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Meu mundo que você não vê

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Tempestade

Quando o pobre suicida chega às vias de fato.
A turba, em coro:
– Covarde.

Quando a famosa atriz afirma em importante entrevista:
– Matei, dei, traí, roubei.
Nos salões, madames desdenham:
– Atriz.

Quando a vida pesa e você não tem saída.
Pelos corredores, sussurros:
– Fracassado.

Quando a fé é cega e o passado, dourado.
Um flit paralisante qualquer
Te aprisiona ao ontem e te impede de ver o hoje.

Quando a carne é fraca e o andor, de barro.
Deus chega ao sexto dia.

Ao contemplar a criatura, profetiza:

– Coragem.

Meu mundo que você não vê
existe mesmo assim.

Aquele aeroporto na Singapura

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Eu prefiro vodka pura

Foi naquele aeroporto na Singapura.
Depois de pegar um teco-teco com destino a Frankfurt.
De esperar horas e agoras.
De passar pelas esteiras, escadas, camas-esteiras para quem vem de longe.
O cheiro acre de um banho em casa distante.
Eu não falava polonês.
Você não falava inglês, francês, espanhol e português.

3 horas, depois de 15 horas.
As mensagens jorravam do meu blackberry cheias de avisos, de gritos de socorro.
O avião para Sydney, atrasado.
No banheiro estranho.
O chuveiro parecia de ponta cabeça.
A água saía do chão.
Comprei um sabonete.
Tirei meu vestido preto.
E pensei: “o que estou fazendo aqui?”
A resposta veio afiada.
Ajudando incompetente a vender refrigerante.

Fazia calor.
Da janela, eu via o vapor no horizonte.
Lá no fundo da paisagem, imaginava, havia arranha-céus orientais.
De repente, ouvi a chamada.
Virei a torneira.
Molhada, coloquei meu vestido.
Joguei a meia americana no lixo.
Peguei meu telefone e coloquei a primeira música que apareceu.

Cazuza me sussurrou no ouvido.
Acrescentar pequenos momentos de silêncio
Movimentos sérios de mãos
Esperar o troco.

Foi ali no aeroporto, molhada e aliviada, que eu decidi.
Deixar toda essa hipocrisia de gente careta e covarde de lado.
Essa conta, pode deixar, eu pago.
O nome da música?
Manhãs de ressaca.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Bruno, o goleiro anti-herói desmaiou mais uma vez.
Com ele, é tiro (?) e queda: é entrar numa audiência que o grandão tem peripaques.
Hoje, deu show: foram publicadas fotos de todos os ângulos. Até das canelas machucadas.
Eu fico obrigada a fazer o comentário lugar-comum: será que, na hora de meter pílulas abortivas goela abaixo de uma moça com quem ele tinha um relacionamento, ele desmaiou?
E quando a turma dele bateu nessa mesma moça que carregava um filho na barriga?
E, se ele mandou mesmo matar mãe e filho, ele desmaiou ao dar a ordem?

Zapeando pela internet, caí num vídeo do Pânico.
Num evento há cinco anos, o insuportável menino vesgo faz piadinhas infames com o atual candidato derrotado, Netinho.
Netinho, sorridente para as câmeras, é subitamente abduzido por um bicho-papão.
Faz um olhar de louco e desfere um soco na nuca do comediante.
Depois, puxa o moço pelo colarinho e faz ameaças.
É impossível não cair em outro comentário lugar-comum.
O que não devem ter passado as duas moças que comprovadamente apanharam desse rapaz?
Alto, corpulento e com olhar e atitudes de psicopata.
Hoje, cinco anos depois, o menino vesgo vai atrás de seu algoz e ele, o que não surpreende, o trata muito bem, com doçura até.
Afinal, era momento de campanha eleitoral.

Como tenho formação de jornalista, reconheço que convivi com seres absurdos em grande parte de minha vida profissional.
E grande parte das bizarrices que vi se passavam dentro de redações.
Já ouvi muitos gritos e poucos sussurros.
Fechamento de jornal, para muitos, é metáfora de gente alterada.
Para mim, a tensão e a pressão de um fechamento nunca justificaram grosseria ou descontrole.

Gritar?
O grito é uma manifestação de animal.

Tenho um grande amigo que se diverte com o que ele chama de “momento alto” da análise.
O grito primal.
Manifestação violenta, sob a forma de grito (com ou sem palavras, acompanhado ou não de gestos bruscos ou comportamento histérico), de emoções e afetos reprimidos por ocasião de um acontecimento traumático que é revivido durante uma psicoterapia

O grito, o desmaio, o show.

Em 1988, Zuenir Ventura escreveu um texto interessante sobre Cazuza em que cita uma consideração muito atual de um psicanalista:

Na sua teoria sobre a nossa dissolução social – exposta por José Castello no Idéias de 21-5-88 – o psicanalista consegue avistar um país sendo cavalgado por quatro apocalípticos cavaleiros: o cinismo, a delinqüência, a violência e o narcisismo. Essa combinação forma uma cultura da descrença. “No lugar da indignação”, diz Jurandir, “produziu-se um discurso desmoralizante”. (http://literal.terra.com.br/zuenir_ventura/por_ele_mesmo/artigos/05um_grito_contra_a_razao_cinica.shtml?porelemesmo)

Em tempos de histeria coletiva com a política e em país em que goleiro de time campeão é assassino e músico-apresentador de TV vira espancador de mulher, será a hora do grito?
Sabe quando uma boa história está chegando ao fim?
Você olha para trás e pensa qual foi o ponto de virada que levou tudo o que havia de bom para o buraco.
Em que momento você perdeu o fio da meada?

