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Atitude camicaze

domingo, 24 de maio de 2009

 

Foto: Helmut Newton

Foto: Helmut Newton

Se você é bom conhecedor do português, saiba que camicaze pode ser com s ou com z. 

E diz o meu braço esquerdo, o Houaiss, que a palavra é um adjetivo e substantivo de dois gêneros. Uma derivação por analogia a traduz como que ou aquele que se arrisca muito ao agir, especialmente ao buscar determinado objetivo. Ou então pode ser um  suicida em potencial; que ou quem ignora a própria segurança ou bem-estar.

Esse blog nasceu com esse espírito. Exatamente assim. A minha cara – de pau. Ainda mais numa época em que empresas demitem porque fulano escreveu mal do trabalho no facebook, o blog então é quase uma carta de demissão – ou alforria.

No meu trabalho atual, passei por uma montanha russa. Em exatos seis meses vi a cobra fumar, beber e até dar uma puladinha para fora da cerca. E olha que cobra pular é coisa complicada.

Hoje, num café da manhã festivo, trocando idéia com gente muito mais vivida que eu – que sempre fui meio errante -, cheguei à conclusão que não vivi nada de diferente do que todo mundo nessa jornada corporativa. Ser funcionário hoje é uma grande aventura. Vide Sadia e Perdigão, Lehman Brothers, AIG, Arapuã (que virou loja de roupas) e até o atacadão do Abdala (que vendia roupa na bacia em frente à rodoviária de Belo Horizonte).

Num dos meus trabalhos, para não fugir do estereótipo, temos uma tirana na cadeira central. Meu braço esquerdo me cutuca e manda logo a explicação: governo legítimo, mas injusto e cruel. Ingratidão, opressão, violência. Eu, depois de muita porrada, aprendi a lidar. Não ouço. Deixo a cobra fumar, pular, gritar e o escambau. Depois falo ok, batata frita. E mando minha nota fiscal cobrando pelos serviços.

confortMeu inglês macarrônico aprendi em anos de Cultura Inglesa e meses numa cidade com o singelo nome de Farnham. (Farnham is a town in SurreyEngland, within the Borough of Waverley. The town is situated some 42 miles (67 km) southwest of London in the extreme west of Surrey, adjacent to the border with Hampshire.E foi com esse inglês de padaria da esquina que me tornei editora de notícias internacionais na Globo. Tsunami, Guerra do Iraque, mundo bizarro, fofocas. Foi com ele que divulguei aqui o que rola fora daqui. Com ele, quanta audácia, virei tradutora num festival internacional de dança. E acompanhei um grupo austríaco até no workshop para bailarinos experientes. Imagina traduzir Slowly move the hips, make it under the calf, fall means a slight movement up and jump forward. Tudo isso por 150 pratas num longinquo 1996.

Todo dia treino meu inglês no Twitter. E erro um bocado. Mas acho legal, é como fazer exercícios depois de meses parada. É uma (fisio)terapia.

Mas, no mundo da moda, a porrada é mais embaixo. Escrevi um CONFORT assim, errado. A fralda Pumpers tem uma linha confort (também escrito errado). O famoso Bebê Conforto é produzido pela Confort Babe, uma marca vendida no Magazine Luiza. A Philco tem uma chapinha confort de cerâmica. E, na França, confort é a uva que ajudou a fazer a fama dos vinhos da Califórnia, a Chenin Blac. Pois dei o título Confort para um de meus textos – leia direito: meu texto, de minha autoria, um editorial. Meu e assinado por mim. O texto passou pelo checador. Passou batido e foi assim, singelo, publicado errado. Um editorial, na minha opinião desbocada, é um texto meio viado, cheio de achismos, muito afetado, para explicar o tom da publicação. É um frufru danado – que muita gente gosta de ler. Então, tendo em vista o tom, o confort no lugar do COMFORT passaria batido – afinal, vale tudo: de chapinha da Philco à uva para vinho branco. Mas não passou. Tomei um esporro daqueles. Afinal, escrevo muito repetitivo, erro o português, maltrato a velha papisa da moda (quando não faço bajulação e nem dou atendimento especial),  carrego nas tintas, sou o cocô do cavalo do ladrão que roubou uma soda limonada.

Na minha ficha policial de costumes, irritei muito três pessoas: 

Designer Valentino Garavani and Martha Stewart attend the premiere of "Valentino: The Last Emperor" at The Roy and Niuta Titus Theater at The Museum Of Modern Art on March 17, 2009 in New York City.

