Posts com a Tag ‘Caminho’

Minhas unhas vermelhas

domingo, 2 de agosto de 2015

Antes eu queria a festa, o momento.
Hoje eu quero o microscópico.
Em dois meses, eu voltei a ser a Ana com 20.
Mas com uma vida de 40.
Não foi a farra que veio, foi a carga pesada arrastada com com correntes que se foi.

De repente me vi montando um altar de flores.
De bons pensamentos.
Eu me lavei com sais, lavanda, acreditei na pedra energizada.

Eu tinha todas as certezas.
Minha bota do exército.
Minha roupa preta e um cabelão de medusa.
Um parceiro da vida inteira.
Um futuro.

Hoje eu tenho uma idéia.
Eu passo um batom, encho o peito de ar e vou.
Não levo nem a bolsa.
Eu simplesmente vou.

Eu ando muito leve, quase sendo levada com o vento.
E descobri que o caminho ainda nem começou direito.
Peguei um atalho enorme.
E cheguei em lugar nenhum.

Mas eu sou daquelas que caminha sem parar.
E, demorou, mas eu não tenho onde chegar.
E tudo bem.
Eu vou.

Mergulho

segunda-feira, 2 de julho de 2012

carvão

Quando as coisas escurecem, nada de pensamento positivo.
Impossível.
Tudo menos ficar parado.
Aos poucos, os olhos se acostumam e o coração volta ao normal.
Ande.
Ouça os próprios pulmões.

Semana puxada, terminei alla Ana Pessoa.
Fazendo loucuras que você não faria.
Fui ouvir um cara que dizem que é sábio.
E ele não me disse nada de novo.
Mas aquilo de falar tudo o que eu já desconfiava bateu forte e macio.
Saber da missão.
Saber que o fácil é para os fracos.
Caminhar no lodo.
E não perder a fé.

Feliz até chegar hoje.
Dois trancos pesados.
Eu tenho um certo romantismo daquelas pessoas que acreditam que um pouquinho de prazer é essencial.
Mas vira e mexe tropeço em gente que topa tudo por dinheiro.
Nossas diferenças?
Eu sei da dureza que é, mas creio.
Eles crêem que não será.

Por aqui ficamos.
Eles se perderam no atalho.

Em domicílio

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Minha vida agora é venha a mim.
Tirando a ultra organizada com toda antecedência volta olímpica matinal na praça da esquina para o – nem sempre fácil – banho de sol, tenho ficado em casa.
Supermercado, papelaria, farmácia, padaria, fisioterapia preventiva, ginástica, trabalho – nesta ordem -, estou na tal quarentena – com direito a fugas que dariam pena máxima… (restaurante na semana passada, feira livre no sábado – duas horas para cada e retorno à casa esbaforida)
Não, não me queixo, e aprendo muito: minha vida solitária foi substituída pela presença de duas funcionárias, um corpo que não é meu e prisão domiciliar voluntária.

E a doação?
Não ser mais dono de seu exíguo tempo, da casa que comprou com tanto suor.
Ser do e para o outro.

E acordar vazia.
Vazia.

Pensar que a vida é mesmo assim.
Um para lá, dois para cá.
Uma volta e tanto.
Para ter de volta o que eu deixei pelo caminho.

E reinventar a história toda.

Escrever, esquecer

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Aqui no Brasil, hora chove, hora faz calor.
Recebo notícias da casa materna.
Mãe filósofa dirigiu quase 600 km para conversar por meia hora com um doutor em Mircea Eliade.

Estradas.
Adoro as palavras correlatas.
Via, caminho, direção, rumo.
Destino.

Mamã que faz estrepolias só para falar sobre o que gosta e entende.
Eu e meus aviões.
E minha coibaice generalizada.

No teatro, é comum um exercício também usado por terapeutas.
Subir em um banco, fechar os olhos e se jogar de costas.
O grupo deve amparar a pessoa.
Dizem que, com crianças, é fácil e todos querem mais.
Com adultos, nem todos conseguem.
Há quem nem suba no banco.

O que aconteceu entre a época em que nos atirávamos e a que não subimos numa banqueta de 20cm?
Quem fomos, somos, seremos?
Quem escreve?
Quem lê?
Por quê?

Hoje vi dois corpinhos secos de sabiá.
Estavam num canto da rua, amassados pelos carros que passam apressados pelas vias paulistanas.
Pensei numa tragédia animal.
Um, gordinho e distraído.
Deu um pulinho, outro, mais um.
E acabou num pneu.
O outro, suicida.
Tomou coragem e foi também.

Doce morte a de passarinho de ficção.

Sob a água

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Uma mania de olhar para trás e sentir conforto.
Um presente que não se encaixou nos planos certos do passado.
Um peso.
Um conto suspenso no ar.

Andando por antigas ruas conhecidas, atravessei o passado.
Leve, solto, partilhado.
E segui sob o resto de chuva a olhar, mais uma vez, para trás.

A urgência de enxergar além do nariz.
A quase-paralisia.
Um caminhar lento.
Articulações estouradas, músculos empedrados, ligamentos rompidos.

Um saber que não há mais hora do recreio.
E que o passado é apenas uma entre tantas interpretações.

Um andar às cegas…
Como um seqüestrado que, depois do pagamento do resgate, é abandonado.

A vontade de ter olhos muito abertos.
O grito abafado.
Enxergar inclusive debaixo d’água.

(Por João)