Posts com a Tag ‘Ferreira Gullar’

Impurezas

domingo, 17 de abril de 2011

Texto muito bom o do Ferreira Gullar hoje, na Folha.
Como sempre, o que é bom, é pago: só para assinantes.
Se você é, leia: Tragédia em Realengo.

Por aqui, minha vidinha suja de sempre.
Ontem comprei o ingresso e não fui ao teatro.
Antes, encontro com amigos mineiros que há muito não via.
Tanto não via que um casal não se lembrava mais da minha pessoa – que engraçado e constrangedor.
É que eu mudei e vou continuar mudando, eles, talvez, não.

Neste encontro, fiz das minhas, levei uma amiga de outras praias.
Sempre faço isso – misturo tudo.
Pobres moças impuras que empilham os pecados na prateleira da banheira.

Um velho conhecido dos tempos de outplacement aparece afoito.
Email, telefone, mensagem até no Linkedin.
O que ele quer não vou dar porque não quero.
Mas meu instinto de sobrevivência profissional e uma mineirice irritante – que acolhe a todos – fazem com que eu não ignore o chamado.

Por falar em mineirice, recebo notícias daquele moço rico e perdido que foi preso por supostamente matar a namorada grávida.
Novela das sete?
O moço foi casado com uma ex-amiga, bêbada, feia, complexada e que eu abandonei porque não gosto de gente que usa drogas.
Fiquei pensando – cheia de maldade – seria o moço rico perdido pior do que a moça rica complexada?
Sei lá – esse não é meu universo.

Meu universo é dos problemas do cotidiano, não dos épicos com um ego descomunal – drogas, dinheiro, carreira.
Meu universo é do motoqueiro que bateu no meu carro, do gatinho resgatado de uma vala na favela de Paraisópolis que, depois de dois meses de tratamentos contra um protozoário violento, veio parar em casa com 36 pulgas.
Eu fiz tudo errado: coloquei o veneno na nuca, tranquei num quarto cheio de conforto, fui ver os amigos no restaurante argentino e, ao voltar, cancelei o teatro e dei banho no gato. Era para ser ao contrário: dar banho no gato, trancar os amigos num quarto e aplicar veneno de pulga em todo mundo no teatro.
Precisei de pinça para arrancar as pulgas que se agarravam ao felino como muita gente ao passado.
Ele gritava, esperneava e eu esfregava e pinicava.
No golpe final, o secador.
Ele se acomodou, vencido, entre minhas pernas.
E eu ia aquecendo o pequeno e encontrando novas pulgas perdidas.
Hoje de manhã, duas mortas e envenenadas jaziam na almofada onde ele dormiu.
Aparentemente a colônia foi exterminada.

A vida curta das pulgas de favela.
O momento errado de adotar um gato paulista.
A mesquinhez humana ao saber da tragédia dos outros.

Um sábado quente e tão intenso.

Hoje é domingo. Dia de ler todos os jornais, rolar na cama gigante com um gato velho.
Comer Waffle belga às 10h.
Sonhar com Ferreira Gullar e seu saudoso Gatinho.

 

Ciao, Bib’s

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Na virada do ano novo, altinha com algumas taças, devorei 2 sonhos-de-valsa para tentar curar uma possível ressaca e fui dormir.
À noite, sonhos horríveis.
Bichos machucados, meus bichos, bichos de conhecidos.
Acordei feliz com 2011.
O pesadelo, claro, foi típico de quem bebeu um pouco demais e comeu muito.
De toda maneira, pensei em guardar a história para um conhecido psiquiatra que vive perguntando sobre sonhos e adora falar sobre possíveis significados…

Esta noite, cansada, já na casa da minha mãe, sonhei com um gatinho.
Pequeno e branquinho, com um olho de cada cor.
Igual ao meu gato velho de quase 18 anos.

Quando o peludinho apareceu, eu estava na faculdade.
Com um olho castanho e outro azul, foi batizado de “Viagem Espacial”.
E virou nosso xodó.
Foi criado a presunto Sadia (coisa da minha mãe, porque eu, dura, só comprava Whiskas).

Virei jornalista, mudei de cidade, fui comer o pão que o diabo amassou em Sampa e deixei Bibi para trás.
Ele, que sempre dormiu em meus pés, ficou lelé da cuca.
Mamãe se preocupou.
Pensou em doá-lo.

O nome cabalístico fez das suas.
Busquei o mineiro em casa e ele ganhou o mundo.
Gozando de plenas faculdades mentais, morou em Belo Horizonte, Fortaleza, Rio, São Paulo.
Viajou de avião para cima e para baixo.
De carro, também.

Era magrelo, inteligente, desconfio que tinha algo de inglês.
Sempre elegante, era o último a comer.
E gostava muito de música.
Escolheu “Summertime” para chamar de sua.
Quando sumia, era só assoviar a canção que ele aparecia miando.

Ultimamente, andava cheio de manias.
Tinha que beber água da torneira da pia na hora desejada, cismava de mostrar suas habilidades em meu tapete de yoga e adorava dormir encostado no meu peito.

Desta vez não vai ser preciso decifrar o sonho.

Bibizinho, que falta que você me faz.
Aí no céu dos gatinhos, fiquei sabendo, abrem uma lata de atum por hora.
E as nuvens são puro novelo de lã.
E, se você encontrar com George Gershwin ou DuBose Heyward, mie alto por mim: Summertime.

