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Dois mundos

segunda-feira, 11 de março de 2019

Estou em Singapura desde 26 de dezembro de 2017.

440 dias.

Muitas viagens, uma volta ao Brasil. Ondas gigantes de sentimentos indo e vindo com a maré. Marolas de águas quentes me fazendo afundar o pé na areia sem medo.

Nesse período, passei um dia em Amsterdã, alguns em Ho Chi Minh (eterna Saigon), visitei a parte pútrida do delta do Mekong no Vietnã; visitei a parte linda, calma, marrom chocolate no Laos. Templos, feiras-livres. Comi sapos, provei gafanhotos, evitei baratas crocantes. Vi churrasco de cachorro. Entrei em casas cujas configurações jamais passariam pela minha cabeça.,Camboja, Tailândia das praias lindas do sul às montanhas mágicas do Norte. Incenso feito com terra, ervas e mãos grandes de anciãs carecas. Açúcar leve de palma. Pimentas. Dezenas de tipos de gengibre. Híbridos de limão com cidra. Leite de côco.

Quando atravesso oriente e ocidente, minha parada é sempre Istambul. Como manteiga caseira. Pretzel. Pão sem fermento. Dou um braço para não pisar nos Emirados Árabes, um enorme shopping cafona cravado no meio do deserto. Uma ode ao espírito vazio.

Agora, recém chegada de volta a Singapura, com o corpo cheio de sal e a cabeça inundada de tons de azul de Krabi, na Tailândia, procuro pelo meu porteiro.

Meu prédio – creia – não é um condomínio típico de Singapura. Com “apenas” 4 blocos, 2 apartamentos por andar, 42 andares cada, é considerado pequeno. Tem piscina olímpica. E uma meia quadra de de futebol feita de cimento e  habitada por pernilongos, esquilos, lagartixas, passarinhos. Tem jardim com flores. Tem um galo safado que insiste em voar pelo alto do muro. Tem gatos malandros,. Tem tucanos locais com dois bicos. Tem vida.

Os funcionários, finíssimos, sempre dão bom tarde, boa noite, tenha um lindo dia.

Mohammed foi o primeiro a puxar papo. Alto, moreno cor de chocolate meio amargo com um pouquinho de leite, um bigode indiano, alto. Figuraça. Cuida da porta principal – dos carros que entram e das pessoas que chegam à pé.

Adora mexer com as crianças. Leva cones – daqueles, feitos de jornal, ou de cartolina colorida que costumavam carregar amendoim torradinho nos nossos sinais de trânsito brasileiros. Nos cones do Mohammed, ração para as carpas. É que em frente da guarita dele, na entrada caprichada do prédio, há um lindo lago, com ponte, bambus, taboas, e dezenas de carpas. Minhas prediletas são as amarelas cor de gema de ovo. Preguiçosas e gordas, elas se enfileiram na beira do lago para pedir comida para quem quer que passe. As tartarugas e peixões ficam no laguinho do outro lado, vez ou outra os quelônio tomam sol fazendo malabarismo, uma em cima do outro.

Mohammed trocou fotos comigo para compararmos nossa decoração de Natal. Um dia me convidou para jantar. Eu aceitei. Ficamos de marcar. Ele impressionado que eu aceitei, eu abismada que ele convidou. Cheguei a falar disso num dos meus primeiros vídeos: o porteiro que ganha como gente, pode também se sentir cidadão e chamar a pessoa para quem ele presta serviço para dividir um prato de comida.

No meu predio em São Paulo, tínhamos três porteiros: José, Zezinho e Ednilton. O último, chegado numa cachaça, foi demitido depois que deixei o Brasil. Uma pena. Merecia mais atenção médica do que um pé na bunda. Zezinho, o de cabeça-dura e dedo verde, plantou feijões em todo o gramado feio, maltratado que por lá havia. No muro da piscina, colocou maracujazeiro. Ao lado da muda de cerejeira de flor, em plena calçada,  cismou de plantar abacaxi. Com Zezinho plantando, tudo dá.

Antes de eu ir-me embora, fizemos uma feijoada de Natal. Cada vizinho levou um prato de comida. Os feijões orgânicos, plantados por Zezinho, serviram quase 20 famílias. O maracujá virou caipirinha. O abacaxi foi colhido por esses dias. Demorou – e virou atração no Sumarezinho.

