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Sol de inverno

domingo, 28 de julho de 2013

Fugindo do frio, da casa triste, andei pela vila.
Acompanhada de meus fiéis escudeiros, chutei bola, bebi água, fiquei suja de terra.
Já pronta para ir embora, fui atraída por uma turma de jovens cabeludos em roda.
Havia vários com violão.
Havia uns coroas também.
Cada hora uma música.
Um pic-nic.
Suco, refrigerante, vinho, salgadinho.
Rodei a roda.
Senti o último raio de sol.
Daí que alguém cantou Helena.
E os mais velhos, em coro, choraram.
Fui saindo de mansinho.
A festa, a roda, a música.
Eram uma missa de sétimo dia.

Inverno na Vila Madalena.
Que pena.

por aí, atravessando a rima

Depois do inverno,

quarta-feira, 17 de julho de 2013

a primavera.

Minha cabeça aqui e os pés para o ar.
Correndo nas horas erradas – o que faço de melhor.

(Minhas primaveras)

Gritando pelas ruas.
Lendo o povo cheio de opinião.
Feliz por um Brasil errado e tão encantado.

(Nikes, Eikes, Lulas, Fernandos e outros quetais)

Pensando de verdade em uma praia no fim do ano.
Em sangue.
Em ferro em brasa.
Em dinheiro caindo do céu.

Velocidade de cruzeiro.
Libertadores da América.

A cuca pode fundir.
Confundindo tudo.
E todos.

De pernas para o ar.
Num inverno que não se encontrou.

Em mim.

Raro Efeito

quinta-feira, 16 de agosto de 2012
versão americana

no mesmo barco

A poluição me faz confundir tudo.
Não respiro como antes.
Não rio igual.
Aqui, São Paulo que nos acuda.

Debaixo da porta, cartas, cobranças, raivas e nadas.
Eu tenho, sim, ataques de cólera.
Pura sujeira nos ares.

Ah…
Ahhnndo zonza.
Com a vista embaçada.
Sentindo o peito carregado.
Apertado.

Ah.
Ha.
A.
Talvez seja o inverno na cidade que não sossega.
Dorme um pouco,
descansa.

O pão impossível de cada dia

terça-feira, 17 de julho de 2012

prato vazio

E abriram a Le Pain Quotidien do lado de casa.
Saudosa de meus tempos sem lenço e com muitos dólares em NYC, fui logo matar as saudades.
Preparada para umas adaptações brazucas, fui surpreendida pelo cardápio: é o mesmo da rede lá fora.
O MESMO!
E, claro, sem demora, pedi o de SEMPRE…
Meus cereais matinais, a tigela de frutas, uma cestinha de pães, um bowl pequeno de café com leite.
A cachorra, pobrezinha, ficou do lado de fora – eu sentada e quentinha, ela na rua, olhando para mim com cara de abandonada.
Eu vendo a cara peluda e pensando nas inúmeras vezes em que quis levá-la comigo para dar umas voltas no Central Park mas fui impedida pela burocracia dos dois países.
Escolhi um assento na animada mesa coletiva.
Adoro ouvir as conversas dos outros, compartilhar a geléia, assuntar qualquer bobagem com um desconhecido.
Enquanto esperava pelo atendimento, encontrei a dona de uma cachorra que brinca com a minha; acenei para dois vizinhos queridos.
Fazia frio. As bochechas estavam rosadas.
Minha fome ultrapassava o que uma cesta de pães pretendia saciar.

E o garçom não veio.
Esperançosa, fui até ele.
Fiz o pedido.
Incluí ovos cozidos no meu pacotaço de desjejum.
Meia hora…
Vieram os ovos.
Mas não os talheres, o guardanapo, o sal.
Vinte minutos, a cesta de pães… Itens em falta: justo o pain au chocolat…
O suco de laranja, esquecido.
Mais meia hora.
Uma hora.
Abordei outro garçom, fiz sinal para o gerente.
Chegaram os talheres.
O ovo esfriou.
E com ele minha graça amarela de achar que, em casa, sentiria gosto de mundo afora.
Pensei no meu nouveau-richismo…
Nessa mania de achar que o que vem de fora é melhor do que há aqui.
Aos poucos, meus pratinhos foram chegando.
Todos muito parecidos com os da loja franqueada de Nova York.
Mas desencontrados.

