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Calor de Bagdá

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Uma boa pedida

Enquanto o mundo dava voltas, fugi da rotina.
Laboratório e parque.
Alice me esperou no carro enquanto me espetavam mais uma vez.
Alice é uma cadela muito fina.
Acho que eu não educaria um filho melhor do que essa vira-lata.

E fomos as duas para nosso habitat natural de quando ela era um bebê-cachorro.
Parque Villa-Lobos.

Sol escaldante.
Coloquei um protetor gosmento francês que ganhei de amostra-grátis na farmácia porque o produto vai vencer em abril e pé no asfalto.
Demos uma volta só.
Parei no buraco da minha amiga corujinha e me preocupei.
Havia muitas penas do lado de fora.
Espero que nenhum gato tenha feito um estrago.

Alice não entendeu o passeio.
Sempre demos duas voltas correndo.
Desta vez, uma só e caminhando.
Ela pediu arrego antes de mim.
E eu achei uma maravilha poder ir ao parque às 10h30 da manhã enquanto o mundo leva uma vida séria dentro dos escritórios.
Que sol.

Levei Murakami para passear.
Almocei salada com hortelã.
Assisti “The Kids are All Right” – recomendo.
E estamos todos aqui no chão da sala, eu, o gato, a cadela, com as janelas escancaradas e sem conseguir dormir.

O ruim de morar em apartamento é não poder tomar uma ducha de cajueiro.
O bom de tirar um dia para si, é não fazer simplesmente nada produtivo e se sentir absolutamente feliz.

E que venha a quinta-feira.

Leituras de domingo

domingo, 30 de janeiro de 2011

Estou em Belo Horizonte por um motivo principal: meu avô comemora hoje 90 anos.
Meu avô foi médico por obrigação (acho que nunca clinicou e trabalhou como sanitarista), fazendeiro por paixão e hoje é uma criança grande.
Passa os dias desenhando, colorindo, vendo gravuras.
Ele está inteiro, a cabeça funcionando, argumentação nota 10, continua sintonizado na TV francesa e lendo seu Estadão diário.
Mas desconectou-se do mundo prático (contas, administração da casa, etc) e vive assim, de poesia.
Pode parecer triste, afinal, a velhice deixa as pessoas de certa forma menores, frágeis, expostas.
Mas eu acho sublime.
Aos 90, penso que a morte nos visita a todo minuto e só conseguimos nos concentrar no que realmente nos interessa.
No caso dele, as artes.

Ontem decidi o que fazer com o corpo da Mafaldinha.
Fiquei arrastando correntes pelo vento.
Só viveu 12 anos, sofreu muito, que tristeza, blablablá.
O que vou fazer?
Como o corpinho do Bibi teve outro destino, pensei em fazer algo para me despedir dos dois.
Daí a contratacão de uma empresa – coisas que, imagino, só existam em São Paulo – especializada em cremação de animais de estimação.
O que vou fazer com as cinzas?
Não sei.

Bom, esse preâmbulo sem lé com cré é para chegar aqui.
Como acho que estou terminando essa fase gigante de transição, minha mãe saiu comprando livros que me fizessem entender minha própria miséria.

corridas e outros domingos

(Se você não tem mãe jovem e doutora que agora estuda filosofia e teologia, talvez não entenda esse método de alento materno)
“The Diaries of Adam and Eve”, de Mark Twain, comecei a ler ontem.
E Adão já aparece danado com aquela mulher que resolve colocar nome em tudo.
E admirado.
O livro, considerado por muitos, a melhor obra de Mark Twain é de uma inteligência – e consequente ironia para tratar de um tema tão complicado – que chega a ser pesado.

Hoje, deixei de lado a questão de gênero e me atirei num Murakami.
Não um dos clássicos, mas o revelador “Do que eu falo quando eu falo de corrida”.
Se você pensa que este é um livro (chato) para maratonistas, esqueça.
É um livro sobre quem já fez a transição e, agora, começa a olhar para trás e entender.
Um livro para tratar de perseverança.

Estou aqui, de camisola, numa sacada de classe média alta com vista para as montanhas e as favelas, mergulhada nas descobertas de um corredor solitário que teve a obra traduzida em 38 idiomas e ganhou o prêmio Franz Kafka.
Pensando nos passos que já começaram a se desenhar – é uma pena eu não poder compartilhar com vocês duas mudanças fortes na minha vida.
Pensando no que ficou para trás e como me construí apesar disso.

Estou atrasada para a festa do vovô.
Por que tudo o que penso em escrever acaba sendo melhor do que o que realmente escrevo?