Posts com a Tag ‘coragem’

Capítulo 20

terça-feira, 22 de maio de 2012

Fechou a porta apressada.
O vôo sairia em 3 horas e ela ainda teria que enfrentar o trânsito para chegar ao aeroporto.
Engraçado como a mala estava vazia.
Antes, sempre carregando um mundo feito caramujo, agora, sem muito o que arrastar.
Fazia calor por lá.
O inverno, quando chegasse, seria de escuridão.
No caminho, nervosa e cada vez mais atrasada, ia pensando em sua primeira viagem.
O aperto no peito quando, uma hora e meia depois de decolar, pensou que não conhecia a cidade.
Não conhecia as ruas, as comidas, as pessoas.
Onde chegaria?
Teria onde morar?
Mudaria seu jeito? Seu sotaque?
Como não pensara no perigo que é não ter amarras.

Desta vez, havia pesquisado tudo.
Sabia até o nome do café mais popular.
Levaria os bichos.
Poucas roupas, poucos objetos. Tudo muito programado.

No meio do caminho, falou alto: “- Estúpida.”
Era mais uma daquelas viagens que começam do ponto zero.
Construir todo um universo de novo.
Reinventar a personagem.
Tentar sobreviver.

Sentiu aquele velho aperto no peito.

O taxista ligou o rádio e um som alto de pagode inundou o carro.

Brutalista

quarta-feira, 7 de março de 2012

Quand le monde sera réduit en un seul bois noir pour nos quatre yeux étonnés, – en une plage pour deux enfants fidèles, – en une maison musicale pour notre claire sympathie, – je vous trouverai.

Arthur Rimbaud

É inevitável passar noites em claro em fases como esta.

E ficar menos produtiva pois a cabeça voa…
E o que seria de mentes interessantes se não tivessem um curto circuito vez ou outra?

Hoje madruguei e acordei com Paulo Mendes da Rocha.
Brutalista na alma.
Querendo mergulhar numa piscina negra modernista e sair mais Ana Pessoa.

Vamos mudar tudo?
Marretar paredes, excluir portas, abrir janelas?
Sair com terno de linho para tomar uma branquinha antes do meio dia?

Atolar-nos em dívidas ricas.
Vamos virar tudo do avesso só para ver o que acontece?

Intenso nas profundezas.
Duro como concreto.
Sem medo.
Sem nada.

Será que o blog vai mudar de nome?
Afinal, queridos, eu tenho quase 37.
Quem sabe: “Passei dos 30 a 200km/h?”

putzgrila!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Eu sempre andei sobre a tal linha tênue.
Mas era mais voyeur do que participante do lado de lá.
Eu sempre fui segura.
E a favor da verdade.

Hoje acordei feliz e
fui me jogar no pão com ovo da Padoca.
Voltei muito animada
e simplesmente não fiz nada.

Agora, com 35,
a vida cobra algumas posições e decisões.
Pensar com a cabeça ou com o coração?
Na etapa 1,
isso significa cortar histórias e até pessoas.
E seguir em frente com cicatrizes.
Na etapa 2,
significa enfrentar o desconhecido.
E lidar com o rastro das coisas.
E com pessoas que ficarão.
(mesmo que eu não queira).

Comprei a minha passagem
para minha próxima viagem.
Ganha um doce quem acertar o destino.
Delícia é feriado no meio de um furação.

Sinceramente, a decisão (mais uma vez) caiu sobre minha cabeça.
E hoje entendo o medo dos gauleses.

Mas ando com uma força sobrenatural para decidir.
E, tenho certeza, vai ser uma grande história nova.

(Não rezem por mim – eu não acredito)

PS: não, não estou falando de meninos, please!

Meu mundo que você não vê

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Tempestade

Quando o pobre suicida chega às vias de fato.
A turba, em coro:
– Covarde.

Quando a famosa atriz afirma em importante entrevista:
– Matei, dei, traí, roubei.
Nos salões, madames desdenham:
– Atriz.

Quando a vida pesa e você não tem saída.
Pelos corredores, sussurros:
– Fracassado.

Quando a fé é cega e o passado, dourado.
Um flit paralisante qualquer
Te aprisiona ao ontem e te impede de ver o hoje.

Quando a carne é fraca e o andor, de barro.
Deus chega ao sexto dia.

Ao contemplar a criatura, profetiza:

– Coragem.

Meu mundo que você não vê
existe mesmo assim.