Tudo embaralhado, desconjuntado, tudo sem a graça despojada de ser mais um na Grande Maçã.
Pedi a conta, paguei mesmo sem ter recebido a limonada com hortelã.
Observei os vários clientes desapontados com os serviços.
Os alegres que fotografavam rolinhos de canela.

De barriga cheia e com uma fome danada, voltei para casa.

Como posso caber dentro dessa carcaça?

segunda-feira, 2 de abril de 2012

idade

A vida de quem não nasceu dentro de uma tela de TV.

Com meu casaco de couro, confiante no futuro, saí do meu carro esporte e fui fazer hora.
Meia hora adiantada.

Visita a uma amiga e toca o telefone.
Não atendo.
E ele toca.

Sim, poderosa e confiante, você deixou a carteira com centos contos de réis, documentos, vários cartões de crédito, deixou a carteira cair no chão e foi passear.
O rapaz baixo, educado, descobriu um velho cartão de visitas, salvou a carteira e anunciou uma semana de mudanças.

Quase mais enta do que balzaca, temo por mim quando sinto que o corpo que carrrego não sou mais eu.
Tiro com pinça a touceira de cabelos brancos que insiste em crescer e se proliferar da franja para o cocuruto.
Voltei a correr e tenho melhorado a cada semana.
Pena que os habituais 10km agora sejam suados 5.

Hoje, segunda-feira, joguei para o alto a dieta macrobiótica, os conselhos da nutricionista e, num rompante, peguei minha velha caderneta de 20 anos atrás dos Vigilantes do Peso.
Sim, aquela coisa de senhoras rechonchudas que, uma vez a cada sete dias, são humilhadas em público quando alguém diz em voz alta seu peso.
E ainda grita:
– “Engordou de novo. Assim você vai descer a ladeira!”

Ah, quantas ladeiras subi e quantas desci.

Não – não é que queira (apenas) perder peso (embora seja mulher e todas queiram isso mais do que uma boa carreira ou um casamento, não é Matilde?).
Quero método.
Comer bem e moderadamente.
Beber mais e adequadamente.

Não ser aquela menina que agarra o mundo com unhas, dentes, pernas longas e fortes.
Ser aquela senhora que faz tudo isso e ainda rejeita a sobremesa.
Quero zen.
Quero menos.

ono irete
ka ni odoroku ya
fuyu kodachi

Cravando o machado
o perfume causa espanto –
Ah, bosque de inverno.

Yosa Buson (1716–1783)

La chute, la peste et l’homme révolté

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

l’héroïsme est peu de chose, le bonheur plus difficile.
Camus

Eu sou uma menina má e fico boazinha de vez em quando.
E hoje fez sol e um pinguim quando caminha pela cidade é por alguma razão muito séria.
Transformar a serviçal em uma mocinha arrumadinha.
Trabalhar pensando que RH nunca é um departamento respeitado pelo CEO.
Traduzir do inglês para o francês e vice-versa (terrivelmente tabajara).
Ler Camus escondido entre uma reunião e outra – travessura corporativa de quinta.

rugas e tinta ruim

Na praça, a terra cheira a molhado.
No escritório, o carpete novo já tem cara de anos 70. Cafona.
No shopping, além de mim e dos executivos almoçando, prostitutas bonitas – todas amigas do rei.

Eu uso muita roupa preta – inclusive em missas e reveillons.
Perguntaram se tem razão.
Respondi que não conheço pessoa alguma que seja razoável.

Sair por aí chutando pedras e latas com gosto.
Andar para lá e para cá – devagar, com uma postura bem ridícula.
Vagar obrigatoriamente.

Fez sol hoje.
E eu quero frio.
Dia de inverno completo.