Posts com a Tag ‘casa’

Vapor

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Ando pensando muito e escrevendo na cabeça.
Saem uns textos bonitos e sem a menor revisão.
Aí me esqueço daqui e fico flanando no ar.

A estilista morta – tão bonita, tão trágica.
Os meninos ricos da internet.
As lutas televisionadas.
As empregadas.
Fica tudo assim tão século passado.

Tenho achado todos muito impacientes.
Todos correndo.
Todos atrasados.
Uma agressividade pulsante.
Uma necessidade de gritos.

Estou no olho do furacão e gosto.
Sou feliz.
Aqui não há som.
Só imagem.

Casa nova que vai subindo.
Dinheiro, como sempre, escoando rua abaixo.
Viagens.
Cartões.
Chocolate.
E bastante vinho.
Agora com direito a corrida, personal trainer.
Cabelo louro.
Cortado louco.

Vapor.
Ando rindo de tudo.
Ando calma.
Será o outono ou a primavera?

anti-ruido

Capítulo 11 – Vista meu terno

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Generalista seria mesmo alguém que não sabe nada?
Carregava seu tablet para todos os lados – a nova muleta.
Jornais, mensagens, filmes, músicas – uma forma “portátil” de alimentar seu autismo social.

Como passar o tempo sendo ninguém?
Pensava que era uma forma de libertação.
Mas, ao fugir do labirinto, via-se só.
Refugiava-se naquela tela de computador.
E recusava-se a ficar em casa.

Ia a parques, ao café, muitas vezes caminhava sem rumo.
Andava a pé na cidade dos carros.
O estado das calçadas estava cada vez pior.
Era interessante ir ao banco quando não havia clientes.
Supermercados vazios.
Fazer exame de sangue às 16h e ser adulada por um sem número de funcionários ociosos.

Ser rico é outra coisa.
Ser rico é furar filas.
Não encontrar vazios em horários alternativos.

Naquela manhã percebeu um movimento estranho em seu mundo virtual.
Fanstasmas do passado pesquisando sua vida.
Sentiu um certo incômodo.
Talvez esta fosse sua única conexão com o mundo dos vivos.
Descobrir que ainda despertava curiosidade e inveja.
Não gostou.

Resolveu passar o dia em casa sem consultar os oráculos da internet.

casa

 

A tal da energia

terça-feira, 6 de março de 2012

em construção

Sim, esse é um daqueles posts que não combinam bem com isto aqui.

Eu, em momento de fim de ciclo e mudanças necessárias, cismei que iria deixar o meu lindo apartamento na Vila Madalena.
11 anos de luta, companheiro – e de festas sem censura, babe.

Saí por aí com mil corretores, a descobrir como o meu cantinho antes (muito) pé sujo e (um tanto) hippie ficou nouveau riche, supervalorizado.
Não, nada disso me fez gostar menos da Vila Madalena.
Se os tempos, as pessoas, se tudo muda, o bairro mais carioca de São Paulo não haveria de escapar.
E, sim, continuo amando as praças, as árvores, os sabiás, a bagunça colorida, os altos e baixos que lembram o mineiríssimo Santo Antônio.

Andei tanto, perguntei à vera e, fina ironia, descobri que a casa da frente está a venda.
Entrei, vi uma coisa e imaginei mil outras.
Janelas gigantes, vista do alto.
No lugar de um quintal com caco de azulejos, jardim com chuveirão, grama, ervas aromáticas.
Fechei negócio.

Mas e o dinheiro?
Corrida maluca para colocar o apartamento a venda.
Preciso logo aumentar a minha própria renda.

Como em filme americano, deixei o ambiente cheiroso e mais lindinho para atrair copradores.
Quase montei uma banca de limonada…
Ontem de manhã, o primeiro casal.
A dupla veio cedo, voltou de tarde.
Vendido. (Ou apalavrado)

Assim, no primeiro lance.
E você não acredita que, às vezes, o universo conspira?

carpete

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
tortos

tortos

Arrastando quilos de coisas – caramujo de táxi.
Uma trilha brilhante mostra o ponto de partida.
Na volta à casa, perdi meu sentimento de lar.
Um mês e meio fora para quem havia jurado nunca tanto sumir.

Anestesia.
Casa.
Alma.

Um cano estourado me trouxe de volta à tona.
Sem banho.
Sem comida.
Numa São Paulo vazia.
De repente, feliz.

