Posts com a Tag ‘empregada’

Terceirização da dor

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Hoje eu acho graça na escravidão moderna das empregadas.
E do coro dos preocupados com a luta de classes.
Verdade que pago alguns cobres para você arrumar a bagunça que deixo para trás.
Verdade mais que verdadeira, eu deixo tudo muito arrumado – sempre.
No máximo uma vassoura com pano úmido.
Umas roupas para dobrar.
E você não é mais CLT.
Pago a uma empresa.
Uma empresa que te paga.

Sabe que também me pagam para fazer faxina?
E a bagunça é de uma natureza mais variada.
Envolve egos, gente graúda e com medo das modernidades, gente graúda e que tem pressa e passa por cima.
Gente que chega agora.
Gente que demora a partir.
Gente que opera nas sombras.
Gente que tem medo de operar.
Tem os que metem pés pelas mãos.
Viciados em internet.
Operário padrão.
Secretária. Estagiário.
E você também paga a uma empresa.
Empresa que sou eu.
Com números e CNPJ porque ninguém mais aguenta FGTS, Inss, 40% de multa rescisória.

Ah, querido, o mundo é um moinho.
Talvez seja moedor de carne.

Eu fico aqui só pensando.
Na epifania de domingo.

No fim das contas, a matemática não fecha.
Porque a graça anda nas entrelinhas.
E a vida mesmo só acontece nos intervalos.

Foco Foco Foco Foco Folga Foco Foco Foco Foco

Capítulo 18 – Maioridade

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Acordou virada.
A empregada veio com as mesmas perguntas: cardápio do almoço, dinheiro para tal coisa.
Nem respondeu.
Beijou o filho, vestiu aquela roupa que teimava em não caber – e que, milagrosamente, coube – e saiu.
Sem direção…
Rodou pelos arredores.
Pompéia, Lapa, Vila Romana.
Olhava as caras sem face dos trabalhadores que saem todos os dias a caminho de um escritório com divisórias de PVC, paredes brancas, porteiro de terno azul marinho.
Viu os pontos de ônibus cheios.
Gente carregando sacolas aposentadas de supermercado.
Parou no farol de uma rua movimentada.
O carro chamou atenção de um grupo de bolivianos que tomava chá do lado de fora de um botequim.
Entrou.
Pediu um café e uma branquinha.
Misturou tudo, tomou sem fazer cara feia.
O sinal abriu.
Deixou dois reais sobre o balcão.
Nervosos, motoristas buzinavam.
Nem olhou para as caras sem nariz, sem olhos, sem boca.
Rodou mais um pouco.
Uma loja improvisada em uma casa velha, quintal com pomar.
Pediu pão de mel.
Comeu com calma.
Fechou os olhos.

Animada com a fuga, escolheu um caminho.
Correu no parque até que os pés ficaram cheios de bolhas de sangue.
Voltou para casa sem fome.

Nylon

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Começo o ano sem doméstica.
A fofa passou mês e meio na flauta – eu estava em Recife – e, na volta, depois de uma semana, resolveu partir.

bandida

Levou com ela alguns pertences (meus) – certamente porque terá muitas, muitas saudades de mim.
Um jogo de pratos, um apito, uma corrente de prata, uma máscara de Veneza, um soutien de renda, uma xícara feia de Paris.

Eu, um pouco exaltada, corri para a estante da sala.
Balzac, Rimbaud, Machado, Rosa, Drummond – todos intocados.
E bastante empoeirados sem a minha ferina presença de patroa.

Aliviada, desejei que, em pleno reveillon da Paulista, o soutien arrebentasse, que a corrente se partisse e, no ápice da chuva, ela tivesse que se ajoelhar no chão para procurá-la.
Ali, com os peitos escorrendo e a prata perdida para sempre na enxurrada, ela talvez se desse conta de que deixou ouro para trás.

Mal fechei o conto da ladra, cometi um ato freudiano.
Mandei instalar redes de proteção nas janelas.
E estou aqui, como bicho de zoológico, vendo a vida vazando por quadradinhos de nylon.
Certamente o mundo, agora, anda mais protegido dessa que vos escreve.

