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Travesti

domingo, 26 de julho de 2015

para-raios

Porque hoje, não do nada, saquei quando a gente saiu da estrada.
Diferente do mundo, eu vivo a vida às claras.
Eu não tenho medo nem amarras.
O que eu faço, mato no peito. Sem programa que deleta o que eu escrevo.
Meu aplicativo replica, publica. Grita.
Eu sou 80 em estado puro.
Eu não minto. Nem tenho mais pinto.
E eu decidi que, a partir de agora, quero ser de mais de um. De dois. Ou três.
Vou colocar o dedo na tomada. Eu sempre fui 220.
Vou dar o que me der. Vou dar.
Vou, finalmente, criar, vou deixar quem eu sou ganhar. Eu vou me entregar.
Eu comecei a ir embora.
Eu sou de trás para frente.
Comigo tudo sempre começa do alto, do grande.
Agora eu quero o diminuto.
É hora de voltar ao meu espaço, à minha mesa de sinuca, à minha solidão destemida que vai puxando gente como ímã.
Eu estou chegando em casa.
Eu não tenho mistério.
Senha.

E é por isto que você me quer.

Sem pensar

sábado, 14 de maio de 2011

quando tudo começou

Comecei hoje um daqueles MBAs cheios de nome e sobrenome, meio brazuca, meio gringo.
O critério de seleção foi ter grana para bancar – como é doce o capitalismo.
E como é inconsequente o “banco” que me financia.

Eu tenho esse defeito ferrado: invento umas coisas, arrumo argumentos, convenço e faço.
Mas nem sempre acredito no que andei dizendo.
Esse MBA é meu anti-eu.
Processos, análise de risco, múltiplos-projetos, matemática financeira, viabilidade…
Tudo para quem quer planejar e ter certeza de não repetir erros e, ainda, insistir nos acertos.

Puts!

Minha vida de uma década para cá foi só de sorvete na testa.
Saí da Globo, mudei/voltei para Belo Horizonte, troquei um excelente salário por uma vida do avesso.
Fui estudar Direto, virei estagiária da minha mãe ganhando 500 reais – isso depois de estrelar uma matéria de importante revista feminina em que contava como fiz sucesso antes dos trinta.
Minha empregada ganhava mais do que eu – vale transporte e INSS, nego, estagiário não ganha.
Fiquei magra feito um pau: resultado de muito choque na barriga (estimulação russa, querida) e massagens + remédios duvidosos.
Voltei para Sao Paulo, arrumei emprego no Rio.
Despedi-me da Globo em alto estilo (e ganhando menos do que eu ganhava quando saí pela primeira vez).
Peguei dinheiro emprestado com minha mãe (coitada, coitada) e fiz um outplacement.

Quase famosa

Esse negócio é basicamente um purgatório para executivos demitidos.
Para mim foi um playground da reinvenção.
Eles desesperados atrás de uma vaga, e eu, alucinada, criando a executiva do mundo corporativo.
Fui trabalhar numa construtora.
Inventei os caras.
Emplaquei Folha, Veja, Globo, o escambau.
Paguei minha mãe. Virei editora de revista como hobby.
Ganhei dinheiro para caramba.
Minha cama custou 27 mil reais em 2008! Auping – recomendo!!!

Descobri que construtor opera Caixa 2 (eu nunca tinha visto isso de perto).
Limpei a área do marketing – tirei todos os fornecedores, abri concorrência, deixei as contas limpinhas.
Quando a coisa começava a andar, apareceu uma nota fria em meu nome com dinheiro que teria sido depositado em minha conta.
Ferrada e revoltada, bufei três dias, enchi meu peito de ar e meti um processo.
Ex-estagiária de direito, fiz questão de entrar pessoalmente com a papelada.

Me mandei para Nova York com dólar a 2,40.
Voltei e arrumei um emprego muito louco.
No lugar de bandidos, nerds bagunçados.
Não gostei do trabalho, amei o ambiente.
Como é legal trabalhar com gente que não é tão apegado a processos, que não é mainstream. Como é legal trabalhar com o verdadeiro glamour do marketing.

A força de Sansão

Um ano depois, venci o processo.
Dei certo na empresa.
Fui chamada por Deus e o Mundo para trabalhar com eles.
Cai em tentação e caí no chão.

