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Manual de sobrevivência

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Jazz, guayabera e um silêncio

Meia vida se encerra em nove folhas de papel.
Quem paga o jornal?
O banho da cachorra?
IPTU, Condomínio?
A vida, o dinheiro, os bens, as coisas?

Quem fica com o espremedor de laranja?
O toca-discos?
A máquina de waffle. A panela.

Dois meses de jogo duro.
De viradas dignas de Nina Simone.
Do ceticismo se fez luz.
Das certezas se fez a solidão.
Das dúvidas se fez de tudo e mais um pouco.
E eu comecei a recitar vários mantras.

Um dia na estrada, um banho de mar.
Discussões, como sempre, sal no carro.
Um impresso.
Rubricas em 8 páginas.

E assim começa a nova vida.
Passando em branco todas as coisas.
Mas deveria conter coisas este papel?

Aqui jaz Parati numa noite de amor vendo os telhados.
A varanda com rede do Jardim Botânico.
Os exus no jardim.
O carro novo amassado em uma escada de qualquer ladeira em Santa Tereza.

Aqui jaz Cuba.
O carnaval de Olinda.
Jamaica de red or white wine, champagne?
Aqui jaz o prédio da Bela Vista com bela vista para Masp.
Aqui jaz o fantasma de dona Bibiana.
Jaz o apartamento da João Lira.
Bibi, Leleco, Mafalda, Marmelo, Bo Ba (de Lina).
A praia do Leblon.
O posto 9.
A banda de Ipanema e as Carmelitas.

Um ou outro forró mal-dançado.
Uma festa de arromba no Humaitá.
Alguns festivais de cinema.
Um carro novo, importado.
Nova York.
Punta Del Leste.
Um reveillon em Itatiaia.

Aqui termina a festa de arromba para 400 pessoas.
Com muito espumante brasileiro e uísque estrangeiro.
Os amigos de todas as partes.
Aqui jaz meu vegetarianismo.
Meus quilos a mais – contados e recontados e perdidos como que para mostrar que a vida pode nascer das cinzas.
E eu estou de novo como eu era quando tinha 23 anos.
E nao me pareço em nada com aquela menina.

Aqui jazz.
Ali samba.
Aqui fidelidade eterna.
Ali confusão que custou caro.

Algumas raves.
Gafieiras.
Mochilões.
E, que engraçado, nunca fomos juntos para a Europa.
Paris, Praga, Amsterdã.
Cada um a seu tempo.
E por sua conta.

Em nove páginas, não existe nem um capítulo de histórias.
Só coisas.
E coisas são mudas.
Inanimadas.

Que o juiz faça uma graça, cite Oscar Wilde.
Ou, ao menos, Vinícius.
Se ele nada fizer, prometo queimar todas as nove páginas ao som de John Coltrane.

Aí, sim, tudo o que jazz.
E segunda-feira eu sairei pela calçada, com cara e alma lavada.
Pronta para qualquer parada.
Ou andada.

Porque eu sou Pessoa.
E amo tudo o que já não é.

 

Água em marte

terça-feira, 29 de maio de 2012

Procura-se abrigo

Encontraram água em Marte?
Se eu usar um escafandro moderno posso respirar?

Essa sensação que me voltou hoje surgiu pela primeira vez em 2001.
Depois de um período vivendo em Cuba, cheguei em São Paulo e fiquei catatônica em frente a uma prateleira de supermercado.
Juro que pensei em consultar um psiquiatra.
Era pós-Torres de Nova York, era pós-Cuba dos anos 50 corrompida até os ossos, era um momento em São Paulo frenética, desorientada, era necessidade de pagar aluguel.

Hoje fiquei com vontade de escrever para sir Richard Branson criar logo uma rota TERRA-MARTE.
Eu venderia a alma para me exilar em outro planeta.
Levaria umas mudas de roupa, o filho, umas fotos em papel.

Hoje, estupidamente, abri um vídeo enviado por ativistas sírios.
O vídeo não tem nem 10 segundos.
E mostra as crianças mortas, com tiros enormes, do tamanho de uma nação.
Os adultos sacudindo aqueles trapos sem vida, gritando por não ter pátria, por não ter fé.
Todos, eu e meus problemas tão pequenos e tão duros incluídos, precisando fugir da Terra.

Um governo que manda matar velhos, mulheres, crianças.
Gente escolhida ao acaso.
Efeito colateral de um líder covarde e violento, de um mundo perdido, de um desesperançado século XXI.

