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La bicyclette

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

On était tous amoureux d’elle… On se sentait pousser des ailes

Estávamos todos apaixonados por ela… Sentíamos crescer asas


Tropicola

Hoje sonhei em francês.
Um sonho cheio de erros de gramática.

E me deu vontade de andar de bicicleta pela cidade.
Ouvindo Yves Montand e sua paixão infantil pela magrela.
Ou haveria algo por trás dessa história?

Sair sob o sol pelas ruas – que, providencialmente, não teriam carros, ônibus, motos.
Seria uma quarta-feira de feriado, um domingo equivocado.
Todos os carros estariam em recall – falhas de freio, de marcha, parafusetas trocadas, rebimbocas gastas…
Os ônibus, em greve.
As motos, em fila indiana para bater o recorde mundial do Guinness Book.
Uma serpente fina saindo de Interlagos, esgueirando-se pela Marginal Pinheiros até a Ayrton Senna, a Dutra, perdendo-se na Fernão Dias.
Cobra coral feita com motos negras, cinzas, vermelhas, motonetas brancas, mobiletes enferrujadas, Hondas Biz (com tudo elas combinam), lambretas e seus clones mais estapafúrdios.

Pela cidade, pedestres, bicicletas, carroças, triciclos, patinetes.
E o sol de primavera.

Vida louca, vida imensa, Cazuza.
Minha bicicleta não tem cestinho ou cadeirinha de criança.
Vou colocando minhas sacolas no guidon.

Quantas vezes caímos ao patinar na areia que cerca o mata-burro da estrada?
E quantas passamos correndo e deixamos tudo para trás?

Depois das amoreiras, do limoeiro-capeta, das carambolas, atrás dos manacás…
Ali naquela terrinha onde passa um veio d’água.
Com pedrinhas de Lafaiete (em português de mineiro).
Minérios e machadinhas de índios mortos.

Foi bem ali que seu bisavô fez um pequeno buraco.
E colocou seu umbigo.
Para você ter uma raizinha mineira.

E a bicicleta?
Ah…
Uma ficou em Cuba.
Outra foi para Recife.

 

Quand on partait de bon matin

Quand on partait sur les chemins
A bicyclette
Nous étions quelques bons copains
Y avait Fernand y avait Firmin
Y avait Francis et Sébastien
Et puis Paulette

On était tous amoureux d’elle
On se sentait pousser des ailes
A bicyclette
Sur les petits chemins de terre
On a souvent vécu l’enfer
Pour ne pas mettre pied à terre
Devant Paulette

Faut dire qu’elle y mettait du cœur
C’était la fille du facteur
A bicyclette
Et depuis qu’elle avait huit ans
Elle avait fait en le suivant
Tous les chemins environnants
A bicyclette

Quand on approchait la rivière
On déposait dans les fougères
Nos bicyclettes
Puis on se roulait dans les champs
Faisant naître un bouquet changeant
De sauterelles, de papillons
Et de rainettes

Quand le soleil à l’horizon
Profilait sur tous les buissons
Nos silhouettes
On revenait fourbus contents
Le cœur un peu vague pourtant
De n’être pas seul un instant
Avec Paulette

Prendre furtivement sa main
Oublier un peu les copains
La bicyclette
On se disait c’est pour demain
J’oserai, j’oserai demain
Quand on ira sur les chemins
A bicyclette

Paisagem de sete faces

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Estrada No fim de ano fiquei maníaca com as paisagens de asfalto. Avião é muito prático, mas, da janela, quase tudo é sol e nuvem. Daqui de baixo, a paisagem tem algo de louco e de solitário. É muito mais forte.

Pelas estradas do sudeste-centro-oeste, o que mais me impressionou foi o contraste do verde escuro com o céu. Cada dia era uma explosão de nuvens e de luz.

Para dar um tom de aventura, e para não perder um minuto, fiz todas as fotos de estrada com o carro em movimento. Acho que, depois do malabarismo, até consigo prender mosquito com hashi.

Estou loucamente apaixonada com a biografia de Movsha Khatskelev ou Marc Chagall. Russo, judeu, pintor, habitante dos séculos XVIII e XIX. Isto sim é aventura. Como acabo de sair da “auto”biografia de Andy Warhol, acho que o impacto ganha mais cor. Imagine nem falar francês, comer pepino e arenque dia e noite porque Paris estava com os preços pela hora da morte, e circular com Modigliani, Léger, Apollinaire e Blaise Cendrars – que deu título a várias obras do artista. Circular pelo mundo antes e durante as grandes guerras. E enfrentá-las de pé. E viver. Simplesmente.
No dia em que Elvis completaria 75, eu trocaria seu ukelele preferido por uma máquina do tempo – e seria russa no século passado.

Depois de uma semana imersa em terra e poeira de minério das Geraes, ficou tudo claro: os mineiros são um pouco russos. Nenhum povo é mais naïf e enraizado nessa terra do que os filhos de Minas Gerais. E como vivem presos e atormentados pelas montanhas. Moram em paraísos, mas não saem de casa. Numa noite sem lobos e com vinho e chocolate no Caraça, fiquei vendo as sombras e roubando os causos dos outros. Galinha, lobo, dívidas, pão caseiro – nada disso é novidade. Cachoeira, dinheiro, conforto eletrônico – isso é para outras gentes.
Dormir tarde para contar histórias, falar dos outros. Acordar cedo – porque “tem” que ser assim.
Conhecer a pessoa pelo sobrenome, pelo nariz, pelas mãos. Algo tão primitivo e reconfortante.
E atravessar muitos nãos – é proibido descer a trilha de bicicleta, é proibido trazer animais, é proibido servir bebida a quem não está hospedado, não pode, NÃO, nada. Aí penso na herança portuguesa. Culturalmente, as presenças romana, germânica e moura foram muito significativas para os povos do “país dos poetas”. Ora, poetas se não são loucos, são melancólicos. Misturados aos disciplinados alemães e aos polivalentes romanos… Se são alegres são outro povo. E daí que “nãos”, batatas e ovos nos alimentam.

Solto na cidade de 10 milhões, você se permite mil delitos.
Mas faz questão de não dizer e de não saber nomes.
Preso entre as montanhas, vira outro.
Preocupado, ocupado, informado, comendo muito em pouco tempo.
É tarde, é tarde, é sempre tarde.

DSC_0066E foi justamente por conta dessa reflexão compulsória que escolhi um trecho do poeta itabirano para fechar nossa sexta-feira e o meu post.

“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
É feia. Mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

Carlos Drummond de Andrade