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A mesma praça, o mesmo banco

domingo, 16 de janeiro de 2011

O ano começa numa grande expectativa e mostra que nem tudo é renovação.
2010 (lembra?) abriu os serviços com Angra dos Reis desabando sobre cabeça e membros de muita gente. Depois foi a vez do Rio e de Niterói.

Em dezembro passado, um amigo gringo superdesavisado anunciava, feliz, que iria passar o reveillon em alguma cidade do litoral fluminense.
Eu logo joguei um balde de água fria: todo cuidado é pouco!

Nem preciso contar que a virada dele foi debaixo d’água e ninguém imaginava que mais de seiscentas pessoas iriam partir desta para debaixo de lama, sem socorro e sem despedida.

Nossa língua – difícil e muitas vezes maltratada por esta que vos escreve – algumas vezes nos coloca em xeque.
Nascida há cerca de dois mil anos, filha dos povos pré-romanos que habitavam a região ocidental da Península Ibérica, a língua portuguesa virou hit nos séculos XV e XVI quando os reis das piadas de padaria estabeleceram um império que ia do Brasil, na América do Sul, até Goa, na Índia.

Vasta distância, muita gente colonizada, e a língua foi virando uma criolice doida que logo confundiu “x” com “ch”, “s” com “z”.
E é por isso que, hoje, os jornais insistem em culpar o Aquecimento Global pela tragédia.

AQUECIMENTO não, cara pálida, ESQUECIMENTO.

Esquecimento proposital e político porque tirar pobre de beira de rio e de encosta de morro dá um trabalho danado, gera manchetes e imagens de famílias desdentadas chorando e arrastando seus poucos pertences pela telinha superpovoada. Imagens que serão amplamente usadas pelos adversários de urna e que, certamente, inflacionarão o mercado de compra e venda de votos.
ESQUECIMENTO porque desapropriar mansões em área de risco é algo que não se viu na Colônia. Taí a história do ex-governador de Roraima para exemplificar uma questão tão nacional.

Lendo meu jornal paulistano fiquei sabendo que, em Brisbane, na Austrália, onde a enxurrada também mudou a geografia, 25 pessoas morreram e dezenas estão desaparecidas. Alguns tubarões apareceram asfixiados no asfalto. Koalas, cangurus e cobras sobreviventes agora correm risco por não encontrarem água e alimento.
Lá, tenho certeza, o aquecimento global será preso, julgado e condenado.
Aqui, quando não é culpa do povo, que constrói em área de risco, a culpa é de São Pedro.
Claro, ele deve ter alguma coisa com a história, afinal Pedro vem do grego Petrus que significa pedra, rocha. Os católicos aprendem cedo que Jesus, antes de se mandar, deu novo nome ao apóstolo Simão e disse:
-“Pedro, tu és pedra e, sobre esta pedra edificarei minha igreja”.
Pois a culpa não é da região pedregosa, onde a água da chuva não se infiltra e arranca a terra onde estão casas, pessoas, cachorros, cavalos e galinhas – todos irregulares e inconsequentes?
A culpa de São Pedro então está comprovada.

Eu, no meu domingo de sol, acordei revoltada com a irresponsabilidade política, impressionanda com gente que não teve a sorte de ser estilista nem sócio de banco e que perdeu pai, filho, mãe e continua com o pé na lama tirando corpos e salvando gente que há dois dias espera por socorro.
Gente que perdeu tudo e que está em estado de transe, tentando arrancar pedaços de gente da lama.
Gente que, de certa forma, teve alguma sorte de não ser classe alta e que, portanto, não foi amplamente fotografado, falado e comentado enquanto enterrava 2 filhos, a irmã, o cunhado, 4 sobrinhos, mãe e pai.

Este sentimento de impotência, esta vontade de sair gritando, louca, pela rua contra a bazófia, esta vontade de chutar pessoas e de beijar os cachorros, este grito que mora no peito.
Esta dita coragem que me faz seguir em frente mesmo assim.
Este confessionário em berros.
E eu penso: qual é a palavra para “blog” em português?

Pocket show

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Moedas seguras no tomatorosato
Moedas seguras no tomatorosato

O merchandising do dia: assegurei meu rico dinheirinho no porta-níqueis super fashion com muitos cupcakes. De Portugal para o Brasil. Do Brasil para a América! By Tomatorosato.blogspot.com

E hoje descobri que passei os últimos dias vivendo na hora errada – vivendo uma hora atrasada. E sabe que foi uma boa experiência… Fui mais tarde para o trabalho, e cheguei na hora certa.

Entrei na loja achando que tinha duas horas para que ela fechasse, comprei as encomendas com calma e, na verdade, eu só tinha uma hora – o que teria me deixado aflitíssima se eu soubesse…

Descobri agora, quando trouxeram meu café da manha e  eu – intrigada com a entrega tao cedo – perguntei que horas eram… E perdi uma senhora hora interessante.

Ontem de noite começou uma fina chuvinha. Hoje a chuva gelada continua. Saindo de um jantar que foi até meia noite, entrei num táxi pilotado por um elegante indiano com barba branca e vestido com túnica e turbante brancos. Um sikh.