Por aqui, ex-presidente tão bandido quando qualquer anterior.
Um corrompido cheio de soberba – como aquele de lá, por que não?
Ex-ministro defensor de bicheiro assassino em troca de 15 milhões de reais que ninguém sabe (mas todo mundo desconfia) de onde saíram.
Repórter que recebia benesses de bicheiro
Ministro encontrando com ex-presidente lobista querendo atrasar julgamento dos ladrões da pátria.
Por aqui, vizinho que quer dar golpe em condomínio.
Gente que mente na sua carta.

Por aqui, tudo reduzido a um salve-se quem puder.

Ontem brinquei em rede social: “Meu pirão primeiro! É muita marmelada…”
Brincadeira de péssimo gosto.
Quero ir embora.
Para muito muito muito longe.

Beira-rio

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

La mariquita roja trae suerte a aquellos que lo creen.

Essa coisa de ficar enclausurada.
Quando fujo, falta tempo.
Fico em carne viva.

Nesta caixa, voando.
Você me vê – creio.
Lembro de algo que me fez bem na década passada.
Espero chover.
Será que tudo seria diferente?
Duvido.

Leio as notícias, reclamo das grades, caminho da sala para o quarto.
Vejo um pedaço do mar.
E acho que estou ali, outro lugar.

Prometo respeitar as horas.
Não começar 2012 agora.
Minto e você acredita.

Viajante.
Cigana.
Mais feliz do que ontem.
Choppinho gelado em dia de calor.

La bicyclette

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

On était tous amoureux d’elle… On se sentait pousser des ailes

Estávamos todos apaixonados por ela… Sentíamos crescer asas


Tropicola

Hoje sonhei em francês.
Um sonho cheio de erros de gramática.

E me deu vontade de andar de bicicleta pela cidade.
Ouvindo Yves Montand e sua paixão infantil pela magrela.
Ou haveria algo por trás dessa história?

Sair sob o sol pelas ruas – que, providencialmente, não teriam carros, ônibus, motos.
Seria uma quarta-feira de feriado, um domingo equivocado.
Todos os carros estariam em recall – falhas de freio, de marcha, parafusetas trocadas, rebimbocas gastas…
Os ônibus, em greve.
As motos, em fila indiana para bater o recorde mundial do Guinness Book.
Uma serpente fina saindo de Interlagos, esgueirando-se pela Marginal Pinheiros até a Ayrton Senna, a Dutra, perdendo-se na Fernão Dias.
Cobra coral feita com motos negras, cinzas, vermelhas, motonetas brancas, mobiletes enferrujadas, Hondas Biz (com tudo elas combinam), lambretas e seus clones mais estapafúrdios.

Pela cidade, pedestres, bicicletas, carroças, triciclos, patinetes.
E o sol de primavera.

Vida louca, vida imensa, Cazuza.
Minha bicicleta não tem cestinho ou cadeirinha de criança.
Vou colocando minhas sacolas no guidon.

Quantas vezes caímos ao patinar na areia que cerca o mata-burro da estrada?
E quantas passamos correndo e deixamos tudo para trás?

Depois das amoreiras, do limoeiro-capeta, das carambolas, atrás dos manacás…
Ali naquela terrinha onde passa um veio d’água.
Com pedrinhas de Lafaiete (em português de mineiro).
Minérios e machadinhas de índios mortos.

Foi bem ali que seu bisavô fez um pequeno buraco.
E colocou seu umbigo.
Para você ter uma raizinha mineira.

E a bicicleta?
Ah…
Uma ficou em Cuba.
Outra foi para Recife.

 

Quand on partait de bon matin

Quand on partait sur les chemins
A bicyclette
Nous étions quelques bons copains
Y avait Fernand y avait Firmin
Y avait Francis et Sébastien
Et puis Paulette

On était tous amoureux d’elle
On se sentait pousser des ailes
A bicyclette
Sur les petits chemins de terre
On a souvent vécu l’enfer
Pour ne pas mettre pied à terre
Devant Paulette

Faut dire qu’elle y mettait du cœur
C’était la fille du facteur
A bicyclette
Et depuis qu’elle avait huit ans
Elle avait fait en le suivant
Tous les chemins environnants
A bicyclette

Quand on approchait la rivière
On déposait dans les fougères
Nos bicyclettes
Puis on se roulait dans les champs
Faisant naître un bouquet changeant
De sauterelles, de papillons
Et de rainettes

Quand le soleil à l’horizon
Profilait sur tous les buissons
Nos silhouettes
On revenait fourbus contents
Le cœur un peu vague pourtant
De n’être pas seul un instant
Avec Paulette

Prendre furtivement sa main
Oublier un peu les copains
La bicyclette
On se disait c’est pour demain
J’oserai, j’oserai demain
Quand on ira sur les chemins
A bicyclette

Riscado

domingo, 11 de setembro de 2011

nem tudo é o que parece ser

Eu sei – tudo hoje vai ser sobre um atentado de 10 anos atrás.