Como pode ser assim, perdida?
(e com canelas debaixo d’água)

Ao mundo

terça-feira, 2 de agosto de 2011

desconheço

Um mês em sintonia variada.
Acomodados, somos.
Em diferentes terras, mimetizamos.
De volta a casa, não me reconheci.
Com tudo do avesso, inventei.
E Ana se perdeu para todo o sempre em Ana (qual delas?).

Por aí, comi novos sabores, diferentes caminhadas.
Por aqui, mudei tudo de novo para inventar uma casa.
Sairam funcionários, novas gentes.
E fiquei pensando em como somos descartáveis.
Embora não queiramos.
Amores, trabalhos, histórias – nada é perene.

Agora, sozinha em uma tarde, enrolo.
Não trabalho.
Não faço nada.
Fico sentada esperando a poeira trocar de lugar.
E tudo o que foi marcado, acertado, combinado…
Ah… deixa tudo para outro dia.

Amplitude

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Espaço

Meu espírito paradoxal gosta de organização e mudança.
E a casa agora está para peixes, gatos, cachorros e Anas.
Andar por um velho espaço e não se encontrar.
Ver pilhas de coisas e se questionar: para quê?
Levantar a poeira.
Contar com a ajuda de desconhecidos.
Esperar que a noite apareça e que eu esteja só dentro desse enorme receptáculo e reorganizar pensamentos, mundo.

Avançar com os fiapos de raios de sol do fim da tarde.
Correr com a manhã.
Falar menos.
Ver muito pouco.
Ler, música.
Acompanhar a curiosidade dos bichos.
Massagem com óleo quente nos pés.
Cheiro de alfazema.

Casa em ebulição.
Vida nova.

Realidade sem reality

terça-feira, 14 de junho de 2011

pequeno abalo

Aqui no Brasil o novo hit são os blogs de anônimos que exibem fotos deles mesmos com seus visuais descolados.
Pois na Vila Madalena o novo não-hit é reformar a casa e chorar sobre cacos.

Eu decidi duas coisas: vou comprar uma casa maior e vou dar um tapa na atual.
Não pretendo vender esta onde vivo (que é bem charmosinha) e contratei uma equipe de arquitetos para criar um espacinho extra para que a casa funcione melhor até fevereiro que é quando devo comprar o apartamento do vizinho.
Resultado: o quarto de empregada vai virar closet/despensa.
O quarto de hóspedes deixará de ser escritório.
O banheiro de serviço vai virar um lavabo bacaninha.

Depois de muito fazer contas e discutir orçamento até acabar o estoque de café Nespresso, foi batido o martelo.
E hoje, em poucas horas, o banheiro veio abaixo.
Antes branquinho e muito simples, agora vai ganhar pastilhas, cores, box, tudo espremido em um espaço que mal dá para abrir os braços.
Na sequência, meu quarto será invadido.

Em meu hotel em Nova York, uma original Charles and Ray Eames de balanço na singela cor verde limão me aguarda.
Papéis de paredes serão enviados nos próximos dias.

Disseram que no oitavo dia fez-se o caos – e o homem se refestelou na lama.
(Por ser má propaganda, o editor recomendou que esse trecho fosse retirado da Bíblia)

Assim, de repente

sábado, 21 de maio de 2011

mineiridades

Pensei em me mudar para uma casa.
Não posso reclamar do momento em que o Brasil está vivendo.
Estamos em 6º lugar no ranking das cidades com bilionários…

Quem sabe?
No meu quarteirão… Quintal, edícula, uma praça em frente.
Eu posso ser uma pobre excêntrica no jardim dos bilhões.

Assim, sem pensar, os dias têm se agitado.
Não tenho mais horário para marcar almoço com amigos.
Um trabalho novo pinta.
Eu vou inventando modas e modos.

Assim, num sábado, suco e argentino (não combina, eu sei) e “pau” no ex-presidente do FMI.
Reunião com arquitetos.
Adoro gente maluca.

Cachorrada. Sorvete. Gataria.
Sábados frios com sol.
Repetitiva, sem imaginação.
Textinho vagabundo e reciclado.
É, como diz a anetoda, o que temos para hoje.
(e é uma delícia – por isso divido – afinal, disseram que o apocalipse seria hoje)

 

A minha casa não é a sua rua

terça-feira, 15 de março de 2011

Além os comentários bacanas, nem sempre favoráveis, surgem alguns sui generis.
Dois recentes, merecem resposta pública. Um em inglês diz que estou mal na foto x. O problema é que quem mandou é conhecido – embora tenha usado pseudônimo.
Outro, em português, sugere que eu seja uma desempregada – vergonha das vergonhas nacionais.

