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Eu sei

sábado, 24 de abril de 2010

Do lado direito, Ana Pessoa a caminho do aeroporto

A vida na telinha é muito mais bacana.

Esse blog, por exemplo, é muito provavelmente uma cópia baratinha de uma série sem muita audiência de uma TV da América Latina. As histórias tentam sempre acabar “para cima”. Mas não escondem aquele exagero latino – com drama, cor e nonsense.

Eu, por exemplo, estou pagando a língua e o cartão de crédito por ter ousado pensar em voltar na Executiva nessa última viagem.
Pensei, reservei e iria perguntar no balcão. Viajei, ainda não paguei e o caso virou tema de auditoria. Ai, como é duro nascer na Classe B e ter cara de Classe C. Nem pensou, já está errado com direito a reprimenda.

Hoje, pleno sábado de sol, tive que deixar dois leitores/colaboradores de fora da “minha” revista – seria minha se não tivesse uma “arte” tão complicada e com tantas vontades que não têm nada a ver com um produto feito para ser bonito e vender. Vira egotrip e falta de traquejo social. Explico a puxada de tapete: o tema que era “casamento americano” descambou para uma velhusquice de “renda”. E aí a crônica com história e a bolsa descolada ficaram “too much” para essa edição. Sarah e Leo, estou devendo várias para vocês. E estou com vergonha. Mas foi-se o tempo que editor era chefe…

Na real, a gente faz cara de paisagem e finge que “la vita è molto bella”.
Aqui, por exemplo, só o lado rosa. As fotos, escolhidas, as histórias, editadas.
Não preciso repetir que ainda não dormi o que o corpo pede. Que ando adiando decisões de vida por puro medo e uma grande dose de preguiça.
fim de carreira, aqui vou euQue gastei 250 paus para fazer pé e mão e dar uma hidratada no cabelo.
Mas a foto ao lado é a própria ressurreição de Nelson Rodrigues, meu líder espiritual.
Onde se vê viagens para lugares inusitados e vida “loca”, leia-se falta de rumo e um exibicionismo visceral.
Onde o cabelo desalinha e a noite promete, leia-se “Facebook e hoje, assim como ontem, fiquei com sono”.
Neste sábado promissor, não fui dançar música cubana, não aproveitei o visual “saidinha do salão” para agitar por aí (com a barriga para dentro).
Esquentei a sopa de mandioquinha congelada (8 minutos e um twist de sal marinho), tomei o vinho que abri ontem – portanto estava com a temperatura abaixo do ideal e mostra que poderia ter deixado para lá.
Porque ter mais de 30 e 5 é um porre muitas vezes.
Sem o pique de quem tem a vida toda para errar.
Sem a garra para brigar até o último minuto.
Sem coragem para começar tudo de novo.
E meio de saco cheio para quem tem vinte e acha que sabe tudo ou que tem tempo para dúvida.

Andam dizendo que estou meio sem humor. Justo eu!
Nelson, meu pai, ajude-me.

Peguei meu conselheiro – tomo 4 da coleção da Cia. das Letras – e eis que ele me escreve:

“Somos burros, burríssimos.

… se o diáfano espectro de Maria Stuart virou crioulo, há de ter sussurrado: – Vá jogar assim no raio que o parta!
Mas eu dizia que toda a cidade parou. As nossas madames Bovary, as nossas Anas Karêninas suspenderam seus amores e seus pecados, das três às seis. Os bandidos do Leblon não assaltaram senhoras nem crianças.
(…)
Ontem ninguém era credor nem devedor.
Éramos apenas brasileiros, da cabeça aos sapatos. No centro da cidade, durante o jogo e depois do jogo, toda a cidade se inundou de papel picado. Chovia tudo das sacadas. Quando Garrincha fez o segundo gol, até papel higiênico foi atirado das janelas altas. Mas a nação inteira crispou-se de sonho.
Doce escrete do Brasil! Nós o malhamos, aqui, como se ele fosse um judas de sábado de Aleluia. O Maracanã, o Morumbi, o Pacaembu e o Mineirão vaiaram seus craques. E, assim humilhada e assim ofendida, partiu um dia a seleção nacional. Partiu para a gigantesca jornada do Tri. E aconteceu o milagre: a distância aproximou o escrete do povo. Sim, o exílio deu-nos a verdadeira imagem do time brasileiro.”

De duas, uma: ou vou jogar futebol, ou atiro papel higiênico da janela.

Canto I Do Inferno