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Sapatos perdidos e coisas pequenas

sexta-feira, 22 de julho de 2011

pão australiano, manteiga goiana, bolo de milho de Gravatá, bolo de abacaxi da Carmen

Eu ando por aí e, vez ou outra, encontro um pé de sapato perdido pela rua.
O de hoje, de boneca tamanho 36, carmesim e em ótimas condições.
Procurei o outro par…
Nada.
O que terá acontecido a esta Cinderela?
Príncipe relapso… Nem para guardar e anunciar para o mundo que só se casará com a dona do rasteiro vermelhinho?

Enquanto pensava no pisante, passei o dia entre malas, confusões no cartão de crédito – essa viajação não me deixa tonta e detectei entre Apples, passeios e comidas uma rara contribuição para um site de relacionamento sueco.
Poxa, hacker bandido e descarado, eu jamais gastaria mi plata com louras suecas! Nem cervejas de falsas checas.

Minha mala verde que saiu de uma nevasca americana e aportou perdida em Dubai saiu do armário com livros, biquinis tamanho M-G, e uma saudade dessa casa que já não é a minha.
Numa rápida conversa com a empregada, novidades de lá.
Um técnico liga para avisar que mudou o ponto do telefone, da TV, da internet.
Um excesso de coisas ainda não guardadas.
E eu pensando em coisas mínimas sensacionais.
Cereja marrasquino, olhos azuis passeando no Leblon, minhas antigas moradas que hoje vivem na minha caixola.

Ouvindo o novo Chico, babando pela nova namorada. Ele é tão feliz com ela.
O dia voa – ela não acorda.
Nasci velha – o meu dia sempre voou – mesmo quando eu tinha cabelos vermelhos como o sapato da Cinderela.

Impurezas

domingo, 17 de abril de 2011

Texto muito bom o do Ferreira Gullar hoje, na Folha.
Como sempre, o que é bom, é pago: só para assinantes.
Se você é, leia: Tragédia em Realengo.

Por aqui, minha vidinha suja de sempre.
Ontem comprei o ingresso e não fui ao teatro.
Antes, encontro com amigos mineiros que há muito não via.
Tanto não via que um casal não se lembrava mais da minha pessoa – que engraçado e constrangedor.
É que eu mudei e vou continuar mudando, eles, talvez, não.

Neste encontro, fiz das minhas, levei uma amiga de outras praias.
Sempre faço isso – misturo tudo.
Pobres moças impuras que empilham os pecados na prateleira da banheira.

Um velho conhecido dos tempos de outplacement aparece afoito.
Email, telefone, mensagem até no Linkedin.
O que ele quer não vou dar porque não quero.
Mas meu instinto de sobrevivência profissional e uma mineirice irritante – que acolhe a todos – fazem com que eu não ignore o chamado.

Por falar em mineirice, recebo notícias daquele moço rico e perdido que foi preso por supostamente matar a namorada grávida.
Novela das sete?
O moço foi casado com uma ex-amiga, bêbada, feia, complexada e que eu abandonei porque não gosto de gente que usa drogas.
Fiquei pensando – cheia de maldade – seria o moço rico perdido pior do que a moça rica complexada?
Sei lá – esse não é meu universo.

Meu universo é dos problemas do cotidiano, não dos épicos com um ego descomunal – drogas, dinheiro, carreira.
Meu universo é do motoqueiro que bateu no meu carro, do gatinho resgatado de uma vala na favela de Paraisópolis que, depois de dois meses de tratamentos contra um protozoário violento, veio parar em casa com 36 pulgas.
Eu fiz tudo errado: coloquei o veneno na nuca, tranquei num quarto cheio de conforto, fui ver os amigos no restaurante argentino e, ao voltar, cancelei o teatro e dei banho no gato. Era para ser ao contrário: dar banho no gato, trancar os amigos num quarto e aplicar veneno de pulga em todo mundo no teatro.
Precisei de pinça para arrancar as pulgas que se agarravam ao felino como muita gente ao passado.
Ele gritava, esperneava e eu esfregava e pinicava.
No golpe final, o secador.
Ele se acomodou, vencido, entre minhas pernas.
E eu ia aquecendo o pequeno e encontrando novas pulgas perdidas.
Hoje de manhã, duas mortas e envenenadas jaziam na almofada onde ele dormiu.
Aparentemente a colônia foi exterminada.

A vida curta das pulgas de favela.
O momento errado de adotar um gato paulista.
A mesquinhez humana ao saber da tragédia dos outros.

Um sábado quente e tão intenso.

Hoje é domingo. Dia de ler todos os jornais, rolar na cama gigante com um gato velho.
Comer Waffle belga às 10h.
Sonhar com Ferreira Gullar e seu saudoso Gatinho.