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Bumaiê

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Nocked out

Eu não sei qual é a sensação de um caminhão passando por cima.
Mas eu sei o que é ser nocauteado todos os dias por dois anos seguidos.

A primeira vez, inconseqüentemente, você se levanta assim que abre os olhos.
As pernas, pura manteiga.
O sangue escorrendo e formando rios pelo nariz, entre os lábios, descendo pelo pescoço.
Os cabelos sujos e colados nas têmporas.

No dia seguinte, você se levanta mais rápido.
Urra por dentro, mas ainda se segura em pé.

Ao final de um mês…
Você nem abre os olhos mais.
Fica ali, deitado, esperando o zumbido no ouvido deixar de ser um iiiiiiiiiiiiiiiih contínuo.

Depois de um ano.
Você sabe que vai acordar e POW!
Um soco vai te derrubar, você vai ficar estendido no chão meio zonzo, vai sentir um gosto metálico de sangue na boca…
Uma ducha, um band aid, e dia que segue.

Hoje, pouco mais de dois anos se passaram. Você escova os dentes, coloca um pijama velho que anda meio apertado…
Escovando os dentes antes de dormir, surpresa: o supercílio ferido denuncia o golpe.
E você percebe, pela última vez, que um dia acordou e foi a nocaute.

Indolor.
Apenas mais um dia.

(A partir de amanhã, nem os socos te acordarão. Muito menos a memória)

O amolador

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Avô, pai, filho

Em seu roteiro, Vila Romana, Lapa, Pompéia.
Ironia do destino, carregava a bicicleta por toda a cidade mas nunca tivera coragem de se aventurar sobre rodas.
Herança de família.

O avô rodava a cidade com sandálias de tira de couro. E gritava alto para chamar os clientes.
Quando o filho casou, juntou todas as economias, tomou um empréstimo com o agiota do bairro e deu a bicicleta.
Foi por causa dela que morreu – dois assaltantes, quatro punhos, quatro patas.
Caído no chão, chutado, usou o apito recém comprado. O socorro chegou tarde.

Quando fez 15 anos, dois presentes: a bicicleta do pai e o ofício do avô.
Amolador de facas.

Hoje cedo aproveitou o sol, o céu.
Passou pelo casal que, diferente dele, acordara tarde.
Roupas esportivas.
– Chame no 72 em cinco minutos. É um conjunto.

Quatro reais por peça. 6 com cabo de madrepérola.
Em casa, tinha colheres, garfos – vários de plástico, recolhidas pelas ruas, lixeiras de lanchonete.
E uma faca – faca de serra.
Impossível de amolar.

Dias depois, nos jornais, na TV, em todo lugar.
Empurrando a bicicleta, não soube de nada.
Gira mundo e não enxerga ao seu redor.

Dizem que foi pacto.
Crime premeditado.
Usaram facas afiadas, trazidas da África.

A mancha marrom de sangue coagulado nunca mais saiu do assoalho.