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Terceirização da dor

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Hoje eu acho graça na escravidão moderna das empregadas.
E do coro dos preocupados com a luta de classes.
Verdade que pago alguns cobres para você arrumar a bagunça que deixo para trás.
Verdade mais que verdadeira, eu deixo tudo muito arrumado – sempre.
No máximo uma vassoura com pano úmido.
Umas roupas para dobrar.
E você não é mais CLT.
Pago a uma empresa.
Uma empresa que te paga.

Sabe que também me pagam para fazer faxina?
E a bagunça é de uma natureza mais variada.
Envolve egos, gente graúda e com medo das modernidades, gente graúda e que tem pressa e passa por cima.
Gente que chega agora.
Gente que demora a partir.
Gente que opera nas sombras.
Gente que tem medo de operar.
Tem os que metem pés pelas mãos.
Viciados em internet.
Operário padrão.
Secretária. Estagiário.
E você também paga a uma empresa.
Empresa que sou eu.
Com números e CNPJ porque ninguém mais aguenta FGTS, Inss, 40% de multa rescisória.

Ah, querido, o mundo é um moinho.
Talvez seja moedor de carne.

Eu fico aqui só pensando.
Na epifania de domingo.

No fim das contas, a matemática não fecha.
Porque a graça anda nas entrelinhas.
E a vida mesmo só acontece nos intervalos.

Foco Foco Foco Foco Folga Foco Foco Foco Foco

Uniforme

terça-feira, 24 de julho de 2012

procura-se

Meu uniformizinho de aspirante a general.
Calça preta justa de alfaiataria.
Camisa preta e blaser preto – tudo muito bem cortadinho e com uma gracinha moderna.
Meu cabelo aloirado bem escovadinho.
Meu anelão que denota personalidade forte.
Meu sapatinho de cobra asiática assassinada – coitada.
Meu carrão importado (tenho até dó de pensar).

E o carão.

Vamos lá, de novo, ser gauche na vida.
Carregar a pastinha, vender a si mesmo por um preço tão baratinho, pagar as contas da casa nova.
Esquecer as fofocas toscas das babás nas milhares de pracinhas.
Deixar os rebentos sentirem falta da mammamamamaãe.

As unhas vermelhinhas, a maquiagem, caretinha.
Um tal de ter que ser gente para sair desse quadrado.
Conta do pão.
Roupinha nova.
Viagem.
Veterinário.
Empregada.
Gasolina.

Não é que a gente perde o foco rapidinho?

Balança mais não cai

terça-feira, 28 de julho de 2009
Humor, pelo menos na legenda!

Humor, pelo menos na legenda!

Esse ano estou sentindo o peso da velheira.

Engordei +/- 5 kg (em um ano) que não consigo perder.
Esqueço as palavras (como o título genial que tinha bolado para esse post).
Tenho dor nas costas com frequência. (E olha que – até o ano passado – eu corria no parque 5 dias por semana, média de 7k / este ano, baixei para dois dias de corrida na esteira + 4 aulas de pilates e 2 de meia hora de abdominal).
Estou ficando mais paciente.
Estou ficando menos ambiciosa – embora ainda tenha o nariz arrebitado que me traz tantos problemas.

Então, uma idéia fixa me pegou.
Tentar melhorar em pequenas coisas do meu cotidiano.
Tenho que confessar que essa é uma (talvez a única) seqüela do sequestro-relâmpago.

Desque fiz as contas com o bandido (e provei para ele que fazer sequestros era péssimo negócio), comecei a olhar os pobres nos olhos.
Não é clichê não.
A violência, a pobreza, a desigualdade são tamanhas (no Brasil e no mundo) que a gente vai ficando cego para isso. A gente simplesmente não vê.
E desde o sequestro insisto em ver. Afinal, acho que foi o que me salvou. Ficar calma. Falar com os caras.

Olho o mendigo, o pedinte, o menino pobre, o catador de latinhas nos olhos.
Para alguns – contrariando todas as teorias – dou dinheiro.
Para outros, digo que não tenho – e abro a janela do carro para falar. Também contrariando a tudo e todos.
E, claro, procuro os meus sequestradores nesse povo.
Se eu achar, denuncio. Paradoxal, não?

E tenho feito – mentalmente – algumas listinhas.
Tenho que parar de comer porcarias. Se já estou assim agora, imagina em 10 anos.
Tenho que aumentar o salário da Antônia (fazer uma poupança para ela + pagar um plano de saúde).
Tenho que poupar para mim.
Tenho que fazer um plano-velheira (um depósito asilo na Argentina com direito a dois potes de doce de leite por semana).
Tenho que dar bom dia para todos que encontro, todos os dias.
Tenho que dar uma força para os porteiros. O que trabalha domingo já está ganhando almoço bacana. Mas não prometi nada – pois não se pode prometer o que não se pode cumprir (e não fiz as contas para saber se posso bancar o almoço de domingo).
Tenho que saber cobrar mais caro pelo meu trabalho.
Tenho que ajudar mais quem me pede ajuda. Muita gente pede emprego – eu sempre atendo, dou retorno. Mas confesso que ainda apago os emails que chegam com Currículos. Acho que o approach tem que ser outro.
Tenho que pensar a sério no porquê de não querer ter filho.
Tenho que ter coragem de deixar para trás as coisas que não quero mais.
Tenho que aprender a me concentrar nas coisas que interessam. Ontem vi um documentário sobre o Ayrton Senna (peguei um pedaço no GNT, fiz beicinho e acabei vendo até o fim).

Nuno e Senna em treinamento

Nuno e Senna em treinamento

Nuno Cobra, o famoso preparador físico do piloto contou que Senna era pura concentração. Que, num dia de corrida, ele só ouvia o barulho do ronco do motor do carro dele. Não ouvia os cartolas, os engenheiros, os colegas de equipe. E só via o carro e o circuito. Passava o cuircuito mentalmente na cabeça. Várias vezes.

Sobre Senna, um capítulo a parte. Lembram quando ele contou que “sentiu” Deus ao vencer o primeiro campeonato? Que teria sentido algo maior e teria saído do corpo durante a corrida?
Pois eu achava isso tudo muito ridículo, e não me comovi com a morte do Senna. Achei um saco. Imagina, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, tivemos uma semana de debate… Que perda de tempo, pensava.
Mas ontem o documentário me tocou.
O menino rico e vitorioso. Que batalhou para estar no pódio. Que abdicou de muitas benesses advindas do dinheiro para estar ali.
Quando morreu, a surpresa: Senna tinha um super projeto social, mas nunca falou disso, nunca colocou a boca na mídia.
Foi um moço bom.
O Senna foi um de nossos maiores heróis.

Enfim, o que admirei foi a concentração, o foco.
Nem as brigas com os colegas – e a pressão enorme – o dominaram.

Enfim, preciso de mais foco.
Chega do tudo ao mesmo tempo agora.
Engraçado é que o Senna morreu com a minha idade.