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Sem lenço, sem norte e meio sem sorte

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Noite, de Vincent Van Gogh

Noite, de Vincent Van Gogh

Dias de chuva.
Eu gosto de chuva. Mas chuva dentro de casa atrapalha… 

Haiti – eu achei que esse assunto estava encerrado no blog, mas ao ler por aí “vivemos num país sem catástrofes naturais”, “viva o Brasil que é solidário”…
O Haiti é um país destruído. É, foi e, num futuro próximo, será.
Listo algumas palavras que deixam gosto amargo: Baby Doc, Papa Doc. Embargo econômico –o tal veneno aprovado pela ONU que mata a doença e o paciente. 45,2% da população é analfabeta, mais de 50% da população tem menos de 18 anos.  

Por conta da minha vida cubana, tenho vários amigos da República Dominicana. E como eles dividem a Isla Hispaniola com o Haiti, sempre tive notícias tristes sobre o lado de lá. E olha que a turma mora na capital, Santo Domingo, e o país de origem também é pobre de marré de si.
Nos idos de 1996, Caetano e Gil fizeram música para misturar a situação brasileira à do Haiti. Foi a primeira vez que atentei para esse país. Ignorante das Américas, meu ouvido absoluto só filtrava Londres, Paris, Índia, Japão…
É… Um terremoto mata muita gente. E a falta de tudo mata mais ainda.

Se um terremoto balança o Rio, como fica a Rocinha, o Vidigal, o Dona Marta, a Mineira?
Olha que no Rio tem terremoto dia sim, dia sim.

Eu sou jornalista de formação e escolha.
Quando saí dos cueiros, queria estar em Kosovo.
Atirada feito foca, em 1998 conheci Tahir Cambis. Um documentarista bósnio que foi cedo ser refugiado na Austrália. O pai abandonou a família. A mãe se matou. A irmã virou prostituta e Tahir fez teatro. Ele foi para Sarajevo em plena guerra. Foi resgatar a própria história. Perdeu parte da perna, filmou uma menina num concurso de dança, a menina morreu no dia seguinte. Ele ganhou uma namorada, levou o Emmy. Veja o filme: Exile in Sarajevo.
Um dia sem celular, com email e sem computador, Tahir me liga do Japão e pergunta se quero ir para Sarajevo com ele. Moça fina, ligo de volta. Lembro até hoje: a conversa custou o mesmo que um mês de hotel: 1200 dinheiros.
Eu tinha acabado de me mudar para o Rio. Flat pago. Bartolomeu Mitre. Deixa a guerra para lá.
 
Antes disso, a seca verde. Capa de revista mais vendida. Minha personagem saiu na capa. Um menino esquálido com um prato nas mãos. Luz quente de lampião improvisado. Uma casa de taipa. A frase manipulada: “- Ainda bem que não tenho que comer calango”. http://veja.abril.com.br/060598/p_026.html

No sertão do Ceará, de Pernambuco, da Bahia a seca é verde. Eu já morava lá, mas não sabia.
A fotógrafa que me acompanhou saiu de Brasília. Mas é nordestina.
No caminho para ver a desgraça dos outros, paramos numa venda. Ela comprou macarrão, feijão, arroz, lata de leite. Encheu o porta-malas do carro alugado.
Mas não vamos acampar…

Quanto mais do mundo eu saía, mais velhos, mulheres e crianças.
Feijão. Feijão. Feijão. Para juntar um copo de grãos é preciso fé.
E minhas novas viagens ganharam porta-malas cheios de mantimentos.

Quando vejo as imagens do Haiti, julgo.
Tiraram a menina dos escombros. Rodaram o mundo num frame. Viva o jornalismo.
E a menina morreu nos braços da mãe horas depois por falta de atendimento médico.
Sem câmera, sem televisão. Sem luz e sem Deus.

Aqui dentro, um mistura grande de coisas.
Coisas mágicas que fazem chover. Nada a ver com Haiti.
Egoísta que sou, ando impaciente.
Briguenta. Reclamenta.
Definitiva.
Ando cambaleando – por fora: ferro e fogo.

Como não sou poeta, peço a ajuda dos anjos caídos.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.

 
Ai que saudade que eu tenho dos tempos em que eu tinha certeza de tudo mas não contava para ninguém.