Posts com a Tag ‘mudança’

Amanhã

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Sarjeta

Penso no Obelix e me pergunto se também cai em algum caldeirão.

Não, a roupa é de ginástica, mas não serviu para nada.
Fui para o escritório assim, fantasiada de atleta.
Coisas de quem corre sem sair da esteira.
Esteira?

De tarde, desmarquei a hora mais esperada.
Corri para receber a moça grávida que não planejou nada e, agora, quer casa.
Casa?

Há dois dias estudo o Rio.
Rio, rio de tudo tão impossível.
Casa? Corra, corra!

Amanhã farei uma bela pose.
Falarei com toda propriedade.
Mostrarei dotes.
Farei olhos de nuvem.

Rio?
Antes vagabunda no Bar da Lagoa, hoje soberba pensando em casa.
Casa?

Rio, o que aconteceu com suas noites ásperas e tão baratas?
Com seus Jardins nada Europeus?
Com seus preços camaradas, com a praia misturada?

Amanhã irei para a forca.
Rio.

(rio)

Vidro azul

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Equanto o mundo aspira futebol, estou aqui com meu vidrinho azul.
Lembrança de uma Dubai mais fria que a morte.
Ora misturo com gelo e tudo fica branco.
Ora vai puro mesmo.
Fico circulando pelos mesmos sites.
Vejo meus livros – limpos, imaculados e intocados.
Tudo tão igual e minhas horas cada vez mais curtas.
Dizem que, quando você vai virar outra coisa, é assim mesmo.

Cabeceira

Capítulo 27: alô

quinta-feira, 14 de junho de 2012

holla, que tal

E ela atendeu o telefone.
Seguiu as instruções, não discutiu a proposta, fez o que seu mestre mandou.

(fez o jogo e se calou)

Sua vida então mudou.
Não voltou mais ao velho apartamento.
Hoje vive num vão livre brutalista.
Tem 4 escudeiras fiéis e bem pagas.
Na decoração, poucos objetos.
Usa roupas simples.
Viaja menos e com mais emoção.

Sorri – com e sem motivo.

O tal telefonema?
Ah… Pergunte para o Snoopy.

Capítulo 20

terça-feira, 22 de maio de 2012

Fechou a porta apressada.
O vôo sairia em 3 horas e ela ainda teria que enfrentar o trânsito para chegar ao aeroporto.
Engraçado como a mala estava vazia.
Antes, sempre carregando um mundo feito caramujo, agora, sem muito o que arrastar.
Fazia calor por lá.
O inverno, quando chegasse, seria de escuridão.
No caminho, nervosa e cada vez mais atrasada, ia pensando em sua primeira viagem.
O aperto no peito quando, uma hora e meia depois de decolar, pensou que não conhecia a cidade.
Não conhecia as ruas, as comidas, as pessoas.
Onde chegaria?
Teria onde morar?
Mudaria seu jeito? Seu sotaque?
Como não pensara no perigo que é não ter amarras.

Desta vez, havia pesquisado tudo.
Sabia até o nome do café mais popular.
Levaria os bichos.
Poucas roupas, poucos objetos. Tudo muito programado.

No meio do caminho, falou alto: “- Estúpida.”
Era mais uma daquelas viagens que começam do ponto zero.
Construir todo um universo de novo.
Reinventar a personagem.
Tentar sobreviver.

Sentiu aquele velho aperto no peito.

O taxista ligou o rádio e um som alto de pagode inundou o carro.

Como posso caber dentro dessa carcaça?

segunda-feira, 2 de abril de 2012

idade

A vida de quem não nasceu dentro de uma tela de TV.

Com meu casaco de couro, confiante no futuro, saí do meu carro esporte e fui fazer hora.
Meia hora adiantada.

Visita a uma amiga e toca o telefone.
Não atendo.
E ele toca.

