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Capítulo 7

terça-feira, 17 de abril de 2012

Terça-feira.

Minha pequena

Quase não cabia em seu velho vestido.
Mais uma vez, o casaco de couro resolveria as coisas.

Não avisou.
Pegou as chaves e saiu.

Ainda era cedo.
Rodou pelas ruas, olhou portas de bar.
Estacionou.

Foi direto para o balcão.
Ficou ali, observando pessoas, ouvindo conversas.
Não era daquelas que, de tempos em tempos, olhava para o celular, fingia que mandava mensagens.
Bebida devagar para passar o tempo.

Quase ninguém percebia sua figura pálida, distante.
Pequena e frágil – quem diria.
Tinha olhos tão negros que não era possível ver as pupilas.
Um ou outro, com sorte, desviava o olhar.

Ali, todos falavam alto.

Ela gostava assim.
Mais fácil.

Enquanto buscava, bebia.
Pediu mais um. E mais um.

De repente, um frio na espinha.
Finalmente.
Dentes muito brancos.
Roupas discretas.
Bebia cerveja.

– Esse não sabe que não volta mais para casa.

Capítulo 6

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A foto que logo circulou no Facebook

Começou quando ele deixou o cabelo crescer.
Sabia que, no escritório, faziam piadas a respeito.
Mas, por ser o chefe, eram veladas, covardes como têm que ser.

No dia em que apareceu nu, o silêncio foi total.
Mesmo não querendo provocar.
Vácuo.
Todos parados.
A luz branca parecia efeito de cena.Com um crachá na mão e nada mais.

Passou pela catraca principal.
Esperou pelo elevador.
Subiu.
A voz eletrônica feminina do elevador avisando que você estavano 36 andar.
Telefones tocavam.

Recepção.
Deu bom dia – como sempre fazia.
Dirigiu-se a  sala de reunião.
Enorme, com janelas do chão ao teto.
A secretária, uma senhora magra, com sorriso largo, nada falou.
Um instante sem emails, sem barulho, sem agitação.

Em alguns minutos, a segurança apareceu.
Discussão na porta.
A equipe da CIPA.
Emergência?
Médicos então?

Pela escada de emergência.

Na delegacia, mistério.
O homem não falava e, no boletim de ocorrência, foi registrado como caucasiano, olhos negros, estatura média, sem documentos, recusou-se a responder as perguntas.
Atentado violento ao pudor.
Deram-lhe um cobertor.
E avisaram:
“- É para se cobrir ou vai ficar roxo”.

Deitou-se sobre o pano e dormiu.

Capítulo 5

sexta-feira, 13 de abril de 2012

They are... now!

Olhou para a velha banheira: há anos fora transformada em piso de chuveiro.
Não havia tampa para o ralo.
Improvisou.
Encheu com água gelada.
Colocou os pés para ir se acostumando.
Depois as pernas, mãos, pulso.
Molhou a nuca.
Prendeu os cabelos.
Tomou coragem.
Entrou.
Passou alguns minutos em silêncio, vendo a pele arrepiada, sentindo a temperatura.
Apertou os lábios.
Tirou o plástico da bucha natural que comprara ontem, depois que tudo desmoronara, e, sem sabão, massageou joelhos, ventre, ombros.

(frio)

Saiu da banheira.
Secou-se rapidamente.
Nem passou pelo closet.
Sem aliança, sem sapatos, sem nada.
Chave do carro.
Desceu o elevador.
7,6,5,4,3…
Abriu a porta do carro, deu partida.
Esperou que o porteiro aparecesse para abrir o portão.

Os pés descalços sentiam os pedais e acelerou.
Multas, rodízio.

Tinha uma reunião em 20 minutos.
Sem roupa, uma dúvida: onde prenderia o crachá?

(São Paulo)

Capítulo 4

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Obstruct

Chegando de mais uma viagem. Fugindo de um vulcão, correndo em sentido anti-horário para mais uma reunião de trabalho em dia de feriado nacional.
Gerúndios em looping, sem tempo para descansar.
Custa caro manter um cartão de visitas lustroso.

