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Umbigo enterrado

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Fazenda do Pará

Ao lado de onde estamos na velha fotografia havia uma enorme castanheira.
Dela, delícias pequeninas do Pará.
Horas incansáveis de buscas entre folhas, terra e gravetos.
Tec, tac, tec.
Pedras para quebrar a casca.

O curral.
Ainda ouço bezerros aos berros.
Mães que enchiam tinas respondem com caaaaaalma.
Tomar o leite ainda quente e misturar um pouco de açúcar cristal na espuma densa.
Conhaque, espuma e leite gordo.

Suco de folha colorida.
Borboleta 89.
Contar bichos de pé.
Raspar casca de canela.

Meu avô tem hoje 90 anos.
Falo com ele todas as semanas.
Para eu voltar a vê-lo em carne, osso, pescoço e poesia faltam alguns aeroportos e quase dois meses.
Enquanto isso, matamos saudades em telefonemas aos domingos.

Deve ser grande saber-se pequeno com tanta estrada.

Carne, osso e yoga

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

sem photoshop

Há mais ou menos 7 anos comecei a fazer yoga.
Três motivos:
1 – Estava (e ainda está) na moda;
2 – Minha mãe praticava e ficou gatona;
3 – Havia um estúdio distante 3 quarteirões da minha casa.
Ou seja: funciona, é cult e dava para ir a pé.

Comecei com aquele jeito crítico que me é habitual, encarando os colegas como um bando de hippies de boutique, cheios de guéri-guéris yogísticos (tapetinho colorido, roupichas, prendedores de cabelo)… Ah! Todo mundo rico e planejando passar uma temporada na Índia!
Eu resolvi botar para quebrar.
Vou mostrar para essa mauriçada o que é uma hiperdistensão aguda!

Eu, que tenho um alongamento fora do comum, fui logo querendo a medalha de ouro.
Mas a yoga me deu um ippon.

A aula era de Astanga Yoga de Mysore.
Esse é um estilo de yoga que apresenta uma série de posturas / asanas que você vai, aos poucos, fazendo sozinho.
O seu “mestre” vai te mostrar que além da postura, você tem que trabalhar um número certo de Vinyasas, uma combinação de respiração e bandhas para fortalecer a energia (prana) e fluir com sincronia de asana para asana.
Não entendeu nada?
Vamos em frente.

Postura B

Um dia, minha professora me ajudou a fazer Marichyasana, quatro posturas de torção.
(Não fique achando que eu sei tudo não porque estou colando do meu livro).
Você tem que controlar a respiração.
O corpo fica quente.
Aos poucos, a coluna se alonga.
A mão segura o pé.
É chato porque a barriga pula para fora.
Não dá para disfarçar.
Dói. Incomoda.
Você cruza as mãos nas costas.
E quando está todo enrolado, torcido, dolorido, tem que ficar um tempo ali.

Simplesmente não dá para pensar na briga em casa.
Na conta do cartão de crédito.
Nas sacanagem da firma…
É respirar, concentrar, tentar.
E ganir por dentro.

Pavoa misteriosa que sou, fui com tudo.
Torci até onde conseguia.
Fingi que achava minha pança cool e joguei as banhas para o lado.
Respirei. Meu corpo virou uma caldeira.
Respirei.
Terminei… E meu intestino disse “olá”.
Sorte que o banheiro estava a poucos passos – passos que percorri para bater o recorde de 100m rasos.

Pode rir – foi engraçado mesmo.
E contrangedor…
Não menos do que a má alimentação que me deu uma bela pança; do que o amor que morreu porque não foi cultivado, a conta que é paga com o trabalho, trabalho aquele que não resolve tudo.

A minha cabeça dura não me deixou aprender que a yoga não é uma ginástica.
É uma forma oriental de tentar nos fazer conectar corpo e mente. Espírito. Você com você.

Todos temos limitações.
Entender que um dia é diferente do outro é difícil.
Seu corpo sabe.
Sua cabeça engana, finge esquecer.

Ontem eu fiz minha primeira aula de yoga depois de cinco anos diletante.
Cinco anos intensos, os mais vividos dos meus 35.

Esse 2010 tem sido danado de profundo para mim.
Da perda do meu pai em dezembro e tudo o que isso significa a dois dias do ano começar, à troca de emprego, passando por uma volta ao mundo, mais um pedido de demissão, uma terapia intensiva em Paris e uma nova volta ao mundo (ao meu mundo), fui largando pedaços, perdendo e ganhando histórias, jogando pérolas aos porcos, batendo e tomando – não nessa ordem.

Diletante.
Você sabe o que é?
Entre outros significados, diz-se daquele que mantém uma atitude imatura, de amador, em relação a normas de ordem intelectual ou espiritual.

houve num inverno um café chamado Borges

2010 veio com tudo.
Veio duro.
Veio para abrir caminhos no facão.
Já que não aprendi com a yoga…

E hoje numa entrevista de pré-emprego (não me faça pergunta difícil), a conversa desviou de caminho, saiu da pauta e eu comecei a ouvir o que eu estava falando e não mais aquele mantra me contrata.
Um balanço.
De quando eu resolvi tomar as rédeas e o cavalo desembestou.
Porque eu não sei tudo e a vida pode, sim, ser imprevisível.
Mesmo que você siga direitinho a série, respire no tempo certo, agradeça. Shanti.

Peguei o carro, voltei para casa, tomei um banho.
Li um recado esperado – daqueles que colocam os pingos nos is e tchau.
Chorei baixinho.

Eu queria só saber se um mestre de yoga fala palavrão de vez em quando.