O blog é público e aberto, portanto não censura comentários – ofensivos ou não.
Mas o blog não é minha casa.
O que faço, se tenho filhos, meu estado civil, religião – não é este o objetivo.

Mas, obviamente, se coloco a cara, coloco também os ouvidos.
Então vamos oferecer um martelo à moda.

Cliford Geertz em “A interpretação das Culturas” adverte com razão que

“a noção de que a essência do que significa ser humano é revelada mais claramente nesses aspectos da cultura humana que são universais do que naqueles que são típicos deste ou daquele povo, é um preconceito que não somos obrigados a partilhar”.

Cromwell que, segundo Geertz, foi “o inglês mais típico do seu tempo, precisamente por ser o mais esquisito” fez um comentário interessante:

“pode ser que nas particularidades culturais dos povos – nas suas esquisitices – sejam encontradas algumas das revelações mais instrutivas sobre o que é ser genericamente humano”.

Numa sociedade capitalista com pitadas neo-liberais adaptadas para a tropicália, costumam ser universais os deveres:
– trabalho;
– nacionalidade;
– estado civil.
Sem os três, não somos pessoas.
Sem trabalho, não compramos, não comemos, não existimos.
Sem origem, não nos posicionamos no começo da guerra pela sobrevivência.
Sem estado civil, não somos aceitos ou, ao contrário, somos marginalizados.

E, por isso mesmo, esse blog não se interessa por essas questões.
Nem em publicar nem em saber.

Em nossas vidas fora das redes binárias, digitais, temos o sobrenome corporativo, temos ou não alguém, nascemos em algum canto.
Aqui, não.
Aqui, podemos mostrar tudo o que não somos, o que não vestimos.
Aqui, quero sua poesia, quero a tradução sem revisão, quero a discussão sobre a alegria de ser pai no Natal.
Aqui, Portugal não é feita de gente que reclama do que tem e que olha demais para os lados.
Aqui, Tóquio não é um terremoto.
Aqui, você pode se indignar com meu radicalismo e me cortar do seu mapa.
Aqui, você até me fazer mudar de opinião.

Aqui, não aceitamos ameaças e não deixamos o bom debate de lado.
Aqui, tem lugar a discussão sobre os limites do preconceito.
Afinal, ele existe – mas uns insistem em se esconder atrás da página em branco que não é a sua vida e o seu pensamento.

Minha mãe foi daquelas pioneiras com carreira brilhante, livros publicados, etc e tal.
Hoje, estudante de filosofia, descobriu que não quer ser professora, não quer escrever outro livro, não quer aplicar o conhecimento ou oferecer uma resposta à sociedade.
Ela quer estudar. E só.
Foram anos de caminhada para descobrir que nem tudo o que você faz tem que vir junto com uma resposta pública ou uma entrega social.

Adoro “A Casa & A Rua”, de Roberto DaMatta:

“Se no universo da casa sou um supercidadão, pois ali só tenho direitos e nenhum dever, no mundo da rua sou um subcidadão, já que as regras universais da cidadania sempre me definem por minhas determinações negativas: pelos meus deveres e obrigações, pela lógica do “não pode” e do “não deve”.”
(…)
“…no Brasil, vivemos sempre oscilando. Uma mesma pessoa pode expressar opiniões aparentemente diferentes, divergentes e até mesmo contraditórias, caso se posicione em casa, na rua ou no outro mundo”.

Pois é: eu tenho a mesma opinião não importa onde.
E é isto que te incomoda.

Lar e pizza

domingo, 9 de janeiro de 2011

ponta-cabeça

A mesma casa.
Nem sempre as mesmas coisas.
Na velha fotografia, faltam alguns elementos.
Eu ainda não consegui desfazer a mala.
(Anote: duas vezes em uma vida)
A mesma pizza.
A geladeira que descongelou.
A vizinha que guardou a comida.
A comida que estragou.
Uma vontade louca de arrumar tudo.
Jogar creolina.
Acender fósforo.
Queimar a empregada.
E uma preguiça só de pensar.
A mesma cama e um sono ainda maior.
Deixa para o domingo.
Casa.
Disseram que iria fazer sol.
E fez.

Então feche a cortina.
E abra os olhos.