Exausta depois de 28 horas no ar, preparou a apresentação madrugada adentro.
O CEO da turma infantil batia ponto de Geração Y.
O diretor falido e colecionador de fracassos na vida pessoal.
Despidos, acovardados. No bolso dos paletós, estoques de máscaras para as mais diferentes ocasiões.

Olhou em volta.
Um gaúcho calvo, medíocre e cujo segredo para tanto fel era ter sido rejeitado pelo Itamaraty.
Dois cariocas bobos-alegres e sem nenhum brilho.
A marca era realmente boa no quesito manipulação de curto prazo.
Palmas.

Olhando em dois celulares, emails que chegavam com pedidos, exigências, discussões, acusações, trabalhos-extras, perguntas, questionários, relatórios, pedidos de assinatura, reembolsos que não foram depositados.
As reuniões iam se acumulando.
Números.
Imagens com edição rápida e música pesada.
Como dominar o mercado.
Como cooptar os jovens.
Felizes, um a um, funcionários mostravam suas habilidades.

Teve saudade da caixa de papelão.
Aquele sequestro mudara tudo.
As conversas sem rodeio com seus captores.
Um entendimento do que é ser marginal.
Eles, pobres diabos, querendo um salário-bandido.
Ela, pensando, que sua sina era pior que a deles.

Levantou-se.
Sua vez.
Botou tudo a perder.

Enquanto olhavam incrédulos para ela, mais um email apitou em seu blackberry.
E-ticket para Paris confirmado.

Capítulo 3

quarta-feira, 11 de abril de 2012

“The foot feels the foot when it feels the ground.”

 

Ela repetia a frase que encontrou quando buscava qualquer coisa no Google.
Atribuíam ao Buda, mas era do inglês adepto da yoga e do zen, Ernest Wood.

A cabeça andava perdida como balão de gás em mão de criança.
As moedas deixadas com displicência num copo de requeijão na janela da área de serviço começaram a minguar.
Moedas para comprar pão.

Todos os dias a mesma história.
Acordar bem cedo.
Descobrir entediada o que acontecera no mundo entre meia noite e cinco da manhã.
Café – que odiava – sem açúcar – para ficar intragável.
Esperar ansiosa pelo pão que mandava buscar.
Casca branca e quente.

Depois, realidade.
Encher as horas com tarefas inúteis.
Rodar de carro.
Correr no parque para suar e tentar tirar o chumbo que pressionava a cabeça.
Inútil.

Às oito, de banho tomado, começar a velha história.
Fingir que lutava.

Contatos.
Revisar o passado.
Mexer e mudar coisa ou outra naquele texto virtual que promete trazer dinheiro, apagar toda e qualquer ociosidade desde que o destinatário pague em dia.
Efeitos colaterais: estresse, angústia, desespero por férias.

Vez ou outra um almoço “de negócios”.
Trabalho.
Fazer parte deste mundo.

O pé sente o pé quando sente o chão.
Olhou para baixo e não viu nada.

Capítulo 2

terça-feira, 10 de abril de 2012

Presa dentro de uma caixa de papelão, ela ouvia a chuva.
Os pés descalços e sujos.

Um raio surdo.
A eletricidade foi cortada.

Barulhos de carros, gente que passa com pressa.
Vez ou outra alguém esbarrava na caixa.
Um chute.

Sentiu falta do celular.
Sua muleta de mão.

Por que não havia música?
Um pano de fundo para o sem nexo.

Fez contas. Quantas horas faltariam para sair da caixa.
Olhou para os pés.

Capítulo 1

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Rápida

Acordou e não reconheceu a casa.
As roupas, a luz, as enormes janelas.
Procurou a bolsa.
Nada.
Abriu a porta.
O sol forte não aquecia a tarde.
Vitrines com cartazes coloridos anunciavam promoções.
Olhou para os pés.
Sapatos enormes.
Sentiu falta do telefone.
As mãos, ásperas buscaram nos bolsos.
Havia apenas um maço de cigarros mentolados.
Sentiu o hálito amargo.
Não reconheceu as ruas.
A cabeça repassando mil histórias sem começo ou fim.
Passos muito rápidos como se soubesse onde parar em meio a um romance kafkaniano tropical.
Procurava algo que lhe desse um chão, que fizesse a memória despertar.
Nada.
O que buscava mesmo?
Começou a correr.

Ruas, carros.
Nada.