que resolvi cair de boca em tudo.
Ai, meus dois copos de vinho – eu não tenho taça – me mostram o perigo.
Na corda bamba por onde eu caminho pode ser que haja espaço para mais gente.
Se voce vier comigo, eu não prometo nada.
A gente vai rodar moinho.
A gente vai viajar o mundo.
Vamos para o samba, para a festa de madame.
Você me escreve, eu te chamo para um café.
Eu dou retorno –sou adestradinha.
Eu faço ar de mistério.
E sou puro Ruben Fonseca : não deixo me fotografar.
Ai, Brigitte, por que você não me avisou que não tinha atalho ?
Mas deixa, eu gosto do caminho mais longo.

Tinha cinco anos mais que trinta. (…) Será possível plantar morangos aqui ?
O bonde guinchou na curva. Amanhã, decidi, amanhã sem falta começo a fumar.

Caio Fernando Abreu

pOeSIa (roubada) ConCRetA

domingo, 25 de abril de 2010

Vesti uma camisa listada… Quem mandou mudar para Belo Horizonte?

Mudou-se para Belo Horizonte, trabalhou na Rádio Mineira e entrou em contato com compositores amigos da noite, como Rômulo Paes, recaindo sempre na boêmia. De volta ao Rio, jurou estar curado. Faleceu em sua casa no bairro de Vila Isabel no ano de 1937, aos 26 anos, em consequência da doença que o perseguia desde sempre.

Que lindo não chegar aos trinta e não ter que pensar no que não fez.

Você suspeita que eu não seja um bom sujeito.
Para tudo conte comigo.

Quem conhece essa mulher
é que sabe o que ela é

Segurança era a única coisa que ele não desejava
“Now we rise, and we are every were”

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando

Ce qui suit dévoile des moments clés de l’intrigue.
On comprendra, après mes explications, que je l’aie dit sans aucune intention de blasphème et seulement avec l’affection un peu ironique qu’un artiste a le droit d’éprouver à l’égard des personnages de sa création.

Porque se chamava homem
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem

Maybe I have been here before
I know this room, I’ve walked this floor

Os “primeiros erros” inauguram uma fatalidade que, de elo em elo, semeará a desgraça numa família, inevitáveis seqüelas da irresponsabilidade e da desobediência.

Para mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta.