Posts com a Tag ‘Debbie Harry’

Quando sou Joan e Debbie ao mesmo tempo

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Autorretrato em branco e preto

Digamos que passei uns 6 anos adormecida numa cápsula de Propofol.
Nego, o soninho era bom demais.
Eu era uma dona de casa meio gordinha, que fazia o café nespresso, a torrada integral e o queijo da Canastra.
Bolo de carne, bobó de camarão, muffins recheados e pão de banana com amêndoas.
Mas Michael exagerou na dose e achei melhor dar um tempo no agente anestésico intravenoso de curta ação.

Quando acordei, eu era eu de novo.
Que loucura!

Com os cabelos pintados, mais curtos.
Com a mesma piração randômica na cabeça.
O mesmo peso dos 23 anos.
A fada da dor me deixou assim.
Mas com 17 anos de experiência nas costas.
Eu era praticamente a mulher maravilha de patins.

O toque do meu celular ainda é “I Love Rock ‘n Roll”
E “I’m a natural ma’am
Doin’ all I can”
Você sabe.

Mas você não sabe que Debbie tem Ana no nome, gato.
Eu e ela temos uma história em comum.
“Once I had a love and it was gas
Soon turned out, it was a pain in the ass
Seemed like the real thing, only to find
Mucho mistrust, love’s gone behind”

Em meio a passeatas e muito cartão de visita, eu continuo tocando minha batera.
E tingindo o cabelo de branco, cada vez mais branco.
Com meu batom vermelho.
E minha cara de pau infernal.
Fingindo que eu não sei o problema que eu vou te causar.

Eu ainda falo: “cuidado comigo”.
Ah, mas vocês são mesmo todos iguais.
E eu acordei.
Fazer o que?

Propofol nunca mais.

Latas de sardinhas raras

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Um dia inteiro sozinha perambulando por Nova York.
Gosto muito.

Ida e volta 49 East com Lexington a 18 West com 7th.
Parada estratégica para um cigarro imaginário.
Parada fina para comprar aquele trench coat inglês – nada de cáqui para quem precisa de protetor solar 50.

Como vestimenta é cultura, vamos lá.
A invenção très-elegante foi popularizada quando passou a ser uniforme alternativo de soldados franceses e ingleses que lutaram na Primeira Guerra Mundial.
A marca Aquascutum diz que já havia inventado o casaco bem antes, em 1850.
Thomas Burberry, o inventor do gabardine, desenhou o casaco para as tropas da Grã Bretanha em 1901. Quem ganhou dinheiro com a brincadeira todo mundo sabe…

(Pausa: Ana Pessoa teve uma versão nacional cor de gelo que usava apenas com botas altas marrons e era chamada de espiã russa por William Waack.
Agora tem uma preta clássica “double breasted” com cobertura de lã removível.
Imagina a máscara.)

Esta semana foi uma coisa DH reprimida pelo contexto.
Com o cabelo neo-curto, meus infalíveis óculos de abelhão tiveram que ser aposentados.
Depois de muito procurar, acabei no clássico rock’n roll RayBan Wayfare (que não combinava nada com meu antigo “eu”).
Coloquei minha calça jeans com bainha dobradinha, amarrei o que me restou de cabelo num rabicó, vesti meu casaco de de couro à la Marlon Brando e meu novo trench coat por cima.
Luvas de couro forradas de legítimo cashmere e e saí por aí com cara de moça levada, punk e um tanto rockabilly.
O próprio negativo da Debbie Harry nos bons tempos.
A-do-ro!

Foto tirada o CBGBs

Depois de sair por aí e ter que parar para contar onde comprei algumas peças de roupa para os locais, baldes de água geladíssima.
Embarquei na pobreza de uma classe econômica, banquetinha 18K, acompanhada de crianças aos berros, baianos idem (por motivos distintos), paulistas que compraram cachorro de madame e trouxeram na aeronave, bichas com jeans apertados e toda a fauna que vai para os Estados Unidos e volta com 4 malas de muamba.

Velha de guerra, trouxe uma mala apenas com algumas novidades.
Lembra do espremedor de limão da Alessi assinado por um então-quase-conhecido Philippe Starck?
Um iPad para saciar meu vício.
Uma câmera nova para usar com minhas lentes velhas.
Sapatos.
E claro, como é de praxe, fui mandada para o raio-X pela delegada da PF.
É regra comigo: quando a polícia veste saia, eu pago onda de bandida.

O mesmo moço simpático de sempre bate uma chapa dos meus pertences, manda um charme e tchau. Sem taxas, sem culpa.

Chegando em casa, cama. Acordei de ressaca e ainda com sono depois do meio dia.
De tarde, salão de beleza.
Até um roqueiro do CBGBs tem direito a um visual mais caprichado – e o meu precisava de lanternagem completa.

Em tempo, a atriz Kirsten Dunst nunca saberia interpretar Debbie Harry…

Tirando tanto lugar comum, hoje cedo saí do avião me sentindo o Freddie Mercury de blusinha cor-de-rosa e ainda passando aspirador de pó.
Fim de carreira para quem tem coração de vidro, Ana Pessoa.