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A ervilha e o teatro

terça-feira, 1 de março de 2011

Nos intervalos (quando a vida acontece com “V” maiúsculo), fui à hidroginástica.
Eu e 5 velhinhas.
Uma, japa, surda e larápia – levou o chinelo da professora.
A outra, negra, elegante para burro, não acredita em flutuação na água e combateu as leis da natureza por 45 minutos.
Eu, paramentada como um coió de touca, fiquei com as pernocas detonadas.

Depois, no subsequente intervalo para viver, teatro.
Complexo infantil.
De pequena, eu dirigia as apresentações familiares.
Covers das Frenéticas no carnaval, dublagem da Patotinha no Natal, imitação de pesquisador do Ibope nas eleições, e o épico e inesquecível cover de Julio Barroso com sua Gang 90 & Absurdettes (“Será que o King Kong é Macaca”?) marcaram minha carreira artística – sempre na direção e no palco. Uma personalidade polivalente e imune às obviedades do ridículo evidente.
Mamãe, preocupadíssima com o rumo que a coisa tomava, proibiu qualquer curso de teatro, intepretação ou coisa que me desviasse do bom caminho.
Agora, carregando mais que o mundo na barriga, resolvi acertar as contas com o destino.
Destemida (aparentemente) e com o dito na mão (disfarçadamente), matriculei-me no renomado Escola Superior de Artes Célia Helena.
Já na porta, não me misturei à plebe.
O povo do teatro vai de camelo ou de ônibus.
A microempresária de araque, de carro importado.
Era tanta novidade que o segurança combinou com o colega da padaria e pude estacionar na vaga alheia sem pagar um centavo.
O povo local usa roupas folgadas, furadas e coloridas.
A aspirante a Cacilda Becker do serrado intelectual foi com roupa preta de design internacional.

E a aula começa.
Correr, pular, gritar, fazer-se de estátua – eu quase infartando de nojinho com tanta papagaiada.
Nas apresentações, batata: todo mundo se lembrava de o que eu fazia, mas não do meu nome.
Eu lembrava tudo de todos – até da data de aniversário da menina com problemas cerebrais.
Nossa primeira apresentação e eu já fazendo um revival da Gang 90 e usando os colegas de cobaia.
Tirando sarro com Wolf Maya.

Depois de 3 horas e meia, relaxei.
Apresentações das personalidades presentes e abri meu coração venenoso:
– Eu tenho pavor de todo o ridículo que o teatro nos impõe.
Mas a vida anda pegando mais pesado e resolvi mudar de lado.

E meu ego sumiu atrás da rotunda.