Posts com a Tag ‘dúvida’

Dupla

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Em você nada mais me interessa.
O pelo, a pele, o medo.
A única coisa que ainda me aguça.
O que molha.
É tudo o que você esconde.

Seu lado B.
Seu objetivo frouxo.
Seu texto cafajeste.
Com sua pose de bom moço.

De noite eu fantasio
A hora em que você
Vai conhecer o meu lado A

E aí, meu bem, vai ser tarde demais.

AAAAAbbbbbbbb

Dando adeus aos mais de 30

domingo, 28 de abril de 2013

O blog perdeu a pegada, a graça besta de dizer o que quer.
Agora ele vem e vai quando dá.
Bom, ruim, que nada.
Neste canto público, eu não canto quando e como quero.
É quando dá e mal dado.

As coisas se aproximam perigosamente dos 40.
Eu, que fui feliz aos 30, agora tenho certeza de que as certezas se vão com 2×20.
Agora, sim, é que vou acelerar a lambreta.
Filho, botox, criolipólise – vale tudo para não deixar o tempo passar por cima.
Faca nenhuma me furará.
Sexo, night, bebida – acho que a coisa precisará de tarja preta a partir de agora.
Foram-se as vergonhas.
Os sonhos.
As loucas idéias.
Ficou a carne.
E uma certeza cinza de que nada restará.
Pois agora, sim, é que a coisa vai esculhambar geral.
Tudo preto no branco.
Mais preto – é fato.
Tudo escancarado.
Tudo cada vez mais errado.
Barranco abaixo.
Nos derradeiros minutos, nem padre, nem video da Jane Fonda me salvarão.
Remédio?
Só negão manipulado.
Porque de orgânico e vegetariano, só mesmo o professor de yoga que tomou na testa e casou com a professora de pilates.
Desbundei para a geral.

Agora malho de segunda a sexta

Uvas

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Ela era cheia de idéias – como todos são.
E fez tudo o que se esperava.
Nem muito feia e nem muito bonita.
Nem muito inteligente.
O primeiro trabalho valia um cartão de visitas.
Achou um moço.
Nem muito feio, um pouco bonito.
Conheceu as pessoas certas.
E erradas.
Comprou apartamento.
Começou uma dieta.
Formou família, afundou-se no financiamento, trocou de carro.

Tudo ia muito bem quando, um dia, teve uma dúvida.
Cinto preto ou marrom?
Sem saber o que vestir, caminhou de um lado para outro.
Que dia é hoje?

Era tarde, os meninos tinham prova na escola.

Enquanto fazia tudo o que se esperava dela, as perguntas iam se acumulando num quartinho de despejo na garagem do prédio.
Este trabalho ou outra coisa?
Marido, filhos, família ou tudo novo?
Olhar para o lado ou concentrar no foco?
Como todo mundo, um dia.

Um dia, o quarto de despejo ficou lotado.
Ela liberou o armário embaixo da pia da cozinha.
Dúvidas, perguntas sem resposta iam sendo guardadas, escondidas, empilhadas.

Logo gavetas do escritório, prateleiras da sala, debaixo da cama, atrás das portas…
Não havia mais espaço.

E quando achava uma resposta, não havia onde guardá-la…
Como sempre, com todos.

Um dia, num desses hotéis muito bonitos, feitos para quem não tem tempo para aproveitar o spa, a academia de ginástica, os serviços personalizados.
Ela nunca tomava café no salão, mas.
Uvas vermelhas maduras.
Na decoração das mesas, frutas.

E notou que muitos não comiam.
E, entre os que comiam, alguns jogavam casca e ou sementes fora.
Lembrou das propagandas americanas.
Vitaminas, nutrientes, comece o dia com energia.

E entendeu que sempre faria parte do grupo dos que comem uvas com caroço.
Na pequena caixa de jóias escondida no fundo da gaveta de meias, uma dúvida desapareceu.