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Garota Bossa-Nova

terça-feira, 2 de julho de 2013

Domingo, eu vou ao Maracanã

O Brasil em revista me agradou.
Fui à final de futebol de negro.
Sim, menos por protesto, mais porque gosto deste modo.
Não, não vi a confusão e a violência que tomaram os arredores do Maracanã.
O gás de pimenta, a bala de borracha, a casa cercada por 300 pobres policiais paus-mandados.

Naquele dia, não deixei as bandeiras de lado e levei meu filho em seu primeiro jogo de futebol.
Tomei cerveja.
Xinguei o juiz.
Fiquei com pena da Shakira.
Urrei o nome de David Luiz, aquele que tem tipo de argentino.

A segunda-feira chegou.
Peguei meu vôo na chuva.
Comecei quase que de ré.
Voltar a ser mais uma no meio da multidão que não é festiva.
O protesto dos caminhoneiros.
O depoimento direto de Hélio Bicudo sobre o bolsa-família.
Os vereadores de São Paulo que pensam que nos enganam criando uma CPI do transporte público.
O Luciano Huck.

No calor dos acontecimentos, quis me lançar vereadora.
Pelo bundalelê criativo.
Pelo grito de desabafo.
Pelo respeito à opinião alheia e do alheio.
Pelo apartidarismo, ainda que sem anarquismo.

Pão e vinho – lembram-se do Romanée-Conti, amigos?
Porque o momento é bom para desabafos e um porre daqueles.
O futuro?
Que chegue em pleno carnaval de Olinda.
Num dia de sol.
Numa sexta-feira.

Oh wow, oh wow, oh wow

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Em tempos de mortes de Jobs e outros famosos do Vale do Silício, vai a dica:

Quando eu morrer, não mande mensagens no meu blog, no Facebook.
Não aperte o botão de “like”.
Não me mande recado relembrando a nossa amizade.
Não publique aqueles momentos íntimos na internet.
Não coloque no youtube minhas matérias da TV.
Não escreva um post, não “twitte” uma frase.
Não publique uma foto.
Não releia aquele texto.

Sabe o que é?
No além, dizem, não tem rede wi-fi.
Os mortos não costumam ler nem responder nada que não pinte numa mesa branca.
E também, tive notícia, não curtem muito essa coisa de tag na foto.
Eles não estão mais aqui, sabemos, mas não precisa avacalhar com o defunto.

Se puder, toque aquela canção.
Cante.
Jogue papel picado da janela.
Chute 3 ou 4 baldes.
E, claro, tome uma por aquela que não deixará nada para a posteridade.
Ela, definitivamente, não foi santa.
E disso muito se orgulhou.

(em tempo: fica proibido todo e qualquer minuto de silêncio em jogo de futebol, show de rock e correlatos)

Grande Sertão, Veredas

sábado, 2 de janeiro de 2010

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.DSC_0108

Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.

Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa… O mais difí cil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.

João Guimarães Rosa


Pois meus planos chegaram até Goiás, fizeram uma curva e sumiram. As malas eu fui abrindo, arrumando a coisas e guardando tudo de novo. Para depois abrir mais uma vez. Eu fui saindo da civilização para parar em Minas. De Minas, Brasília. De Brasília, Goiás. Chapada e chuva.

Antes que o ano fosse embora, eu vi que o destino é mais forte. E em veia de cigana corre estrada. É sina.
No meio de um pasto, com boi de todas as cores, voaram duas araras azuis. E não é que também toca celular?

E tome estrada de volta, aeroporto… Eu que já tinha despedido de avião em 2009.
Brasília, chuva.
Belo Horizonte, chuva.
Dormi suada e com a roupa de um dia inteiro.
Cinco horas da manhã, estrada.
Café com leite, maquiagem no banheiro. Biscoito de queijo e pastel de angu.
Tudo para chegar numa cidade tão pequena e tão cheia de terra.
Barão de Cocais. Antes foi São João do Morro Grande.
Fui enterrar meu pai.

