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Cirandinha

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

puxe a corda

Sair de esquadro.
Uma volta de carro e gritos histéricos de liberdade só para chegar em casa e sentir-me inteira novamente.
Gritos em silêncio.

Sentir o sol, o vento, ver os pelos muy eriçados.
Querer fugir de tudo o que me obriga. Como você.
Como todo mundo.
Fugir tendo os pés fincados no chão.
E, mesmo assim, voar.

Aceitar tudo o que não me cabe.
Não caber em mais nada.
Que serenidade é essa que me faz fugir do espelho?
Não ter mais aquela fome.
Aproveitar cada pequeno segundo que – ah, ironia – não cabe mais em um minuto.
Ser grande e saber que não sou nada.
Eu sei (?)

Despedir dos amados.
Levantar e seguir pela estrada. Só.
E desaprender a viver nessa solidão que um dia foi tão minha.

Uma segunda-feira.
Gosto de amora preta na boca.

Por uma vida menos absurda

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Tudo começa nesta manhã de frio, sol e chuva com uma moça com uma senhora barriga colocando dois arquitetos para correr.
Quem já fez uma obra sabe que é dor de cabeça do início ao fim.
Pois a minha terminou bem – entre mortos e feridos, como diz a piada, salvaram-se todos… ou quase todos. E obra, como era de se esperar, nunca vai terminar.
Dentro de casa, a arquiteta perdeu a polida educação exigida demandando – aos berros – o pagamento de um serviço inacabado.
Eu a convidei a passear na praça sem um tostão furado no bolso…
Cinco minutos depois, eu e a empregada caímmos na risada.
Cena de novela mexicana de baixo orçamento.
Mas será o Benedito?

Quanto mais velha fico, mais percebo que quem levanta a voz tem grandes chances de estar sem razão.
Gritos e sussurros – dois grandes axiomas desta língua incrível.

Grito – sem razão.
Sussurro – um estilo de vida

De uma coisa pulo para outra como sabiá de papo cheio.

Minha avó materna, quase nos 90, tem 3 irmãos – uma moça e dois mocinhos – todos vivos.
Todos são muito amorosos, unidos e polidos.
Nunca ouvi dizer que tivessem brigado.
Há décadas dividem a herança dos pais. São imóveis e mais imóveis que, bem administrados, rendem um bom dinheirinho.
Agora, chegando no fim da estrada, começaram a se desfazer de alguns.
Esses assuntos, como obras, são espinhosos e dão margem a desentendimentos.
Pois, com eles, nunca.
Reúnem-se, decidem o que fazer, fazem e continuam irmãos lindos e unidos.
Sem gritos, sem fofocas, sem histórias, sem problemas.

Num mundo em que todo mundo grita e ninguém tem razão, os quatro velhinhos são um belo exemplo.
Para que complicar o que já sabemos que não será fácil?
Eu sei, ando piegas, mas é que mundo anda muito absurdo…

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Bruno, o goleiro anti-herói desmaiou mais uma vez.
Com ele, é tiro (?) e queda: é entrar numa audiência que o grandão tem peripaques.
Hoje, deu show: foram publicadas fotos de todos os ângulos. Até das canelas machucadas.
Eu fico obrigada a fazer o comentário lugar-comum: será que, na hora de meter pílulas abortivas goela abaixo de uma moça com quem ele tinha um relacionamento, ele desmaiou?
E quando a turma dele bateu nessa mesma moça que carregava um filho na barriga?
E, se ele mandou mesmo matar mãe e filho, ele desmaiou ao dar a ordem?

Zapeando pela internet, caí num vídeo do Pânico.
Num evento há cinco anos, o insuportável menino vesgo faz piadinhas infames com o atual candidato derrotado, Netinho.
Netinho, sorridente para as câmeras, é subitamente abduzido por um bicho-papão.
Faz um olhar de louco e desfere um soco na nuca do comediante.
Depois, puxa o moço pelo colarinho e faz ameaças.
É impossível não cair em outro comentário lugar-comum.
O que não devem ter passado as duas moças que comprovadamente apanharam desse rapaz?
Alto, corpulento e com olhar e atitudes de psicopata.
Hoje, cinco anos depois, o menino vesgo vai atrás de seu algoz e ele, o que não surpreende, o trata muito bem, com doçura até.
Afinal, era momento de campanha eleitoral.

Como tenho formação de jornalista, reconheço que convivi com seres absurdos em grande parte de minha vida profissional.
E grande parte das bizarrices que vi se passavam dentro de redações.
Já ouvi muitos gritos e poucos sussurros.
Fechamento de jornal, para muitos, é metáfora de gente alterada.
Para mim, a tensão e a pressão de um fechamento nunca justificaram grosseria ou descontrole.

Gritar?
O grito é uma manifestação de animal.

Tenho um grande amigo que se diverte com o que ele chama de “momento alto” da análise.
O grito primal.
Manifestação violenta, sob a forma de grito (com ou sem palavras, acompanhado ou não de gestos bruscos ou comportamento histérico), de emoções e afetos reprimidos por ocasião de um acontecimento traumático que é revivido durante uma psicoterapia

O grito, o desmaio, o show.

Em 1988, Zuenir Ventura escreveu um texto interessante sobre Cazuza em que cita uma consideração muito atual de um psicanalista:

Na sua teoria sobre a nossa dissolução social – exposta por José Castello no Idéias de 21-5-88 – o psicanalista consegue avistar um país sendo cavalgado por quatro apocalípticos cavaleiros: o cinismo, a delinqüência, a violência e o narcisismo. Essa combinação forma uma cultura da descrença. “No lugar da indignação”, diz Jurandir, “produziu-se um discurso desmoralizante”. (http://literal.terra.com.br/zuenir_ventura/por_ele_mesmo/artigos/05um_grito_contra_a_razao_cinica.shtml?porelemesmo)

Em tempos de histeria coletiva com a política e em país em que goleiro de time campeão é assassino e músico-apresentador de TV vira espancador de mulher, será a hora do grito?
Sabe quando uma boa história está chegando ao fim?
Você olha para trás e pensa qual foi o ponto de virada que levou tudo o que havia de bom para o buraco.
Em que momento você perdeu o fio da meada?

Eu aprendi que a crítica serve para aliviar as tensões de nossa vida dura.
E, sempre que posso, uso um remédio medicinal: firmeza combinada com gentileza.
Marina “venceu” porque usou esta poderosa arma.

E nós?
Acabaremos num grito?