Fui seduzida pela marca de energéticos mais genial do mercado – uma empresa completamente oposta ao espírito Ana Pessoa.
Talentosos em manipulação e branding, adeptos do trabalho escravo.
Cara, o que eu estou fazendo aqui?
Cercada por uma ninhada de tubarões que nunca vão entender que grana não é nada?
Depois de uma volta o mundo, pedi o boné.

O casamento faliu, meu pai morrera meses antes, fiquei me sentindo corajosa e perdida.
Fui para Paris juntar os cacos.
Sem um puto no bolso. De novo.

Quase 3 meses e voltei.
Larguei 18 anos de vegetarianismo, engordei 4 kg.
Cortei o cabelo, fiquei morena depois de anos de Vênus platinada.
Pronta para arrasar.

Faltava virar um lixo emocional de verdade para completar a jornada.
Levantar da cama era minha vitória.
Bebi todas todos os dias.
Os caras nunca deixaram de pintar, mas eles não têm graça.
Homem, desculpe a franqueza, é jogo para amador.

Eu precisava me reinventar de verdade.

Não fui trabalhar na nova empresa de compras coletivas mais quente do mercado.
Não fui trabalhar na nova empreitada do Ronalducho.
Fiz uma limpa na minha rede social – tirei os chatos, os interesseiros, as bichas loucas mimadas. Xô baixo astral mal resolvido!

E, agora, tô buchuda.

O dia em que comecei a nascer

Justo eu – independente, moderna, contra a maternidade.
O casamento voltou pelo golpe da barriga involuntário.
Quase 40. Cássia Eller me protege.

Faço hidroginástica, yoga, massagem ayurvédica, como brigadeiro, chocolate, doce de leite, nhá benta.
Contratei uma doula.
O amor voltou.
Quero agora ter 3 filhos.
Achei todo mundo do MBA amador (não dá para mudar tanto assim: continuo sendo do contra).
Ele, Recife.
Eu, Sampa.
No líquido aminiótico, muito chute ao som de Led Zeppelin. Eclético, treinamento de cobrança de falta quando Beth Carvalho solta o gogó.

Tenho pensado seriamente em escrever um livro.
Não vai ser best-seller. Isso não é Ana Pessoa.

(Mas o blog “Com mais de 40” promete!)

A felicidade existe

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Ano 2000.
Eu andava feliz e animada pelas ruas da vida nova.
Sem planejamento e inconseqüente, um estado de êxtase.
Andar linda, magra, com cabelos negros,curtos, a cor alva pelos verdes caminhos iluminados pela Floresta da Tijuca.
A caixa da padaria perguntou se eu era modelo.
Eu pensei, orgulhosíssima,: atriz, atriz profissional de uma vida experimental.
“-Não, imagina. Eu sou branca demais mesmo para o Rio de Janeiro”.
Eu era ruiva e muito, muito novinha e cabeluda para estar tão longe e tão grande.

Foto roubada e querida

Quantos sábados e domingos de “que personagem hoje?”.
Sozinha, ônibus até Botafogo, chuva, filme, solidão macia.
O famoso apresentador enchia a cara no Bar Jóia, eu descia.
Café amargo na Livraria da Travessa com muitas capas de livro.

Na rua, sem saber que ele ainda existia, encontrei Bernardo.
Vizinho – ele morava com a avó numa casa grande na av. do Contorno.
Atravessar a avenida, correr para o paraíso, a loja Brinque, e ganhar uma máscara de herói japonês feita de papelão.
Passar o dia na calçada vestindo a personagem estrangeira.
5, talvez 6 anos de idade. Bê tinha 4.

Meu amigo e eu, sozinhos no Rio de Janeiro.
Juntos, nos aventurávamos loucos e jovens pelas noites do Cine Íris.
Houve aquela em que, ao som de Balão Mágico (sempre pensei que Wando seria muito mais apropriado), apostamos.
Temos uma hora para deixar a solidão.
Vamos beber, achar cada um seu alguém, atacar e, amanhã, está prometido, assim que acordarmos, ligaremos para contar o resultado.
Aprovamos as escolhas e traçamos, muito sós e medrosos, o plano.
Eu, que uso o medo para pular de alturas impossíveis, veni, vidi, vici.
Ele, não.
Não nos telefonamos conforme combinado.

Depois de muitos caminhos, finalmente, plena.
E, perpetuum mobile, empurrando o que era bom para o desconhecido.
Borderliner – acusava mamãe -, e eu achava isso um baita elogio.
Talvez eu tenha que “trabalhar” o conceito algum dia. Melhor não.