DSC_0002Fiquei pensando se escrevia. Se passava essa.
Mas me deu tanta vontade que esse texto tem vindo e voltado desde o dia 29 de dezembro do ano passado.
Um velório de interior num piso com tacos gastos.
Num clube que já não existe mais.
Durante a noite toda, choradeira, bolo, café, pão de queijo.
Água lá fora e aqui dentro.
Tinha gente que entrava para ver corpo.
Tinha doido que encontrava pedaço de bolo e calor.
Eu só cheguei de manhã.
Muita moça velha rezando.
Muito encontro de gente antiga.

Ele estava lá, com a pele amarela, de terno e coberto de flores de plástico.
Contei 13 coroas, depois chegaram mais.
Todas flores de plástico porque lá não nasce delicadeza.

Vi tanta gente de quem não lembro o nome.
Dizem que ele falava de ano novo e rezava uma oitena.
Deu três suspiros e acabou.
No bolso, a foto de um filho e um dinheiro “da sorte”.
A caçula incluiu um desenho.

A matriz ficou lotada.
Teve discurso de vereadora. Do padre que foi colega de seminário. Do primo. Do irmão mais velho.
Três dias de luto oficial.
Era estranho ser olhada, apalpada, e vestir a personagem.
Quando a procissão partiu, caiu uma chuva forte.
Jogaram logo a caixa e cobriram de terra vermelha.
Orgulho de ser “pé-de-pomba”.
Seco e sob chuva.

E o ano novo entrou com mais chuva e com muito tio, primo, galinha, peru, cidra e salpicão.
Foram horas de causos – sem censura.
Muita risada, muita piada. Briga para colocar a mesa.
Gente amontoada em quartos com muito bordado, renda, bibelô, louça antiga, boneca de pano e toalha cheirosa. Broa, biscoito de nata, pão, queijo da roça.

Se eu pudesse mudar tudo e escolher um outro reveillon, eu não mudaria nada.
E confesso sem modéstia o meu orgulho de ser de uma família louca, esbaforida, complicada, faladeira e que tem um talento danado para rir da própria desgraça e fazer de tudo isso uma grande experiência.

Feliz 2010.

Futebol

Futebol, família e algo mais

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Passou o vendaval.
Minha casa voltou a ser o lar doce lar de duas pessoas.
E eu estou resfriada – nariz entupido, corpo um pouco dolorido. Isso sem contar o bolso completamente furado. E o Fred segurou a onda sem uma reclamação. Taí algo que preciso aprender… A calar a boca.

Esse fim de semana fui ao Museu do Futebol.
E que museu. E que terapia intensiva. Recomendo para os depressivos, para os excessivamente críticos, para os chatos em geral.

Como um esporte mexe com sentimentos tão variados: amor à pátria, rivalidade, emoção. E como a história do Brasil é brilhantemente contada através de nossos melhores jogos de futebol.
Eu não tenho vergonha de ser mulher no país do futebol. Bato minha bolinha quando convocada – e não faço feio. Em Cuba, era “Copa das Nações”. No time em que joguei, a tática de ser a dona da bola trouxe vantagens, tais como não estar ao lado de argentinos (risos). O melhor atacante era da Costa Rica. O mais bonito – e maior -, o que nos dava certa vantagem, era chileno. Também tínhamos um equatoriano bem danado, um panamenho, uns cubanos e nenhum argentino. Esses ficavam no campo adversário e minha melhor tática era chamá-los simplesmente de “argentinos!” a cada jogada errada, a cada passe mal feito. Tá certo que eu era xingada de pelotuda. Mas mulher pelotuda é tipo mulher barbada: não existe.
Vez ou outra uma mexicana me acompanhava nas peladas. Era mais perna-de-pau, mas tinha garra.
Só deixávamos a quadra quando não havia mais luz ou quando faltavam 30 minutos para fecharem o refeitório. E pensar que um período curto em terras caribenhas deixou tanta saudade. E pensar que o futebol era nossa linguagem de nações.