Ele ficou muito intrigado porque eu já conhecia a religião e alguns preceitos. E viramos amigos de infância. Falou que este ano ele vai para a cidade dele, no norte do país e que eu sou convidada. Enquanto lá estiver, só pagarei pela passagem aérea. E falou muito sério. Vindo de um sikh, acreditei. Ah! Esse mundão sem porteiras. É simplesmente impossível ficar dentro de meu cubículo de 10 milhões de habitantes. O mundo é muito mais divertido. Com turbantes, sotaques, gente estranha, gente engraçada. Histórias de todos os tipos.

Sobre os sikhs (palavra vem de shishya que significa “discípulo”), o que me parece mais interessante é assumir que estamos distante de Deus por conta de nosso ego. Esse egocentrismo (haumai) faz com que fiquemos presos no samsara (ciclo de renascimentos). Os sikhs acreditam no karma –  ações “do bem” geram frutos positivos e permitem alcançar o progresso espiritual. Por isso, penso que ele me convidou de verdade para ficar com sua família na Índia. Agora, com minha flor de lótus estampada na carcaça… acho que vou, hein!

 Vou é acabar de tomar meu chá milagroso e vou tomar chuva geladinha na Grande Maça… Fui!

काठमांडौ ou a neve que derrete o calor

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

vazio agudo
ando meio
cheio de tudo

Paulo Leminski

Eu e meus três irmãos mais novos

Eu e meus três irmãos mais novos

Não bastasse roubar poemas, eu vou precisar da ajuda dos universitários do curso de psicologia.

Tenho a forte desconfiança de que progredi para aquela fase em que as crianças já com 4, 5 anos começam a fazer uma simples pergunta: “- Por que?”
Dizem que é a primeiro período da fase da latência, que vai dos cinco aos oitos anos. O que escrevem por aí:

Os problemas edipianos estão à tona, a criança impede os impulsos eróticos e agressivos. Em seu momento de lazer e nas suas horas vagas utiliza rituais mágicos, simpatia e etc. Seria uma forma de consolidar o seu superego.

O superego, também chamado supereu, é formado pelo conjunto de regras e proibições impostas pelos pais e pela sociedade e que foram interiorizados pelo indivíduo. É o fundamento da moral.
O id ou infraego é constituído por todos os impulsos biológicos (como a fome, a sede e o sexo) que exigem satisfação imediata. É o fundamento da sobrevivência individual e da espécie.
O ego, também chamado eu, é o elemento decisor dos conflitos travados entre o id e o superego, é portanto, o fundamento racional da personalidade humana.
Segundo Freud, estas 3 instâncias estabelecem entre si uma relação dinâmica, muitas vezes conflitual, de que resulta a conduta das pessoas. Assim, o comportamento de umas pessoas compreende-se pela supremacia do id e o comportamento de outras compreende-se pela supremacia do superego.

Pois, com algumas décadas de atraso, cheguei com tudo nesta fase do superego e o id não está com nada. O problema é que papai dançou, mamãe não manda mais e perdi o meu Código Civil. Superego retardado dá um problema danado… Pau que forma o superego torto, entorta de vez… E não me culpe, isso já professava Freud em seu jogo de biriba, depois de uma avaliação de um paciente com histeria.
Por que temos que trabalhar feito mouros?
Por que levar essa vidinha?
Por que sacrificar a vida real em algum trabalho que, você sabe, seja ele qual for, vai pagar suas contas, vai te dar um certo prazer, mas não vai te levar a Kathmandu… (exceção que confirma a regra para Ana Paula Padrão, Guta Nascimento e Glória Maria cujo trabalho levou a Kathmandu, mas, que azar!, o destino delas era Goa).

Eu passei 3 dias em casa tentando fazer algum sentido.
Hoje a rotina veio com tudo.

Eu, numa das várias reuniões do dia, olhando para a chuva batendo na janela do 36 andar e para o arco-íris gigante que surgiu na nossa Gothan Happy City, vulgo Sampa (roubei essa do Marco Assub). Foi tanta energia que a eletricidade falhou. Pena que num segundo voltou.

Um aparte: esse é o terceiro arco-íris que vejo em 11 dias de 2010. Será algum tipo de recorde? E se a gente chegar ao final dele, encontra o tal pote de ouro? Se passar por baixo, vira lobisomem? Eu topo!

Voltando ao superego: quem foi que me jogou tanta regra para eu ficar organizando tudo, menos o livro-caixa interior?

Ando ladra de frases alheias, mas só elas têm me dado alguma explicação… E só quero saber uma coisa: no lugar de parar o bonde, dá para passar a quinta a 280km/h que nem o Nelson Piquet e ainda chamar o Senna de boiola?

Meu espírito agudo e endemoniado anda me cutucando mais do que o que de costume. Dia desses apareço fantasiada de coelho da Páscoa no trabalho e distribuo bilhete premiado para as velhinhas na fila do banco.
Depois, quando o juiz mandar prestar serviço voluntário, juro que vou assaltar a fábrica de panetone e dar chute na caixa de esmola…

Nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez

Paulo Leminski