Bitoca na Martha Stewart

1) Carlos (Cacá) de Souza que, no blog engraçadíssimo, o do Márcio.G, é assim descrito:  

Cacá de Souza deu entrevista para Lilian Pace, no “GNT Fashion”, contando como conheceu Valentino. Ele, Cacá, tinha 18 anos. “E viramos grandes amigos”, diz. Conto mais, não foi simples assim: Cacá, à época, talvez estivesse no trono do homem mais bonito do Brasil. Era dono de um corpo de enlouquecer homens e mulheres. Sem dúvidas. E você sabe como é o comportamento de uma biba rica, trilionária, quando se depara com um bofiscândalo, principalmente brasileiro. A hoje tiona, que também era bem bonita, ficou louca, com razão, e ofereceu o mundo ao bofe, carregando-o para a Europa, abrindo todas as portas e passarelas. Fez do Cacá seu homem de confiança, administrador de sua agenda pessoal, assessor de imprensa e…marido!, claro, um assunto sobre o qual ninguém ousa dissertar, neste mundinho hipócrita da “alta” sociedade…

Feitas as apresentações, vamos aos fatos. Eu, menina de todo, com 22 anos, sugeri fazer páginas amarelas da Veja com Valentino. O mago do vermelho estava endividado e rumores davam conta de que venderia sua grife para um grupo de investimento francês. Foca e sem falar um A em francês, liguei para o 102. A Embratel me passou o telefone de uma loja do Valentino em Paris. Liguei para a loja e – com meu inglês confort – expliquei que queria falar com Valentino, o Garavani. Consegui o telefone do QG do estilista e para lá liguei. Aí falei com um tal de Cacá, brasileiro, que carregava no sotaque francês. Achei a maior afetação, mas fui no maior respeito. Eu queria era garantir mais uma assinatura na Veja. Cacá, muito arrogante, disse que Valentino não daria entrevista por telefone. Eu respirei aliviada, afinal, meu inglês era bom, mas eu só tinha 22. E meu francês só esse ano começou a fluir… A entrevista seria por… FAX! Gente, esquece internet, email e o escambau. Tudo isso ainda engatinhava no mundo corporativo. Fiz dezenas de perguntas e mandei – e expliquei que a intenção era fazer Páginas Amarelas, mas que tudo dependeria das respostas. O fax com as respostas chegou na data combinada. E não valia Amarelas. O estilista não falava nada sobre a venda da grife, dava respostas muito fracas e evasivas sobre tudo. Nem sobre o vermelho, que o tornou famoso, deu uma resposta de impacto. Tá certo que eu era jornalista recém-formada e não devo ter feito A entrevista por fax… Mas eu e minha editora, na época a Laura Capriglione, concordamos que valia uma página contando a história da venda da grife (naquela época todos os estilistas estavam quebrados e vendendo suas maisons). Assim foi feito. E eu tirei férias na sequência e fui para Minas.
Pois a revista foi publicada e ligaram para a casa da minha mãe em Belo Horizonte. Num português de Belford Roxo, Cacá de Souza me espinafrou. Disse que eu prometera Páginas Amarelas para o  mestre  e que fizera uma matéria contando inverdades. O cara berrava. E logo vi que jamais ganharia nem um lenço de papel vermelho Valentino.
E a grife foi vendida. E me orgulho da matéria. Vai ser cara dura: ligar para Paris e conseguir a entrevista. Pensei comigo: se irritou tanto, é porque falei a verdade.
2) Gilberto Dimenstein – Quando fui chefe do Canal Futura em São Paulo, o moço em questão era comentarista. O canal, pobre de marré de si, tinha uma equipe e duas repórteres. Os meninos que faziam câmera trabalhavam de 8 às 22h non stop. Quando tínhamos que gravar com os comentaristas, entre eles, Cristovam Buarque, na época, ex-governador do DF e ganhador de um prêmio Jabuti, os meninos montavam a mesma câmera num arremedo de estúdio e gravavam com os caras. Era uma loucura, porque tínhamos que gravar 2 matérias por dia + o comentário. Arrancava o couro geral.
Pois bem: Gilberto, a diva em pessoa, mandava a secretária ligar e avisava quando iria gravar. Era sempre assim: em cima da hora, e na hora que ele queria.
Cristovam, que vinha de Brasília, era completamente diferente: ligava pessoalmente para perguntar quando estaríamos disponíveis para gravar com ele.
Eu, já experiente e com 25 anos de idade (risos), liguei para os dois e marquei um dia e horário fixos.
Assim tiraríamos uma tarde para os comentaristas e a equipe não seria mais tão sacrificada.
Cristovam achou ótimo – afinal, teria um horário pré-agendado. Gilberto perdeu a linha. Não estava à disposição. A TV que esperasse por ele.
A partir desse dia e, enquanto fui chefe do Futura, não gravamos um A do Dimenstein. Na boa, o mundo tem muita gente bacana para falar com propriedade sobre educação. Aliás, educação não é a especialidade do moço.
3) Costanza Pascolato – foi nossa colaboradora por duas edições. Sempre a tratei muito bem e com carinho. Não bajulei. Ficou danada comigo. 
Trocamos por uma jovem em ascensão. Está sendo um estouro e uma delícia trabalhar com ela.

Tudo isso, para voltar ao meu título do post.

Eu sou camicaze mesmo. Sempre fui. Se cismo com um assunto, evito a briga a todo custo, mas se entro na briga… Ai ai ai… Chata mas com estilo!

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