À festa de Natal da rua Aimberê, nenhum dos porteiros compareceu. Ficaram encabulados, sentindo-se sem lugar. Penso eu – porque ninguém disse nada, só não apareceram. Comemos o feijão que Zezinho comprou, plantou, cultivou, colheu, debulhou. Zezinho levou uma quentinha.

Hoje, voltando para casa, parei na guarita, deixei a fila de 6 carros ficar impaciente com minha estacionada. Onde anda Mohammed? Tirou férias? Casou? Mudou de emprego?

Mohammed andava sumido. Eu, ocupada. O tempo passou, Mohammed não voltou.

Lembrei da cara de espanto dele quando comecei a jogar cocô de cachorro num latão que fica na saída do prédio. Espanto que virou risada. Demorou meses para a chefe dos funcionários me explicar que o latão é uma fornalha ritual, que as pessoas usam para queimar oferendas, velas e outros objetos sagrados em memória de seus antepassados. Bom, andaram queimando cocô de cachorro por um bom tempo…

Mohammed não vai voltar.

Num domingo, 27 de janeiro, levou um tombo em casa. Bateu a cabeça, fraturou o crânio. Seus inquilinos, preocupados com o silêncio dele em dia de folga, chamaram a polícia.

Quando arrombaram a porta, não havia nada mais a fazer. Mohammed já não mora mais aqui.

E a poesia da minha Lua de Mel com Singapura deu hoje seu último suspiro. Casa nova, país estrangeiro, é tudo como namorado recém-chegado. O fogo dura um tempo bom que parece nunca acabar. Mas acaba. Depois é capinar.

Jasmin-Manga ou Frangipanni

Jasmin-Manga ou Frangipanni

 

Maracujá

quinta-feira, 6 de outubro de 2011
ralo

ralo

Dia diferente – tudo planejado, nada acontecido.
Surpresas e uma mente zen para levar adiante.
Para levantar o astral, sais de maracujá e água bem quente.

Não, não vamos falar do falecido.
Depois que morrem, os moços todos viram santos.

Rindo das pesquisas: eu juro que quero uma novidade.
Só em Sampa somos mais de 600 mil – mais de um quarto da população da capital.
Somos expatriados, exilados, imigrantes.
Somos caipiras e não vivemos sem nosso queijo curado e um bom “cháfé”.
Somos do mundo, Minas Gerais.

De uns tempos para cá, pensei em me mudar.
Risos – você também quer novidade?
Cansada da zona de conforto.
Querendo ver gente diferente.
Curtir um frio de verdade.

Mas o ano logo acaba e eu troco de opinião.
É só esperar que o calor passa.

É…
Eu deveria estar debruçada sobre a matemática financeira.
Mas hoje me rebelei.
Deve ser porque tudo que foi planejado desceu pelo ralo.

Pelas ruas

segunda-feira, 4 de julho de 2011


Carregando mais peso, os passos lentos, o tempo é outro.
Três horas cruzando o país, dois gatos na cabine – nem um miado e uma curiosidade amansada.
“Casa” – um apartamento modernete, dois quartos, dois banheiros, muitos equipamentos eletrônicos, um calor viscoso, janela.
Foram sentir maresia.
Para começar a aclimatar, Olinda.
Comer polvo com leite de coco, ver árvores, sentir o Brasil onde ele é mais português.
De azeites, ladrilhos, cerâmicas, rendas, bacalhau. (um desconhecido francês disse detestar o peixe salgado. Bom mesmo é ter Sarkozy e Dominique Strauss-Kahn no cardápio).

No fim da tarde, enfrentar a multidão na feira de artesanato do Centro de Convenções.
Madeiras, panos, sementes, palhas, literatura de cordel, comidas com nome estranho e gosto familiar – mungunzá; bolo de macaxeira; se der, arrumadinho, e se não der, escondidinho.
Vim para uma semana.
Penso em transformar em duas.
Deixar São Paulo, reuniões, médicos, aulas para a terceira idade, pó de obra, empregada nova – deixar tudo o que é realidade para trás.
Café da “Mére”?
Tapioca com queijo coalho, mungunzá, chá de manga, maracujá e laranja e meio mamão para rebater.

Às vezes penso que só mesmo complicando primeiro é que desembaraçamos os desvios por completo.