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Matei Bin Laden e não mostro a foto

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A garotada hoje engravida e vai logo pedindo aos assessores de imprensa que redijam notas: “vou assumir a minha responsabilidade”.
E alguns colunistas de futebol e cronistas de rapina aplaudem no ato: o garoto virou homem.
Meninos, o garoto vira homem?
Não precisa “virar homem” o garoto que usa preservativo e não só não engravida a parceira como não leva doenças para casa.
Vira homem o garoto que passou de 21, 25, formou-se na faculdade e não ficou na aba do papai.
Tem gente que, com 30, não só vive mamando como ainda leva agregados para lavarem roupa em casa, para papai e mamãe darem comida e ainda espera que os coitados comprem apartamento para ele finalmente se emancipar!
Tenho que dizer: ouvir seu companheiro anunciar que vai assumir a responsabilidade parece aquela sonora/depoimento que todos nós jornalistas já flagramos na porta da delegacia:
– Fui eu que matei. Agora vou pagar pelo meu crime.
Santa cara de pau do agreste de Itapipoca.

Ando amarga?
Sei lá…
Ando pensando que, de um lado, temos meninos que nada ganharam da vida e que ralam bonito para conseguir um pouquinho mais.
Hoje, em meu MBA chiquérrimo e internacional, ouvi a história do moço que era filho de pai pobre marceneiro no sul e que hoje é dono do próprio negócio.
Conheci o menino de Santarém que demora 3, 4 dias para chegar nas obras da empresa da família porque não há avião ou carro que o levem.
E o que passa 200 dias do ano dentro de uma plataforma de petróleo comandando centenas de trabalhadores.

Aí li que o filho do Eike sofreu por ser gordo na adolescência.
E que pilota um BMW de quase um milhão de reais e acaba de comprar um Aston Martin com a própria grana.
Que própria grana?
E menino de 19 anos tem lá própria grana?
Ele que caia na real: a maioria das empresas do grupo EBX, do bilionário Eike Batista, teve prejuízos no primeiro trimestre.
Jorginho Guinle foi o profeta desse apocalipse…

Brasil, querido, hoje ando Rodrigueana.
Se pudesse seria a grã-fina que grita no Maracanã:
– Mas quem é a bola? Quem é ela?

Eu sei

sábado, 24 de abril de 2010

Do lado direito, Ana Pessoa a caminho do aeroporto

A vida na telinha é muito mais bacana.

Esse blog, por exemplo, é muito provavelmente uma cópia baratinha de uma série sem muita audiência de uma TV da América Latina. As histórias tentam sempre acabar “para cima”. Mas não escondem aquele exagero latino – com drama, cor e nonsense.

Eu, por exemplo, estou pagando a língua e o cartão de crédito por ter ousado pensar em voltar na Executiva nessa última viagem.
Pensei, reservei e iria perguntar no balcão. Viajei, ainda não paguei e o caso virou tema de auditoria. Ai, como é duro nascer na Classe B e ter cara de Classe C. Nem pensou, já está errado com direito a reprimenda.

Hoje, pleno sábado de sol, tive que deixar dois leitores/colaboradores de fora da “minha” revista – seria minha se não tivesse uma “arte” tão complicada e com tantas vontades que não têm nada a ver com um produto feito para ser bonito e vender. Vira egotrip e falta de traquejo social. Explico a puxada de tapete: o tema que era “casamento americano” descambou para uma velhusquice de “renda”. E aí a crônica com história e a bolsa descolada ficaram “too much” para essa edição. Sarah e Leo, estou devendo várias para vocês. E estou com vergonha. Mas foi-se o tempo que editor era chefe…