Sim, poderosa e confiante, você deixou a carteira com centos contos de réis, documentos, vários cartões de crédito, deixou a carteira cair no chão e foi passear.
O rapaz baixo, educado, descobriu um velho cartão de visitas, salvou a carteira e anunciou uma semana de mudanças.

Quase mais enta do que balzaca, temo por mim quando sinto que o corpo que carrrego não sou mais eu.
Tiro com pinça a touceira de cabelos brancos que insiste em crescer e se proliferar da franja para o cocuruto.
Voltei a correr e tenho melhorado a cada semana.
Pena que os habituais 10km agora sejam suados 5.

Hoje, segunda-feira, joguei para o alto a dieta macrobiótica, os conselhos da nutricionista e, num rompante, peguei minha velha caderneta de 20 anos atrás dos Vigilantes do Peso.
Sim, aquela coisa de senhoras rechonchudas que, uma vez a cada sete dias, são humilhadas em público quando alguém diz em voz alta seu peso.
E ainda grita:
– “Engordou de novo. Assim você vai descer a ladeira!”

Ah, quantas ladeiras subi e quantas desci.

Não – não é que queira (apenas) perder peso (embora seja mulher e todas queiram isso mais do que uma boa carreira ou um casamento, não é Matilde?).
Quero método.
Comer bem e moderadamente.
Beber mais e adequadamente.

Não ser aquela menina que agarra o mundo com unhas, dentes, pernas longas e fortes.
Ser aquela senhora que faz tudo isso e ainda rejeita a sobremesa.
Quero zen.
Quero menos.

ono irete
ka ni odoroku ya
fuyu kodachi

Cravando o machado
o perfume causa espanto –
Ah, bosque de inverno.

Yosa Buson (1716–1783)

Aquecimento

quinta-feira, 15 de março de 2012

ratatá

Sair por aí com pressa e a cabeça voando.
Recitando baixinho os velhos versos.
Sem a menor perspectiva e com mil coisas imaginadas.
Acreditando que tudo vai dar certo.

Disse meu guru de banca de jornal que as coisas não vão mudar sozinhas, pois, apesar de eu receber uma boa onda do destino, também vou ter de tomar iniciativas.
Não diga, amado mestre.
Eu quero é substância.
Porque partir para cima sempre foi a minha.

O fato é que ando contando com o incerto.
Tudo bem.

Uma viagem sem rumo.
Uma pessoa.
Um esbarrão.

Hoje olhei no espelho e me (re)conheci.
Por isso estou assim, meio besta.

Gostei do que vi.

Brutalista

quarta-feira, 7 de março de 2012

Quand le monde sera réduit en un seul bois noir pour nos quatre yeux étonnés, – en une plage pour deux enfants fidèles, – en une maison musicale pour notre claire sympathie, – je vous trouverai.

Arthur Rimbaud

É inevitável passar noites em claro em fases como esta.

E ficar menos produtiva pois a cabeça voa…
E o que seria de mentes interessantes se não tivessem um curto circuito vez ou outra?

Hoje madruguei e acordei com Paulo Mendes da Rocha.
Brutalista na alma.
Querendo mergulhar numa piscina negra modernista e sair mais Ana Pessoa.

Vamos mudar tudo?
Marretar paredes, excluir portas, abrir janelas?
Sair com terno de linho para tomar uma branquinha antes do meio dia?

Atolar-nos em dívidas ricas.
Vamos virar tudo do avesso só para ver o que acontece?

Intenso nas profundezas.
Duro como concreto.
Sem medo.
Sem nada.

Será que o blog vai mudar de nome?
Afinal, queridos, eu tenho quase 37.
Quem sabe: “Passei dos 30 a 200km/h?”

A tal da energia

terça-feira, 6 de março de 2012

em construção

Sim, esse é um daqueles posts que não combinam bem com isto aqui.

Eu, em momento de fim de ciclo e mudanças necessárias, cismei que iria deixar o meu lindo apartamento na Vila Madalena.
11 anos de luta, companheiro – e de festas sem censura, babe.