Proibido de entrar no estádio São Januário (do adversário Vasco), Ary Barroso subiu no telhado para não deixar os ouvintes na mão.

Proibido de entrar no estádio São Januário (do adversário Vasco), Ary Barroso subiu no telhado para não deixar os ouvintes na mão.

Voltando ao museu, a excelente narração de um gol pelo mineiro Ary Barroso em 1941 merece destaque. Para quem não sabe, além de brilhante compositor, Ary Barroso também foi locutor esportivo. Apaixonado pelo Flamengo, torcia descaradamente a favor do rubronegro nas transmissões pelo rádio. Quando o Flamengo era atacado, ele dizia coisas do tipo:”Ih, lá vêm os inimigos. Eu não quero nem olhar”, e simplesmente não narrava o gol do adversário. Quando o embate não envolvia o rubronegro, sempre que saía um gol, primeiro ele falava coisas engraçadas tipo: snif, squif, squifffffy, GOOOOOL (e depois tocava uma gaita). Impagável. Um locutor-torcedor é o máximo. Máximo que hoje não se ousa repetir (ou assumir)

A mãe do juiz também dá seu depoimento. Duas mães contam as agruras de ser mãe de juiz de futebol. De verem os filhos sairem de campo sob escolta. Uma, mais engraçada, logo diz: a maior desgraça foi a profissão que ele escolheu. Se o filho da p*. E confessa que também xinga a mãe do juiz em jogo. Sensacional.

Forçada de barra é Pelé dando as boas-vindas em português, espanhol e inglês. Pelé, vamos combinar, não é um cara simpático. Não é um cara bacana para dar as boas vindas para brasileiros. Ver as embaixadas de Ronaldinho Gaúcho em 3D é sensacional. É um circo. E ele faz as macaquices de quem – como muitos outros – é um grande jogador de clubes, não de seleções.

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Puskas em campo

Ver nossas derrotas tratadas com ar solene é interessante. O Maracanaço. A moça elegante que chora na arquibancada. Barbosa que sofre. Ver Zico perdendo pênalti.
Ver os vitoriosos de outras nações. O imortal Ferenc Puskás Biró (Budapeste, 2 de Abril de 1927 — Budapeste, 17 de Novembro de 2006), o “Major Galopante”. Puskás – que era baixote e atarracado – e se tornou, sem dúvida, um dos melhores do século XX.
Franz Beckenbauer o líbero alemão que, com sua visão de jogo incrível, armava contra-ataques fulminantes e tinha na elegância, com porte ereto e cabeça sempre levantada, uma marca registrada.

O Flamengo ganhando do Atlético de 3 a 2 em 1980. Um título que, dizem os meus colegas de torcida, foi roubado.
Garrincha fazendo gato e sapato de todas as equipes adversárias. E sendo generoso em quase todas as jogadas: ele não fazia o gol, armava a jogada e deixava o gol para um companheiro finalizar.

O Brasil é o único país que participou de todas as Copas realizadas até hoje. E o único também a ganhá-la por cinco vezes. Detalhes dessas conquistas (e também das derrotas), bem como o pano de fundo do momento político, social, econômico e cultural, em que cada uma se deu, estão representados nesse espaço em que presidentes, misses, artistas, ditadores da moda, torcedores anônimos e gênios da bola são personagens da mesma história e dividem espaço com as glórias da seleção canarinho. (Texto retirado do site do museu)

Segundo o sociólogo Roberto da Matta, ”foi o futebol que permitiu uma visão mais positiva e generosa de nós mesmos num plano realmente popular, como nenhum livro, filme, peça teatral, lei ou religião jamais realizou”.

Enfim, lavei a alma. O futebol tem esse poder.