Aquela noite em casa.
Feliz por seguir o script de tudo que é certo fazer.
Dar liberdade para prender melhor.
Junho de 2000.
Voltei feliz de uma felicidade de oito meses.
E li as cartinhas, os bilhetinhos de quem, sem aprender com ninguém, saiu falando tudo, mas tudo mesmo – sem medo, sem pensar no antes, no depois.
As cartinhas que prendem, espertas, esses segundos que valem anos.
Eu tenho todas, todas comigo.
Eu uso pouco as cartinhas.
Penso que pode gastar a mágica. Logo eu, tão consumista.

Sentei no chão do corredor.
Li, reli, li mais uma vez.
E chorei sozinha.
O corpo pesado no chão, o peso do vazio.
Eu senti de novo a solidão.
E fingi forte não saber que ali começava a realidade.

Mágica, atriz, borderliner, aprendi um quebranto.
E fui criando cartinhas cheias de feitiço que me aprisionaram naqueles oito meses por anos.
10 anos.

Ser feliz não é nada do que colocam em livros oportunistas – seja romance ou auto-ajuda.
Não tem fórmula, não tem explicação.
E é bom demais da conta.
Quem vive, é.

Simples assim.

Meu mundo que você não vê

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Tempestade

Quando o pobre suicida chega às vias de fato.
A turba, em coro:
– Covarde.

Quando a famosa atriz afirma em importante entrevista:
– Matei, dei, traí, roubei.
Nos salões, madames desdenham:
– Atriz.

Quando a vida pesa e você não tem saída.
Pelos corredores, sussurros:
– Fracassado.

Quando a fé é cega e o passado, dourado.
Um flit paralisante qualquer
Te aprisiona ao ontem e te impede de ver o hoje.

Quando a carne é fraca e o andor, de barro.
Deus chega ao sexto dia.

Ao contemplar a criatura, profetiza:

– Coragem.

Meu mundo que você não vê
existe mesmo assim.

Courage

domingo, 15 de agosto de 2010

“You know, beloved, as the whole world knows, how much I have lost in you, how at one wretched stroke of fortune that supreme act of flagrant treachery robbed me of my very self in robbing me of you; and how my sorrow for my loss is nothing compared with what I feel for the manner in which I lost you.” Heloise

Muito tempo atrás em Colônia

Não é nada fácil ser você mesmo.
Não é, também, muito simples seguir um estilo de vida que abomine a mentira, o jogo, as pequenas sacanagens que acontecem no cotidiano e que vão minando nossa força, nossas convicções.
Desde muito pequenos, vamos aprendendo a separar o “certo” do errado.
Mas ninguém conta que vamos conviver mais com o errado do que qualquer outra coisa.

Não falo dos óbvios.
Do chefe desonesto, do amigo infiel, do sujeito que rouba no troco, rouba na divisão da conta de bar.
Do cara que ficou rico “de repente”.
Do que casou para se dar bem, mas dá suas fugidinhas porque ninguém é de ferro.

Eu falo das coisas mais simples.
De topar trabalhar 10, 12 horas por dia e se matar numa função que não é a sua para garantir um aluguel num lugar mais bonitinho.
De passar por cima de um tempo que é tão precioso: com amigos, família, com você mesmo; talvez, com ninguém.
De um tempo que te permita respirar.
E que é o único que o torna amável com os desconhecidos.
Equilibrado quando os problemas aparecem.
Calmo quando o calo aperta.
Engraçado quando tudo é dor.

A tal sociedade do espetáculo, o capitalismo selvagem…
Bobagens.
Nossa sociedade é da histeria.
De gente que hoje aperta o gatilho porque o carro te deu uma fechada.
E ontem berrava por qualquer sinal aberto e o carro à frente, parado.
Hoje o amor fica lá atrás, junto com a conta do veterinário.
Primeiro, o trabalho, a carreira, a vida bonita num cartão de apresentação.
Depois o resto.
A vida em si.

Mesmo que o custo seja engolir todo santo dia um sapo tamanho XXXL.
Ou virar cúmplice e testemunha de gente que ganha a vida espalhando a incompetência, a intolerância, e até a desonestidade.

É como água em pedra.
Pinga, pinga, até que não tem mais pedra.

Pois é…
Eu estrou aqui maquinando um jeito de salvar a pedra.
Uma maneira de visitar mais uma vez o túmulo de Abelardo e Heloísa e acreditar que, sim, deve existir algo que sobreviva à vida.

(para F.C.)