Eu acabara de chegar em Cuba para uma temporada e tanto.
Vi e soube de tudo pela internet movida a manivela e pela CNN em espanhol.
De lá, o tempo parado nos anos 50 fez a realidade ser muito diferente.
Não fiquei parada em frente à TV.
Fui correr por laranjais.
Fui pensar em Godard.

Ilha do fim das fantasias.

E o que me interessa hoje é falar dessas coisas que só vemos com auxílio de microscópio.

Você já foi ao cinema para respirar “Riscado”?

A vida da gente.
Com mais baixos do que altos.
Alguns raros momentos de felicidade. Banais.
Um ar de não sermos nada demais.
E bem especiais. Sempre.

Que dia lindo.

É domingo.

200km por hora

quinta-feira, 11 de março de 2010
2001, uma odisséia no espaço

2001, uma odisséia no espaço

E foi assim que tudo começou. De saco cheio da vida de jornalista que rala, mas não leva crédito, parti rumo à ilha.

E abri minha caixa de surpresas.

Agora, 9 anos depois, fico relembrando as viagens da viagem. Em pleno Caribe, fugindo do carpete e das redações, curtindo andar com um pano na cabeça. Os óculos eu perdi num Skoll Beats, os brincos fiquei com um só na Ilha do Mel e mandei para o mar, o pano foi blusa, saia e vestido e, hoje, está guardado com toda pompa no meu gavetão de panos. No dia dessa foto, uma cubana me achou patrícia e perguntou se eu estava faturando o “gringo” que me acompanhava. Risos e mais risos. Fiquei me achando “a” cubanita de pano na cabeça.

Pois é…

Amanhã, Rio; dia 27, Abu Dhabi, dia 12 de abril, Salzburgo. Eu que estava pulando em comemorações ao meu momento ex-Latam pago a língua com estilo. Mas não posso reclamar – essa vida de communications é literalmente uma viagem. Só não pode ter amarras, filhos e se levar muito a sério.

Como diz a canção do Lô, “sou do mundo, sou Minas Gerais”.

E estou devendo, mas não nego. Vou contando em pílulas.

Sobre minha história no mundo da construção civil… Começou animada, no meio tinha um caixa dois, depois um processo e, hoje, acertei minhas contas. Tudo porque peitei a gigante e sem colete à prova de balas. Não foi fácil, tem que ter coragem, tem que ser meio doido. Em vários momentos, a vontade era de ir até a Receita Federal e vomitar as porcarias que testemunhei em números. Mas tive que adotar um meio termo. Porque ferro com bandido acaba em fogo.

Mas digo apenas uma coisa: no Brasil, as construtoras limpam a grana através de agências de publicidade e todo mundo sabe. Eu não sabia e fiquei horrorizada. Mancha negra total no meu CV. É chato se descobrir honesto num meio em que o modus operandi é comprar fiscal de prefeitura, prefeito, vereador, é limpar dinheiro achacando fornecedor ou transformando fornecedor em cúmplice. Cruzes, traficar deve ser mais limpo.

Fui.

MacunaAna

sábado, 9 de janeiro de 2010
Mangueira!

Mangueira!

Preparando o espírito para a volta ao batente.
Passeio pela Vila, carro sujo e volta pelo lado fino da cidade. Visual com cachos em novo shape, flores para a casa ter a minha velha cara.
Cheguei decididíssima na banca: quero todas brancas para celebrar o ano e mandar saravá para Iemanjá.
Saí coberta de verde e rosa da Mangueira (embora meu coração seja verde e branco).

Aproveito para celebrar Oxóssi. Rei das florestas, caçador, orixá da alegria, da expansão, o que gosta de agir à noite. Dizem que seus filhos são faladores, muito ágeis e de raciocínio rápido. Segundo Pierre Verger, Oxóssi é o arquétipo daquele que busca ultrapassar os próprios limites, expandir o campo de ação. A caça é uma metáfora para conhecimento, ciência, filosofia. Está tudo de bom tamanho.

