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Idas e vindas

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Pedras

Quanto mais me ausento, mais escrevo – e não publico.
Minhas viagens, antes longas, loucas, alucinadas, hoje parcas, curtas, densas.
Tensas.
Lentas.
Hoje tenho muito pouco tempo.
Faço tanto.
Corro com ritmo.
Minhas rugas, meus pouquíssimos fios brancos – vão chegando e eu, gostando.

Subi a escada de azulejos portugueses (espanhóis?) no Cosme Velho.
Vi os micos.
Sabiás.
Entrei numa paisagem que começou no século passado.
Aspirei os ares de nova vida.
Senti-me muito bem ali, em meio ao caos do que ainda não foi parido.
E que tanto promete.

Promessas.
Gosto de tudo o que não é.
Ainda.
Gosto dos causos.
Da areia que arranha meus pés e me afunda.
Gosto de ser carregada com a maré.
Água gelada.

Mesmo quando não termina bem.
O que me move é a história.
E se termina bem?
Vou com a maré…
Navego.

Capítulo 13 – Pausas e Partidas

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Acordou cedo – nunca passava das 7h.
Fazia frio e chovia.
Era bom sair com calça, blusa, colete, malha, sobretudo, meias de lã, sapato com sola emborrachada.
Com tanta roupa, a individualidade quase desaparecia.

Decidiu deixar o carro em casa.
O trânsito estaria caótico.
Enfrentar o transporte público com o olhar de quem não é passageiro cotidiano.
Ver as pessoas apressadas.
Tentar adivinhar a música que toca no iPod da vizinha de cadeira.
Dar lugar para uma moça cheia de sacolas.
Sentir o vagão tremer a cada curva.

Começou a olhar os sapatos.
Trabalhadores têm sapatos gastos.
Olhou para as próprias pernas.
A calça preta de tecido tecnológico.
Não molha, não amassa, não perde a cor.
Distraiu-se…

Foi quando tentou levantar a perna que notou.
Os dois pés estavam presos no solo.
Fincados, cimentados.
Quando queria se movimentar, era o chão que mexia.
A calçada toda corria para a frente ou para trás, como as esteiras quilométricas do aeroporto de Frankfurt.

Estava no meio da Avenida Paulista.
Olhava para os pés.
Os sapatos de sola de borracha (em casa usava chinelos).
Quando caminhava para frente.
A calçada ia para trás – e seu corpo continuava parado.
Tentou andar de costas.
Um movimento de ré desajeitado.
A calçada correu para frente.
Tirou os sapatos.
Com os pés descalços, nada mudava.

Riu um riso nervoso.
Ficou alguns minutos tentando arrancar os pés da calçada.
Os termômetros marcavam 12°C.
O suor escorria por seu rosto, ensopava as costas.
Alguns pedestres que viam seu agito esquizofrênico viravam o rosto.

Todos presos.
Todos sendo levados pelas ruas, calçadas, avenidas.
Ninguém notava?
Se sabiam, por que ninguém tentava soltar os pés?
Não havia bebido, não comera nada diferente. Isso não era alucinação.
Teria enlouquecido?

Mais uma vez, tentou tirar os pés.
Queria comprar uma picareta.
Quebrar tudo, libertar-se.

Olhou em volta.
Indiferentes.
Todos presos.

Pausa