Na real, a gente faz cara de paisagem e finge que “la vita è molto bella”.
Aqui, por exemplo, só o lado rosa. As fotos, escolhidas, as histórias, editadas.
Não preciso repetir que ainda não dormi o que o corpo pede. Que ando adiando decisões de vida por puro medo e uma grande dose de preguiça.
fim de carreira, aqui vou euQue gastei 250 paus para fazer pé e mão e dar uma hidratada no cabelo.
Mas a foto ao lado é a própria ressurreição de Nelson Rodrigues, meu líder espiritual.
Onde se vê viagens para lugares inusitados e vida “loca”, leia-se falta de rumo e um exibicionismo visceral.
Onde o cabelo desalinha e a noite promete, leia-se “Facebook e hoje, assim como ontem, fiquei com sono”.
Neste sábado promissor, não fui dançar música cubana, não aproveitei o visual “saidinha do salão” para agitar por aí (com a barriga para dentro).
Esquentei a sopa de mandioquinha congelada (8 minutos e um twist de sal marinho), tomei o vinho que abri ontem – portanto estava com a temperatura abaixo do ideal e mostra que poderia ter deixado para lá.
Porque ter mais de 30 e 5 é um porre muitas vezes.
Sem o pique de quem tem a vida toda para errar.
Sem a garra para brigar até o último minuto.
Sem coragem para começar tudo de novo.
E meio de saco cheio para quem tem vinte e acha que sabe tudo ou que tem tempo para dúvida.

Andam dizendo que estou meio sem humor. Justo eu!
Nelson, meu pai, ajude-me.

Peguei meu conselheiro – tomo 4 da coleção da Cia. das Letras – e eis que ele me escreve:

“Somos burros, burríssimos.

… se o diáfano espectro de Maria Stuart virou crioulo, há de ter sussurrado: – Vá jogar assim no raio que o parta!
Mas eu dizia que toda a cidade parou. As nossas madames Bovary, as nossas Anas Karêninas suspenderam seus amores e seus pecados, das três às seis. Os bandidos do Leblon não assaltaram senhoras nem crianças.
(…)
Ontem ninguém era credor nem devedor.
Éramos apenas brasileiros, da cabeça aos sapatos. No centro da cidade, durante o jogo e depois do jogo, toda a cidade se inundou de papel picado. Chovia tudo das sacadas. Quando Garrincha fez o segundo gol, até papel higiênico foi atirado das janelas altas. Mas a nação inteira crispou-se de sonho.
Doce escrete do Brasil! Nós o malhamos, aqui, como se ele fosse um judas de sábado de Aleluia. O Maracanã, o Morumbi, o Pacaembu e o Mineirão vaiaram seus craques. E, assim humilhada e assim ofendida, partiu um dia a seleção nacional. Partiu para a gigantesca jornada do Tri. E aconteceu o milagre: a distância aproximou o escrete do povo. Sim, o exílio deu-nos a verdadeira imagem do time brasileiro.”

De duas, uma: ou vou jogar futebol, ou atiro papel higiênico da janela.

Canto I Do Inferno

Um ano de blog

terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Abaixo a censura!
Escolha a arma!

Descobri Nelson Rodrigues com 17 anos. E que idade perfeita para ler um rebelde ousado, irônico, polêmico – um adulto com picardia adolescente.

Esse blog nasceu rodrigueano em vários pontos. Menos sexista que Nelson, porém borderliner e boca frouxa (intencional) como ele. Logo nos primeiros dias, ele teve uma visitação louca. Como era estréia, demorei a perceber: é que a firma estava lendo meu “diário”. A briga por uma cadeira, as fofocas de corredor. Foi tamanho o Ibope que o blog virou tema de discussão interna séria e parou quando o CEO mandou deixar para lá. Uma sorte de principiante que valeu mais que champagne quebrada em inauguração de transatlântico.

Ao longo do tempo, o blog foi adquirindo vida própria, parceiros de países estrangeiros (veja só!), publicou as palavras de quem está do outro lado do oceano, de quem vive no Rio, em Niterói, de quem traduz do alemão direto para o português. Ele ganhou uma espécie de redação informal – mais um pouco e vai ter que registrar, recolher INSS e FGTS.

