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Cesaria e Goran

domingo, 16 de janeiro de 2011

ausencia

si asa um tivesse
pa voa na esse distancia
si um gazela um fosse
pa corre sem nem um cansera

anton ja na bo seio
um tava ba manche
e nunca mas ausencia
ta ser nos lema

ma so na pensamento
um ta viaja sem medo
nha liberdade um te’l
e so na nha sonho

na nha sonho mieforte
um tem bo protecao
um te so bo carinho
e bo sorriso

ai solidao to’me
sima sol sozim na ceu
so ta brilha ma ta cega
na se clarao
sem sabe pa onde lumia
pa onde bai
ai solidao e un sina…

Ainda sobre léxico.
Quem disse que as palavras são realmente necessárias?
Nesta vida, depois dos 20, aprende-se que nem tudo é falado.
E que, por isso mesmo, deves tomar muito cuidado com que falas e não fazes.
Por que, com verbo no futuro do pretérito, que ironia, quando falares, não haverá certeza de que um dia se conjugará a vida no presente.

Ausência.

A mesma praça, o mesmo banco

domingo, 16 de janeiro de 2011

O ano começa numa grande expectativa e mostra que nem tudo é renovação.
2010 (lembra?) abriu os serviços com Angra dos Reis desabando sobre cabeça e membros de muita gente. Depois foi a vez do Rio e de Niterói.

Em dezembro passado, um amigo gringo superdesavisado anunciava, feliz, que iria passar o reveillon em alguma cidade do litoral fluminense.
Eu logo joguei um balde de água fria: todo cuidado é pouco!

Nem preciso contar que a virada dele foi debaixo d’água e ninguém imaginava que mais de seiscentas pessoas iriam partir desta para debaixo de lama, sem socorro e sem despedida.

Nossa língua – difícil e muitas vezes maltratada por esta que vos escreve – algumas vezes nos coloca em xeque.
Nascida há cerca de dois mil anos, filha dos povos pré-romanos que habitavam a região ocidental da Península Ibérica, a língua portuguesa virou hit nos séculos XV e XVI quando os reis das piadas de padaria estabeleceram um império que ia do Brasil, na América do Sul, até Goa, na Índia.

Vasta distância, muita gente colonizada, e a língua foi virando uma criolice doida que logo confundiu “x” com “ch”, “s” com “z”.
E é por isso que, hoje, os jornais insistem em culpar o Aquecimento Global pela tragédia.

AQUECIMENTO não, cara pálida, ESQUECIMENTO.

Esquecimento proposital e político porque tirar pobre de beira de rio e de encosta de morro dá um trabalho danado, gera manchetes e imagens de famílias desdentadas chorando e arrastando seus poucos pertences pela telinha superpovoada. Imagens que serão amplamente usadas pelos adversários de urna e que, certamente, inflacionarão o mercado de compra e venda de votos.
ESQUECIMENTO porque desapropriar mansões em área de risco é algo que não se viu na Colônia. Taí a história do ex-governador de Roraima para exemplificar uma questão tão nacional.

Lendo meu jornal paulistano fiquei sabendo que, em Brisbane, na Austrália, onde a enxurrada também mudou a geografia, 25 pessoas morreram e dezenas estão desaparecidas. Alguns tubarões apareceram asfixiados no asfalto. Koalas, cangurus e cobras sobreviventes agora correm risco por não encontrarem água e alimento.
Lá, tenho certeza, o aquecimento global será preso, julgado e condenado.
Aqui, quando não é culpa do povo, que constrói em área de risco, a culpa é de São Pedro.
Claro, ele deve ter alguma coisa com a história, afinal Pedro vem do grego Petrus que significa pedra, rocha. Os católicos aprendem cedo que Jesus, antes de se mandar, deu novo nome ao apóstolo Simão e disse:
-“Pedro, tu és pedra e, sobre esta pedra edificarei minha igreja”.
Pois a culpa não é da região pedregosa, onde a água da chuva não se infiltra e arranca a terra onde estão casas, pessoas, cachorros, cavalos e galinhas – todos irregulares e inconsequentes?
A culpa de São Pedro então está comprovada.

Eu, no meu domingo de sol, acordei revoltada com a irresponsabilidade política, impressionanda com gente que não teve a sorte de ser estilista nem sócio de banco e que perdeu pai, filho, mãe e continua com o pé na lama tirando corpos e salvando gente que há dois dias espera por socorro.
Gente que perdeu tudo e que está em estado de transe, tentando arrancar pedaços de gente da lama.
Gente que, de certa forma, teve alguma sorte de não ser classe alta e que, portanto, não foi amplamente fotografado, falado e comentado enquanto enterrava 2 filhos, a irmã, o cunhado, 4 sobrinhos, mãe e pai.

Este sentimento de impotência, esta vontade de sair gritando, louca, pela rua contra a bazófia, esta vontade de chutar pessoas e de beijar os cachorros, este grito que mora no peito.
Esta dita coragem que me faz seguir em frente mesmo assim.
Este confessionário em berros.
E eu penso: qual é a palavra para “blog” em português?