Como uma católica de batismo, agnóstica com forte tendência para o ateísmo resolve fazer um agrado para o candomblé?

Culpa dessas conexões que insistimos em não notar… Olha que a antropologia adiantou meu lado com totens por Levi-Strauss e Marcel Mauss.
Em 98 morei na Bahia. Andando por bairros pobres ou mesmo dando voltas no Pelourinho, algumas pessoas me cumprimentavam com nomes estranhos e oferenciam guias bicolores. Pensei que a graça era para todo forasteiro branquelo e achei uma beleza receber colares de contas coloridas sem ter que desembolsar um centavo…
A verdade é que fui “descoberta” pelo candomblé. Para quem crê, sou filha de um santo. Santo esse que não costuma ter filhas. Engraçado é que em Cuba (2001) a história se repetiu. O nome do santo muda, mas como todos temos sangue do Benin nas veias…

Não me aprofundei na relação mística e espiritual com um “pai” do candomblé por pura preguiça. Mas aí a influência vem de outro terreiro. O terreiro paulistano e modernista. Terreiro de Mário de Andrade, de Macunaíma.

“Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitos do herói.
Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente.
Tem mais não.”

A girafa yoísta

domingo, 22 de novembro de 2009

girafitaSair por aí na chuva… Só para mostrar o que está acontecendo do lado de cá.

Minha vizinha. Decidi tirar uma foto com ela. Na chuva, ninguém pára para olhar você tirando foto com uma girafa. (a não ser quem tira a foto)

Tentei assistir a uma produção cinematográfica local. Cancelaram e não avisaram… Tomei chuva e nada.

Fui conhecer a livraria Gandhi. Não sei quantas vezes passei em frente e nunca entrei. Bacana. 3 CDs de jazz de gente da terra.

Comprei caramelos da Lion d’Or. Devorei uma caixa (e paguei mico mais tarde…)

Chuva, chuva quente.

Tudo a ver com empanadas quentinhas.

Táxi, direto para a Recoleta.

2 empanadas Sanjuanino. El patrón (que pena) não estava. 1 Quilmes gelada. Eu queria clericó. Eles não fazem E quando vi fazerem a sangria com Crush de laranja… Aaaaarght! O excesso de brasileiros não me incomoda. Um ex-colega de Cuba entra. Fiquei escondida. Cabeça baixa. Não gosto de surpresas. Não quero falar de amenidades. O que você tem feito nos últimos 8 anos?

Um pedaço de tamales. Prefiro empanada de humitas.

De lá, caminhada até o shopping mais próximo. E, claro, não passavam um filme que me interessasse.

Táxi de novo. De volta para a Corrientes.

16H40 – Cine Premier. Um pulgueiro decadente. Uma tela pequena no terceiro andar. Um calor de matar baratas.

“Los Abrazos Rotos” de Almodóvar.

Pimenta com chimichurri

Pimenta com chimichurri

Deu um caldo. Saí inspirada. O gay, filho de pai rico e dominador. O diretor cego.

Eu gosto de Truffaut. Gosto muito de Costa-Gravas. Fellini. De Sica. Tomás Gutiérrez Alea. Woody Allen me surpreende de tempos em tempos – mas, vendo o conjunto da obra, ele é repetitivo demais e perdeu aquela graça boba. Não critica judeus, tem um quê que falta. O fato é que, desde que tropecei no espanhol em Nova York, e ouvi seu discurso de viva-voz, Costa-Gravas ganhou um rival. PEDRO ALMODÓVAR.

Inteligente, louco, desassossegado, radical, violento. Pronto. Outra alma gêmea. Sem papas-na-língua. E sem modéstia. Se eu tivesse a cara de Almodóvar, talvez desse “certo” na vida. E o que ele diz sobre blogs?

EGOTRÍPTICO

Estamos en plena efervescencia de la literatura del Yo (Por supuesto estoy a favor, también estoy a favor de los libros inclasificables y de la demanda del Juez Garzón de hacer listas de todos los “vencidos” en la guerra, y de abrir todas las cunetas y paredones que haya que abrir para que sus familias puedan enterrarles como es debido).