Apesar das aventuras, ele se manteve pequeno na medida. Não virou estrela, não ganhou a plebe e, desta maneira, garantiu uma certa liberdade. E foi que foi: perdeu a melhor amiga. Expôs algumas bebedeiras. Arriscou contar os bastidores da Vênus Platinada. Levou o Bluebus para dentro de casa. É um blog muito autêntico e meia-boca como deve ser.

Quando o vejo ameaçado de censura, as personagens de Nelson saem das catacumbas e vêm correndo  acudir. Em tempos de Flamengo campeão nacional, a história: junto com o irmão, o jornalista Mário Filho (para quem não sabe, o verdadeiro nome do estádio Maracanã), Nelson foi fundamental para o sucesso e a fama de clássico do FlaFlu. Para isso, criou personagens fictícias como Gravatinha e Sobrenatural de Almeida. Sem contar a grã-fina das narinas de cadáver sempre a perguntar: “quem é a bola?”. Em outros casos, fora do futebol, evocava Palhares – o canalha -, ou  a freira de minissaia.

A cabra tem talento para arquitetura

A cabra tem talento para arquitetura

Hoje, quem me apareceu foi a cabra vadia. Segundo Nelson, as entrevistas com personalidades costumam ser todas vazias.  Somente numa entrevista imaginária, num terreno baldio, em presença de uma cabra vadia, a celebridade falaria o que realmente sente. Pois não é que a cabra veio, e, aqui, ao meu lado, come um pedaço do carpete novo? O terreno baldio fica na esquina. Em dia de chuva, a cabra não quer descer os mais de trinta andares de escada. Elevador nem pensar.  Ela come o carpete e quase ninguém nota.

Inspirada pela presença da cabra, tomei as decisões de fim de ano. E, por causa dela, digo e repito: aqui nesse blog, tudo o que se escreve tem um fundo de verdade. Cabe ao leitor – que, se garantir um QI de ameba, não precisa de auxílio técnico – separar o joio do trigo. E seja o que ele decifrar, desde que se dirija diretamente ao guichê do blog, assino embaixo. Explicitar o óbvio ululante é método.  É a lei da gravidade.

Para comemorar um ano de blog (completado em novembro), frases escolhidas de Nelson (ousam os brasileiros a compará-lo com Eça):

Acho a liberdade mais importante que o pão.

O cretino fundamental é aquele que tenta deturpar o óbvio ululante.

O Ser Humano, tal como imaginamos, não existe.

Não há mulher bonita feliz.

Só os imbecis têm medo do ridículo.

Não há normalidade que resista a um olhar do avesso.

Amar é ser fiel a quem te trai.

Há em qualquer brasileiro, uma alma de cachorro de batalhão. Passa o batalhão e o cachorro vai atrás. Do mesmo modo, o brasileiro adere a qualquer passeata. Aí está um traço do caráter nacional. (vale para outros povos latinos que o momento me impede de explicitar)

O brasileiro é um feriado.

Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.

Toda unanimidade é burra.

Não há nada que fazer pelo ser humano:o homem já fracassou.

Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.

Um povo que ri da própria desgraça pode ser miserável. Mas jamais derrotado.

…e, então, aquele sujeito que, há 500 mil anos, limitava-se a babar na gravata, passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente etc. houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas.

Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.

Qualquer indivíduo é mais importante que toda a Via Láctea.

O mundo é a casa errada do homem. Um simples resfriado que a gente tem, um golpe de ar, provam que o mundo é um péssimo anfitrião. O mundo não quer nada com o homem, daí as chuvas, o calor, as enchentes e toda sorte de problemas que o homem encontra para a sua acomodação, que aliás, nunca se verificou. O homem deveria ter nascido no Paraíso.

É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez.

O povo é um débil mental. Digo isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e assim será, eternamente.