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Capítulo 17 – Caixa Preta

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Fazia compras sempre que o estresse apertava.
E seguia um ritual: abandonava o que comprava pela cidade.
Jóias deixadas num guichê de metrô.
Sapatos na banca de jornal.
Flores na porta de entrada da padaria.
Camisas no museu de arte contemporânea.
Livros na Igreja Evangélica.

Em casa, o armário estava vazio.
Tinha 2 mudas de roupa.
Não havia margem para acidentes.

Não comia muito – gostava da sensação de quase delirar sem combustível no corpo.
A casa não tinha cores.
Plantas.
Móveis.
Havia um tapete na sala.
Ali fazia as refeições.
Deitava para ler.

Eletrodomésticos, utensílios?
Um fogão de duas bocas, um aquecedor, um chuveiro elétrico.
Não havia geladeira, TV, telefone.
Um celular era sua conexão com o além.

Sobre a previsibilidade

domingo, 3 de abril de 2011

Depois de muita corrida e passeio vagabundo sem rumo, o vira-lata reencontrou o portão de casa.
Não é que ele tenha fugido, mas um dia…
Um dia ele saiu e encontrou a porta de casa fechada.
Para passar o tempo, resolveu andar.
Primeiro um quarteirão.
Uma rua.
Dois quarteirões.
Quase atropelado.
Aprendeu o que os donos nunca conseguiram ensinar.
Atravessou ruas.
Cheiro de pastel de feira.
Fome.
Água de vala.
Volta para casa.
Onde?
Chute. Pedra.
Foi amarrado.
Passou duas noites preso a um portão.
Roeu a corda. E nem abanou o rabo.
Com o fiapo de força que não sabia que tinha, correu.
E deitou exausto no meio de uma praça suja do Centro de São Paulo.
Fraco, faminto, foi mordido por outros cães.
Virou latas.
Coxinha, misto quente, arroz com chuchu.
Salsicha.
Azedo.
Doce.
Com a barriga cheia, quarteirões.
Portão.
Casa.
4 dias.
E seu latido mudou.

(para sempre)