No tengo más alternativa que la de estar a favor de la literatura del yo, no hay nada más “yoista” que la escritura de un blog. También es cierto que al ser esa su naturaleza, nadie te puede tachar de egotríptico.

http://www.pedroalmodovar.es/PAB_ES_09_T.asp

E entrei numa livraria dos sonhos. ZIVALS. Fica na av. Callao 395, esquina com Corrientes. Pirei completamente. Depois de horas e horas de puro deleite, levei a poesia completa de Arthut Rimbaud – edição bilíngue (tá certo, não resisti). Levei também Diários de Andy Warhol, edição de Pat Hackett. E um dicionários de gestual argentino. E outras bobagens. Deixei Verlaine me esperando para uma próxima.
E fui para o tal restaurante de comida molecular (que eles chamam de “techno-emocional”).
Drinque de entrada, comidas malucas (mas bem servidas), vinho… E claro – somados à caixa de Lion d’Or + empanadas… Deixei o tango para hoje… E dormi com a barriga estufada por conta do material abaixo… Aiiiiiii!

O nome dela é Caster Semenya

quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Responda rápido: qual das moçoilas parece homem?

Responda rápido: qual das moçoilas parece homem?

A sul-africana arrebentou nos 800m. Chegou 2s45 à frente da segunda colocada nesta corrida.
E tem só 18 anos.
Diferente, foi acusada de ser… Homem.
Nenhuma adversária foi cumprimentá-la depois da prova. Recebeu um único abraço: o da bandeira sul-africana.

A polêmica já começou nas eliminatórias. A queniana Jepkosgei liderava uma bateria quando foi tocada por Caster Semenya na última curva. A queniana sofreu uma queda e foi eliminada. Conseguiu no tapetão participar da final. Para perder – sem tombo.

Ser diferente.
Não ser mignon. Não ter o nariz da fada sininho. Não ter a pele alva.
Não fazer biquinho para falar.
Não ter os cabelos lisos e sedosos e louros e brilhantes.
Não comer pouco.
Falar palavrão.
E, além de tudo, ser a melhor do mundo.
Aí ferrou.
Ser diferente, negra e boa para caramba?
Só sendo homem.

No meu caso. Não consegui ser a melhor do mundo. Em nada. Risos.

Voltamos a minha última obsessão
(gosto da tradução do Houaiss – ■ substantivo feminino
1 Diacronismo: antigo. suposta apresentação repetida do demônio ao espírito)

Madonna.

Onde Sean, Carlos e Guy erraram? Onde Jesus acertou?

E voltamos às diferenças. Se uma diferença pesa muito, ela separa? Ou o momento atenua?
E, de fato, existem semelhanças?
Eu não tenho a menor vergonha de dizer: tenho pavor de encontrar meu clone.
Imagine alguém como eu. Seria um horror, um inferno.
Mas meu oposto também é um pesadelo.

Em 2002, voltei ao Brasil com uma sensação muito nova no peito.
Queria fugir. Para algum lugar. Para fora do planeta.
É sério.
Depois de uma longa temporada na ilha de Fidel, vendo gente pobre e instruída sofrer de falta de liberdade, os Estados Unidos se preparavam para invadir o Iraque. E invadiram no dia do meu aniversário: 19/03/2003.
As Torres ainda ardiam nos olhos de Bush. E o petróleo corria em suas veias.
Hoje, abro o jornal: 95 mortos no Iraque. Medo de votar no Afeganistão – moradores temem ataques dos Talebans. No Rio, duas inglesas condenadas por dar o golpe da mala roubada (para receber o seguro). Na política, ex-presidente escapa de acusações pesadíssimas. No barato, o cara usou (muito) dinheiro público em benefício próprio. No esporte, campeã da corrida é suspeita de ser homem.

Quando é que os caras começam a vender passagem para Marte? Eles aceitam vale-transporte? O carro como entrada?

Futebol, família e algo mais

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Passou o vendaval.
Minha casa voltou a ser o lar doce lar de duas pessoas.
E eu estou resfriada – nariz entupido, corpo um pouco dolorido. Isso sem contar o bolso completamente furado. E o Fred segurou a onda sem uma reclamação. Taí algo que preciso aprender… A calar a boca.

Esse fim de semana fui ao Museu do Futebol.
E que museu. E que terapia intensiva. Recomendo para os depressivos, para os excessivamente críticos, para os chatos em geral.