Eu aprendi que a crítica serve para aliviar as tensões de nossa vida dura.
E, sempre que posso, uso um remédio medicinal: firmeza combinada com gentileza.
Marina “venceu” porque usou esta poderosa arma.

E nós?
Acabaremos num grito?

poète maudit

terça-feira, 21 de setembro de 2010

François Villon, dizem, foi o primeiro. Preenchia três quesitos necessários: ladrão, boêmio e ébrio.
O termo ganhou o mundo depois de uma série de artigos dos anos de 1884-1888 assinados por Paul Verlaine intitulados “Les poètes maudits”, no “Boletim Lutèce”, com citações de Tristan Corbière, Rimbaud e Mallarmé.
Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Lautréamont.
Verlaine abandonou mulher e filho em 1872 para ficar com Rimbaud.
Foram para Londres.
Em julho, Verlaine disparou dois tiros contra Rimbaud, atingindo o pulso do jovem poeta.
Os últimos anos de Verlaine foram marcados pela dependência de drogas, alcoolismo (muito absinto em Paris) e pobreza.
Paulo Leminski escreveu que, “se vivesse hoje, Rimbaud seria músico de rock”.
Morto há 21 anos, Leminski era tradutor de japonês, inglês, francês, latim, espanhol, judoca faixa-preta, monge iniciante, compositor popular, biógrafo, professor de história e de redação, publicitário, contista e trotskista.
Meus queridos Truffaut e Gainsbourg.
John Fante, William Seward Burroughs, Jack Kerouac. Henry Charles Bukowski Jr.
Tutti bona gente!
No Brasil, um grupo. Escolha o seu.
Francisco Alvim, Carlos Saldanha, Antonio Carlos de Brito, Roberto Piva, Torquato Neto, José Carlos Capinan, Roberto Schwarz, Zulmira Ribeiro Tavares, Afonso Henriques Neto, Vera Pedrosa, Antonio Carlos Secchin, Flávio Aguiar, Ana Cristina Cesar, Geraldo Carneiro, João Carlos Pádua, Luiz Olavo Fontes, Eudoro Augusto, Waly Salomão, Ricardo G. Ramos, Leomar Fróes, Isabel Câmara, Chacal, Charles, Bernardo Vilhena, Leila Miccolis, Adauto de Souza Santos. Incluo Cazuza, Cássia Eller e até Renato Russo entre os populares. E Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta.

Engraçado mesmo é que quem expressa opiniões costuma ser maldito.
Do latim, “maledíctus” é aquele ‘que diz ou pronuncia palavras de mau augúrio’.
Poesia.
Opinião.
Tudo se resume em uma palavra: confusão.

E aí é inevitável.
O que pode ter causado na minha cabeça um filme que vi (escondida) aos dez anos de idade?
Era a estréia da Sessão Coruja.
Peter Fonda joga o relógio de ouro no acostamento…
E o destino quis que fosse assim.

(A melhor versão está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=nIfUD70yvz8)

Alumia

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Voltando para casa minutos atrás, ele me aparece do além.
Entra no meu carro, abre a janela e coloca o Cristo reformado na paisagem da pequena metrópole.
Coloca fundo musical na minha escuridão.

Toda vez que ouço essa música, a sensação é de que Cazuza continua aí.
Porque tudo o que ele descreve é hoje e não, ontem.

“São 7 horas da manhã
Vejo Cristo da janela
O sol já apagou sua luz
E o povo lá embaixo espera
Nas filas dos pontos de ônibus
Procurando aonde ir
(…)
Neste filme como extras
Todos querem se dar bem
Num trem para as estrelas
(…)
Eu vou dar o meu desprezo
Pra você que me ensinou
Que a tristeza é uma maneira
Da gente se salvar depois”

Fico pensando nesses artistas mortos.
Tanta clarividência…
Por isso ficam de longe rindo na nossa miséria.

O tal trem para as estrelas…
Tão óbvio e ainda tem gente fazendo fila na estação.

Hoje no francês, uma história que se repete.
Uma colega trabalha para um banco estrangeiro.
Problemas com a cultura.
Trabalho em excesso.
Ela vai puxar o carro e se mandar para Bordeaux. 6 meses de dolce far niente.
Todo mundo tem um caso parecido para contar.
Ninguém venha dizer aqui que estou usando de metáforas.
Não estou. Essa não é a minha história travestida de vida dos outros.

Na verdade o que me toca é essa sensação universal de estar fora da ordem.
Da nova ordem.
A questão do tempo.
Do pouco tempo.
Do trato.
Do prazer.
Do não ver a tal luz no fim do túnel.
E de sempre sentir que se está perdendo algo.
A grama do vizinho.
Juventude que se esvai.
Espaço que fica apertado.
A bilheteria que não tem mais passagens para Marte.

Na segunda-feira, um senhor me fez três perguntas.
Eu totalmente exposta, como carne seca no varal.

– O que é ser bonito?
– Do que você gosta?
– Você quer saber?

Isso virou uma mandala mística que abriu caixas, esconderijos, tirou pó, franziu testa.
Aquelas perguntas martelando na minha cabeça e abrindo mais e mais perguntas.
Eu querendo entender tudo.
Ou seria esconder?
Foi muito diferente.
Em outro momento, talvez eu não estivesse pronta.