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Terceirização da dor

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Hoje eu acho graça na escravidão moderna das empregadas.
E do coro dos preocupados com a luta de classes.
Verdade que pago alguns cobres para você arrumar a bagunça que deixo para trás.
Verdade mais que verdadeira, eu deixo tudo muito arrumado – sempre.
No máximo uma vassoura com pano úmido.
Umas roupas para dobrar.
E você não é mais CLT.
Pago a uma empresa.
Uma empresa que te paga.

Sabe que também me pagam para fazer faxina?
E a bagunça é de uma natureza mais variada.
Envolve egos, gente graúda e com medo das modernidades, gente graúda e que tem pressa e passa por cima.
Gente que chega agora.
Gente que demora a partir.
Gente que opera nas sombras.
Gente que tem medo de operar.
Tem os que metem pés pelas mãos.
Viciados em internet.
Operário padrão.
Secretária. Estagiário.
E você também paga a uma empresa.
Empresa que sou eu.
Com números e CNPJ porque ninguém mais aguenta FGTS, Inss, 40% de multa rescisória.

Ah, querido, o mundo é um moinho.
Talvez seja moedor de carne.

Eu fico aqui só pensando.
Na epifania de domingo.

No fim das contas, a matemática não fecha.
Porque a graça anda nas entrelinhas.
E a vida mesmo só acontece nos intervalos.

Foco Foco Foco Foco Folga Foco Foco Foco Foco

Desabafo

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Minha vida é frugal.
Como comidas fáceis.
Muitas frutas, alguns legumes, opto por orgânicos.
Sempre consultei nutricionistas.
Fui vegetariana por 18 anos.
Agora carrego uma “mochila” de 7kg e tal na barriga.
Meu recente pecado foi ter me viciado em doce de banana (aquelas barrinhas açucaradas).
Mas as compro eu mesma no mercadinho natural.
Elas dividem a gaveta das guloseimas com 3 nhá-Bentas (tive uma recaída no domingo).
E alguns horríveis biscoitos naturais – para casos extremos de fome.

A casa é pequena. 100 m2.
Conto com gadgets incríveis.
Um aspirador robô. Outro turbo que não precisa de saco de papel.
Uma tremenda máquina de lavar que também seca as roupas.
Os melhores e mais modernos produtos de limpeza.
3 ferros de passar e um vaporizador igual aos de lavanderia.
Forno e fogão elétricos.
Tudo para quem quer levar uma vida limpa e fácil.

De manhã, é iogurte com frutas.
No almoço, quando em casa, PF brasileiro.
No jantar uma sopa.
Entre as refeições principais, um combinado de frutas e castanhas.
Vez ou outra, um sanduíche de pão árabe com um conserva de beringelas que eu mesma fiz.

Em dois extremos da economia mundial, Cuba e França, fazia eu mesmo a minha arrumação.
E a casa estava sempre cheirosa e cheia de flores.

Eis que, desde janeiro, minha casa é feita de esquecimentos.
Esqueci a castanha.
O caqui.
Esqueci de deixar comida para o cachorro.
Esqueci de fazer a lista de compras.
Esqueci de avisar que a ração acabou.
Esqueci também que falta sabão em pó.
E não esqueci de passar no posto de saúde para pegar uma dispensa médica de 5 dias.
Não me esqueci de sair mais cedo (as 14h30) para fazer algo particular.

O desabafo é politicamente incorreto, eu sei.
Mas falta uma semana para o esquecimento deixar a casa.
Na verdade 7 dias úteis.
E me vejo contando as horas.
Sinto que existe um alien em meu ninho.
Não me sinto bem aqui.
Coloco música para evitar o barulho.

Dois mundos.
Duas verdades.
Eu só vejo as daqui.
Ela, as de lá.