Como um esporte mexe com sentimentos tão variados: amor à pátria, rivalidade, emoção. E como a história do Brasil é brilhantemente contada através de nossos melhores jogos de futebol.
Eu não tenho vergonha de ser mulher no país do futebol. Bato minha bolinha quando convocada – e não faço feio. Em Cuba, era “Copa das Nações”. No time em que joguei, a tática de ser a dona da bola trouxe vantagens, tais como não estar ao lado de argentinos (risos). O melhor atacante era da Costa Rica. O mais bonito – e maior -, o que nos dava certa vantagem, era chileno. Também tínhamos um equatoriano bem danado, um panamenho, uns cubanos e nenhum argentino. Esses ficavam no campo adversário e minha melhor tática era chamá-los simplesmente de “argentinos!” a cada jogada errada, a cada passe mal feito. Tá certo que eu era xingada de pelotuda. Mas mulher pelotuda é tipo mulher barbada: não existe.
Vez ou outra uma mexicana me acompanhava nas peladas. Era mais perna-de-pau, mas tinha garra.
Só deixávamos a quadra quando não havia mais luz ou quando faltavam 30 minutos para fecharem o refeitório. E pensar que um período curto em terras caribenhas deixou tanta saudade. E pensar que o futebol era nossa linguagem de nações.

Proibido de entrar no estádio São Januário (do adversário Vasco), Ary Barroso subiu no telhado para não deixar os ouvintes na mão.

Proibido de entrar no estádio São Januário (do adversário Vasco), Ary Barroso subiu no telhado para não deixar os ouvintes na mão.

Voltando ao museu, a excelente narração de um gol pelo mineiro Ary Barroso em 1941 merece destaque. Para quem não sabe, além de brilhante compositor, Ary Barroso também foi locutor esportivo. Apaixonado pelo Flamengo, torcia descaradamente a favor do rubronegro nas transmissões pelo rádio. Quando o Flamengo era atacado, ele dizia coisas do tipo:”Ih, lá vêm os inimigos. Eu não quero nem olhar”, e simplesmente não narrava o gol do adversário. Quando o embate não envolvia o rubronegro, sempre que saía um gol, primeiro ele falava coisas engraçadas tipo: snif, squif, squifffffy, GOOOOOL (e depois tocava uma gaita). Impagável. Um locutor-torcedor é o máximo. Máximo que hoje não se ousa repetir (ou assumir)

A mãe do juiz também dá seu depoimento. Duas mães contam as agruras de ser mãe de juiz de futebol. De verem os filhos sairem de campo sob escolta. Uma, mais engraçada, logo diz: a maior desgraça foi a profissão que ele escolheu. Se o filho da p*. E confessa que também xinga a mãe do juiz em jogo. Sensacional.

Forçada de barra é Pelé dando as boas-vindas em português, espanhol e inglês. Pelé, vamos combinar, não é um cara simpático. Não é um cara bacana para dar as boas vindas para brasileiros. Ver as embaixadas de Ronaldinho Gaúcho em 3D é sensacional. É um circo. E ele faz as macaquices de quem – como muitos outros – é um grande jogador de clubes, não de seleções.

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Puskas em campo

Ver nossas derrotas tratadas com ar solene é interessante. O Maracanaço. A moça elegante que chora na arquibancada. Barbosa que sofre. Ver Zico perdendo pênalti.
Ver os vitoriosos de outras nações. O imortal Ferenc Puskás Biró (Budapeste, 2 de Abril de 1927 — Budapeste, 17 de Novembro de 2006), o “Major Galopante”. Puskás – que era baixote e atarracado – e se tornou, sem dúvida, um dos melhores do século XX.
Franz Beckenbauer o líbero alemão que, com sua visão de jogo incrível, armava contra-ataques fulminantes e tinha na elegância, com porte ereto e cabeça sempre levantada, uma marca registrada.

O Flamengo ganhando do Atlético de 3 a 2 em 1980. Um título que, dizem os meus colegas de torcida, foi roubado.
Garrincha fazendo gato e sapato de todas as equipes adversárias. E sendo generoso em quase todas as jogadas: ele não fazia o gol, armava a jogada e deixava o gol para um companheiro finalizar.

O Brasil é o único país que participou de todas as Copas realizadas até hoje. E o único também a ganhá-la por cinco vezes. Detalhes dessas conquistas (e também das derrotas), bem como o pano de fundo do momento político, social, econômico e cultural, em que cada uma se deu, estão representados nesse espaço em que presidentes, misses, artistas, ditadores da moda, torcedores anônimos e gênios da bola são personagens da mesma história e dividem espaço com as glórias da seleção canarinho. (Texto retirado do site do museu)

Segundo o sociólogo Roberto da Matta, ”foi o futebol que permitiu uma visão mais positiva e generosa de nós mesmos num plano realmente popular, como nenhum livro, filme, peça teatral, lei ou religião jamais realizou”.

Enfim, lavei a alma. O futebol tem esse poder.