Mrs. Bean

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Prazos apertados, calor danado e (…)!
Internet, telefone – tudo fora do ar.

A moça da limpeza colocou a tomada do aspirador na fonte master da casa.
Primeiro pensei comigo: fusível queimado.
Pedi para ela interfonar para o porteiro e descobrir com ele onde poderíamos comprar um novo.

– Adelino, onde a gente compra um fuzil (sic) que o da dona Ana estourou?
E eu gritando: “fu-sí-vel”.
E ela repetindo para o moço:
– FU-ZIIIIIIILVE!
– Sei não senhora não.

Tenho pressa, texto para entregar!
E eis que uma parede inteira está sem eletricidade. Duas salas, dois banheiros… Uma parede inteira está mortinha da silva.

Enquanto a moça corria atrás do fuzil, eu virava eletricista.
Abro a caixa de passagem e começo a testar todas as chaves.
A casa vira uma boate e a porcaria da eletricidade volta.

E ela também volta esbaforida:
– Os fuzil estão em falta no Recife.
Respondo com calma que entendo. O crime anda mesmo organizado.
Ela nem pisca.

Texto enviado, hora de ser dona de casa.
Lista de compras: eu falo, ela escreve.
1) Guarda Napo
2) Amém Duas
3) Olho
4) Marionese
5) Colvei
6) Massan
7) Venixe
(…)

Chego em casa exausta, peço para guardar as compras.
Num vidro, ela mistura os grãos de arroz e feijão.
Eu, que não prestava atenção, só tive tempo de ouvir a explicação:
– É uma pena que não dá para fazer com a mistura numa panela só.
Pergunto se ela é maluca.
Ela diz que é meio assim porque foi puxada de “fórpeces”.

Ah, Brasil, logo mais tomo um processo, eu sei…

Pedrinha

terça-feira, 6 de setembro de 2011

o gato subiu no telhado

Quem sabe, sabe, quem não sabe vá ouvindo.
Em fase de nada podes, faço minhas micro rebeliões.
Dirijo para lugares distantes.
E vejo os jardins das casas ricas e as empregadas que saem apressadas pela calçada.
É tarde, é tarde.
E ninguém nota flores ou árvores frondosas.
Volto pelo sol.
Reunião, discussão – o de sempre com novos interlocutores.
Casa.
Passeio com cachorro.
O pinguim anda melhor, mais ereto, mais fagueiro.
Cachorro com bolinha, casa toda arrumadinha.
Animada, enfrentei a medicina, a família, os conselheiros.
Hoje abri uma latinha.
Interinha a latinha.
De trigo – minha -preferida.
Bebi devagar.
E minha barriga ficou quietinha, degustando.

É tarde, é tarde.
Atire a primeira pedra.

Eita de novo

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Segundona começando quente.
Técnico da Net às 8h em ponto.
Corrida para a hidro geriátrica – meu chinelo arrebentou e fui arrastando a sandália para a piscina.
Piscina gelada e a semana gritando…
Conversa com a empregada. Demissão.
Essa vida de gente grande que não releva, não tem um tão grande coração.
Corrida para a Berrini, templo dos grandes negócios.
Almocei com um novo amigo querido que chegou atrasado na história.
Fuga para ver tudo o que não posso comprar.
Trabalho – não rendeu nada.
A cabeça fervilhando. Trabalhar para pagar tudo o que não posso comprar.
Briguei com o WalMart de novo.
Comprei panelas chinesas, panelas avacalhadas.
Vieram com boca oval e tampa rendonda. Devolvi.
45 dias depois, mais panelas.
Vieram com as bocas cortadas – como se fossem um adereço da Lady Gaga. Pedi socorro, não quero mais WalMart – nunca mais nem de novo.
Marquei reunião.
Cancelei reunião.
A semana nem começou e já quero um domingo de novo.
Comprei um software de demissão.

(Funciona tanto e tão bem que penso em fazer automedicação)