Saí por aí com mil corretores, a descobrir como o meu cantinho antes (muito) pé sujo e (um tanto) hippie ficou nouveau riche, supervalorizado.
Não, nada disso me fez gostar menos da Vila Madalena.
Se os tempos, as pessoas, se tudo muda, o bairro mais carioca de São Paulo não haveria de escapar.
E, sim, continuo amando as praças, as árvores, os sabiás, a bagunça colorida, os altos e baixos que lembram o mineiríssimo Santo Antônio.

Andei tanto, perguntei à vera e, fina ironia, descobri que a casa da frente está a venda.
Entrei, vi uma coisa e imaginei mil outras.
Janelas gigantes, vista do alto.
No lugar de um quintal com caco de azulejos, jardim com chuveirão, grama, ervas aromáticas.
Fechei negócio.

Mas e o dinheiro?
Corrida maluca para colocar o apartamento a venda.
Preciso logo aumentar a minha própria renda.

Como em filme americano, deixei o ambiente cheiroso e mais lindinho para atrair copradores.
Quase montei uma banca de limonada…
Ontem de manhã, o primeiro casal.
A dupla veio cedo, voltou de tarde.
Vendido. (Ou apalavrado)

Assim, no primeiro lance.
E você não acredita que, às vezes, o universo conspira?

Futurologia furada

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ontem à noite, liguei para uma astróloga para saber o que vem por aí.

Urano ainda bagunça meu coreto: vira tudo de pernas para o ar, manda eu fazer coisas que jamais faria e tal e coisa.
Junho do ano que vem é período fértil para projetos e outros quetais – a astróloga, empolgadíssima e eu já pensando em jogar sal na Terra.

Talvez seja hora de virar uma menina boa, uma mãe exemplar, uma funcionária de carreira ou virar do avesso mesmo.
E ligar para minha gerente do banco e pedir para ela cravar uma previsão para 2012.

(Risos)

Para quem está no Brasil, dia de muito sol e uma chuva falsa.
Pouco tempo, muita coisa, e uma semana que voa.
Os passarinhos, não vi.
Eles também não me procuraram.

Fechada por um gigantesco caminhão de mudança, pensei: isso é um sinal.
O caminhão me fez perder dez minutos do dia – e a cuca foi longe: afinal, quem não está “de mudança”?
Por isso, muletinhas simpáticas: smartphones, tablets, pagers, cigarros, unas copas e óculos de sol bem grandes para ficarmos escondidinhos do real.
Tudo misturado e para ontem para não pensarmos no hoje.
E embolar o meio de campo para fugir do que interessa.

Decidida a não perder os tais dez minutos, acenei para o motorista do caminhão, fechei os olhos, liguei na rádio USP e o que tocava?
Bach, A Arte da Fuga

E você vem com essa de me chamar de lugar comum…

Voltando à ativa

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

descalça

Depois de milhares de emails, de uma temporada hospitalar e de agradecer ao cara que inventou a analgesia aos 7cm do último tempo, bora acordar para a vida?
Saber que tudo continua e você não pode parar.
Saber que vai ter que trabalhar para chegar ao que era antes – e nem é tanto assim e dá trabalho.
Rodar pelas ruas e avenidas e pensar em novos caminhos.
Ter que lidar com a vil realidade.
Ter que lidar com a falta dela.
Ser você e ter muito mais responsabilidade – mesmo sendo você.
Ser assim.
E ser assado.
Pensar e repensar.
Descobrir que agora não sois mais aquele.
E encontrar em você uma calma tão rara.
Nem choros nem gritos te comovem.
Nem aquela pessoa que nasceu para ser infeliz.
A vida é assim pequenininha.
E vamos tecendo nossas teinhas de aranha-aprendiz.
Para saber que água, o vento e a terra hão de desfazer o seu tricô.
E ninguém saberá que a pequena aranha existiu.
Nem vão ver a teia mal tecida que foi o que melhor que você já fez.

E tudo porque é impossível reinventar rodas.