Summertime,
And the livin’ is easy
Fish are jumpin’
And the cotton is high

Your daddy’s rich
And your mamma’s good lookin’
So hush little baby
Don’t you cry

One of these mornings
You’re going to rise up singing
Then you’ll spread your wings
And you’ll take to the sky

But till that morning
There’s a’nothing can harm you
With daddy and mamma standing by

Summertime,
And the livin’ is easy
Fish are jumpin’
And the cotton is high

Your daddy’s rich
And your mamma’s good lookin’
So hush little baby
Don’t you cry

Natal e pit-stop

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
flores

Flores de Navidad

Um dos novos leitores do blog me sugeriu por email repensar os conceitos do Natal.
E como esse blog é fora da lei, e mesmo o leitor tendo mandado o comentário privado para “não parecer proselitismo”, a mão coça para publicar e o circo tem mais é que pegar fogo. E aqui não tenho seguidores. Com esse blog, o saldo foi: uma ex-amiga portuguesa, a mãe dela (existe ex-escancaradamente admirada mãe da ex-amiga?), uma ex-sociedade que ia até ter sede em Nova York, e uma família com muito assunto para fofoca virulenta no domingo, depois do almoço.

Segue o email do comentarista secreto:

Percebi que o Natal – não importa se você é católico ou não – representa um ideal. E um bom ideal, acho eu: a salvação do homem – dê cada um a conotação que lhe parecer mais adequada a essa expressão. Que ele ainda exista, não é prova da hipocrisia humana; bem ao contrário: é prova de que a esperança não está perdida. O ideal continua ali, vivo, sob quilos de presentes e panetones, é verdade, mas vivo. Gosto de quando Chesterton usa como metáfora a figura do desenhista que emprega um modelo para fazer seus rascunhos, em busca da perfeição. A rigor, não importa se dois, dez ou cem desenhos tenham ficado ruins; mas importa que a referência tenha permanecido a mesma; do contrário, para quê aquele esforço todo? Bem, se há gente fingindo se esforçar ou que nem mesmo finge mais, isso diz menos da beleza do modelo do que da incapacidade do desenhista.”

As tais bolinhas que comprei no queimão (sem ter árvore) viraram todo um tema.
Surgiram jaboticabas elétricas na janela.
Flores – as minhas flores que são poesias em cores. Essas eu ganhei da Plantation, de Doca Mellão e Keiko Kamimura. E falam por si.

E o meu toque pessoal “PEDRA NA GENI” ficou por conta da guirlanda debochada. Os bichinhos de pelúcia em homenagem a George Orwell  e que parodiam a copa na África do Sul, custaram o olho da cara, mas têm fundamento: são produção da Ong ORIENTAVIDA.

A causa do Big Bang

A causa do Big Bang

Pois toda essa loucura natalina me tirou daquele clima chato de “ano que morreu”. 2009 continua supimpa.

Ora, comecei violenta para mudar tudo e chutar cada balde que encontrasse pela frente. Selecionei os baldes mais sonoros, continuei onde estava, e estou feliz feito zebra na savana.

E o leitor secreto tem razão: pode ser uma espécie de salvação. Mas o meu clima interno tem sido de reflexão. Dizer não é muito mais difícil quando você tem certeza de que esse “não” vai significar ter que deixar muita coisa para trás. Deixar gentes, deixar histórias que ainda não aconteceram. E escolher que erros cometer.

Amanhã vou curtir um dia de solidão. Alice, a cachorra vira-lata, vai dar um rolé pelo Rio de Janeiro.  Ela é realmente muito popular.
E eu vou fazer o que mais gosto: ficar na cama, lendo, ouvindo a vida passar lá fora.

Hoje tive reunião, trabalho, “visita” a uma nova possível proposta de trabalho (meu canto de sereia anda irritantemente corporativo), almoço com moço inteligente e a surpresa de flores, bombons e vinhos no trabalho-hobby. De onde menos se espera… Menos se espera. Risos.

Sei que esse tal de Natal tem algo de muito louco: dar descaradamente esperando receber.
O vinho, as flores, os chocolates (e falei que veio cocada também?), todo mundo dá porque espera algo. O dar descompromissado é outro departamento e você tem que chegar no nivel 70 de Farmville, além de ter uma gangue MafiaWars com 500 integrantes e ser o campeão do bolão da Copa. Não é impossível!

Mas seja lá o que esperam receber, eu não prometi nada. E é muito bom ganhar. E também me dou.

Esse blog é isso. Seja lá o que dê, é para quem quiser receber. É para você que perde o seu tempo aqui com uma balzaca que nasceu com um defeito para lá de maravilhoso. Inconsistência comportamental e intemperança verbal. Doa a quem doer. (não resisti)

Guirlanda do bem

Guirlanda do bem

Quando eu era bem pequena, descobri Cecília Meireles. Eu achava que era poesia para criança. Mas não é não.

…Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

(…)
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

(…)
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles

Já um outro poeta que achei que fosse para gente grande, começou com poemas sujos, tem um nome fantasia forte, mas, depois do gatinho, logo percebi: é um poeta-criança.

Ferreira Gullar.

A vida bate

Não se trata do poema e sim do homem
e sua vida
– a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida,
o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Alguns viajam, vão
a Nova York, a Santiago
do Chile. Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.

Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.

Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns
te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome
de vida!

O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.
Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas . És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias? Onde
escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?
E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate. Subterraneamente,
a vida bate.

Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar
que me sustenta
esta tarde
debruçado à janela de meu quarto em Ipanema
na América Latina.

(FG)