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Grande Sertão, Veredas

sábado, 2 de janeiro de 2010

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.DSC_0108

Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.

Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa… O mais difí cil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.

João Guimarães Rosa


Pois meus planos chegaram até Goiás, fizeram uma curva e sumiram. As malas eu fui abrindo, arrumando a coisas e guardando tudo de novo. Para depois abrir mais uma vez. Eu fui saindo da civilização para parar em Minas. De Minas, Brasília. De Brasília, Goiás. Chapada e chuva.

Antes que o ano fosse embora, eu vi que o destino é mais forte. E em veia de cigana corre estrada. É sina.
No meio de um pasto, com boi de todas as cores, voaram duas araras azuis. E não é que também toca celular?

E tome estrada de volta, aeroporto… Eu que já tinha despedido de avião em 2009.
Brasília, chuva.
Belo Horizonte, chuva.
Dormi suada e com a roupa de um dia inteiro.
Cinco horas da manhã, estrada.
Café com leite, maquiagem no banheiro. Biscoito de queijo e pastel de angu.
Tudo para chegar numa cidade tão pequena e tão cheia de terra.
Barão de Cocais. Antes foi São João do Morro Grande.
Fui enterrar meu pai.

DSC_0002Fiquei pensando se escrevia. Se passava essa.
Mas me deu tanta vontade que esse texto tem vindo e voltado desde o dia 29 de dezembro do ano passado.
Um velório de interior num piso com tacos gastos.
Num clube que já não existe mais.
Durante a noite toda, choradeira, bolo, café, pão de queijo.
Água lá fora e aqui dentro.
Tinha gente que entrava para ver corpo.
Tinha doido que encontrava pedaço de bolo e calor.
Eu só cheguei de manhã.
Muita moça velha rezando.
Muito encontro de gente antiga.

Ele estava lá, com a pele amarela, de terno e coberto de flores de plástico.
Contei 13 coroas, depois chegaram mais.
Todas flores de plástico porque lá não nasce delicadeza.

Vi tanta gente de quem não lembro o nome.
Dizem que ele falava de ano novo e rezava uma oitena.
Deu três suspiros e acabou.
No bolso, a foto de um filho e um dinheiro “da sorte”.
A caçula incluiu um desenho.

A matriz ficou lotada.
Teve discurso de vereadora. Do padre que foi colega de seminário. Do primo. Do irmão mais velho.
Três dias de luto oficial.
Era estranho ser olhada, apalpada, e vestir a personagem.
Quando a procissão partiu, caiu uma chuva forte.
Jogaram logo a caixa e cobriram de terra vermelha.
Orgulho de ser “pé-de-pomba”.
Seco e sob chuva.

E o ano novo entrou com mais chuva e com muito tio, primo, galinha, peru, cidra e salpicão.
Foram horas de causos – sem censura.
Muita risada, muita piada. Briga para colocar a mesa.
Gente amontoada em quartos com muito bordado, renda, bibelô, louça antiga, boneca de pano e toalha cheirosa. Broa, biscoito de nata, pão, queijo da roça.

Se eu pudesse mudar tudo e escolher um outro reveillon, eu não mudaria nada.
E confesso sem modéstia o meu orgulho de ser de uma família louca, esbaforida, complicada, faladeira e que tem um talento danado para rir da própria desgraça e fazer de tudo isso uma grande experiência.

Feliz 2010.

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