O fim das coisas

sábado, 15 de maio de 2010

Num dia de sol, azul
Num dia cinza, foco
Ter coragem com medo
Ter fé
Fazer o que é certo até por que tudo errado?
Automático

oOoOoOoOo

Quando eu estou lááááá embaixo, tenho vontade de rir.
Já contei do homem morto e eu rindo sem parar?
Pois veja você
Dilma agora é Mandela.
Menina de 16 não pode sem blusa
Ai, Nosa Senhora da Pachorra anti-Ministério Público
Lena Horne era branca
Ava, negra
Na Espanha, juiz vira réu
Franco tem quem o defenda
E tem gente que ainda gosta de Cuba

Onde eu fui parar?

Nova religião

sábado, 20 de março de 2010

Junte-se a mim e vamos formar uma seita.
A turma dos inconformados. Dos desbocados e dos de bom coração.
Dos que dizem o que não deve, mas é porque não defendem hipocrisia.
Dos que pensam e fazem o que pensam. Dos que brigam para sempre.
Dos que não querem dinheiro, só um chocolate da vida.
Dos que não vieram para nascer, crescer, procriar, morrer.
Viemos só para estar.
Eu tive a sorte de ser o que sou.
Doa a quem doer. Conforte a quem necessitar.
Mas como tudo tem seu preço, pago a minha mensalidade.
Não quero jóias nem sapatos. Quero viagens, risadas, um bom papo. Quero parceria.
Se você não é malabarista, sinto muito informar. Não há vagas no meu circo.
O picadeiro já está ocupado.

copos

domingo, 20 de dezembro de 2009

O domingo começa conforme combinado.
Fui dormir e acordei quando quis.
No café, a preguiça reinou. Chá com biscoitos amanteigados (que vieram numa cesta de Natal).
Banho e penhoir (!).
Cabelos não viram um pente.
Faz sol lá fora. Quase três horas da tarde e nem abri o jornal. Pulei o almoço.

Foto criada em 2009-12-19 às 16.28Foto criada em 2009-12-19 às 16.28 #2

La Promenade

Domingo. Um dia de ócio e meditação. Comprei a Biografia de Marc Chagall. Um homem que nasceu num assentamento. Viveu clandestino em São Petersburgo. Fugiu para Paris. Anos depois, fugiu para Nova York. Teve três amores: Thea, Bella e Vava.

Pintou quadros tão lindos.

Eu quando vi La Promenade fiquei com raiva.
Era muito cedo para ver algo tão definitivo.
Imaginem Chagall, que estava com trinta anos…
promenade

Alma que é pequena embora a família seja do poeta

Na minha janela, primeiro foram as cambacicas. Quíííííííííí.
Agora, sanhaços que imagino azuis disputam água cor-de-rosa. Ouço as patinhas, a briga pelo melhor lugar – mas não me mexo para que eles não voem e me deixem sozinha aqui.
Na internet, banalidades.
Penso no filho do ladrão do cinema lutando pela vida e confirmo que tenho uma alma bem pequena.
E velha.
Com vinte anos, o moço, ousado, perguntou se eu tinha 30. Eu tinha a mesma idade que ele.
Com vinte, não são rugas que te fazem parecer mais velho.
Mas quando se é cigano, a casa vai nas costas.
E preciso armar a tenda onde seja possível.
Fazer café. Conta de água.
Carro novo. Jardim com flores.
Depois de um tempo, a idade só aumenta.
Não tem creme, injeção ou terapia.
E o jeito é ser assim mesmo.

A culpa é da palavra

Hoje as coisas são esquisitas.
As exposições continuam públicas.
Mas a gente faz confissões para gente que não conhece.
Quer dizer, até conhece, mas nunca viu.
Um texto de Guimarães, uma conversa sobre Paris, Berlim, Rio, São Paulo e filosofia.
Eu continuo achando que o melhor lugar do mundo é a Serra de São José, em Tiradentes.
E ela fica muito melhor quando eu não estou lá.

Falando de Minas, uma coisa levou a outra e encontrei a solução:

Quanto você faz 20 anos está de manhã olhando o sol do meio dia. Aos 60, são seis e meia da tarde e você olha a boca da noite. Mas a noite também tem seus direitos. Esses 60 anos valeram a pena. Investi na amizade, no capital erótico, e não me arrependo. A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso. Você só se conhece conhecendo o mundo. Somos um fio nesse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!

(Carta de Hélio Pellegrino a Fernando Sabino, revista pelo autor ao fazer 60 anos).