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Idas e vindas

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Pedras

Quanto mais me ausento, mais escrevo – e não publico.
Minhas viagens, antes longas, loucas, alucinadas, hoje parcas, curtas, densas.
Tensas.
Lentas.
Hoje tenho muito pouco tempo.
Faço tanto.
Corro com ritmo.
Minhas rugas, meus pouquíssimos fios brancos – vão chegando e eu, gostando.

Subi a escada de azulejos portugueses (espanhóis?) no Cosme Velho.
Vi os micos.
Sabiás.
Entrei numa paisagem que começou no século passado.
Aspirei os ares de nova vida.
Senti-me muito bem ali, em meio ao caos do que ainda não foi parido.
E que tanto promete.

Promessas.
Gosto de tudo o que não é.
Ainda.
Gosto dos causos.
Da areia que arranha meus pés e me afunda.
Gosto de ser carregada com a maré.
Água gelada.

Mesmo quando não termina bem.
O que me move é a história.
E se termina bem?
Vou com a maré…
Navego.

Umbigo enterrado

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Fazenda do Pará

Ao lado de onde estamos na velha fotografia havia uma enorme castanheira.
Dela, delícias pequeninas do Pará.
Horas incansáveis de buscas entre folhas, terra e gravetos.
Tec, tac, tec.
Pedras para quebrar a casca.

O curral.
Ainda ouço bezerros aos berros.
Mães que enchiam tinas respondem com caaaaaalma.
Tomar o leite ainda quente e misturar um pouco de açúcar cristal na espuma densa.
Conhaque, espuma e leite gordo.

Suco de folha colorida.
Borboleta 89.
Contar bichos de pé.
Raspar casca de canela.

Meu avô tem hoje 90 anos.
Falo com ele todas as semanas.
Para eu voltar a vê-lo em carne, osso, pescoço e poesia faltam alguns aeroportos e quase dois meses.
Enquanto isso, matamos saudades em telefonemas aos domingos.

Deve ser grande saber-se pequeno com tanta estrada.

A mesma praça, o mesmo banco

domingo, 16 de janeiro de 2011

O ano começa numa grande expectativa e mostra que nem tudo é renovação.
2010 (lembra?) abriu os serviços com Angra dos Reis desabando sobre cabeça e membros de muita gente. Depois foi a vez do Rio e de Niterói.

Em dezembro passado, um amigo gringo superdesavisado anunciava, feliz, que iria passar o reveillon em alguma cidade do litoral fluminense.
Eu logo joguei um balde de água fria: todo cuidado é pouco!

Nem preciso contar que a virada dele foi debaixo d’água e ninguém imaginava que mais de seiscentas pessoas iriam partir desta para debaixo de lama, sem socorro e sem despedida.

Nossa língua – difícil e muitas vezes maltratada por esta que vos escreve – algumas vezes nos coloca em xeque.
Nascida há cerca de dois mil anos, filha dos povos pré-romanos que habitavam a região ocidental da Península Ibérica, a língua portuguesa virou hit nos séculos XV e XVI quando os reis das piadas de padaria estabeleceram um império que ia do Brasil, na América do Sul, até Goa, na Índia.

Vasta distância, muita gente colonizada, e a língua foi virando uma criolice doida que logo confundiu “x” com “ch”, “s” com “z”.
E é por isso que, hoje, os jornais insistem em culpar o Aquecimento Global pela tragédia.

AQUECIMENTO não, cara pálida, ESQUECIMENTO.

Esquecimento proposital e político porque tirar pobre de beira de rio e de encosta de morro dá um trabalho danado, gera manchetes e imagens de famílias desdentadas chorando e arrastando seus poucos pertences pela telinha superpovoada. Imagens que serão amplamente usadas pelos adversários de urna e que, certamente, inflacionarão o mercado de compra e venda de votos.
ESQUECIMENTO porque desapropriar mansões em área de risco é algo que não se viu na Colônia. Taí a história do ex-governador de Roraima para exemplificar uma questão tão nacional.

Lendo meu jornal paulistano fiquei sabendo que, em Brisbane, na Austrália, onde a enxurrada também mudou a geografia, 25 pessoas morreram e dezenas estão desaparecidas. Alguns tubarões apareceram asfixiados no asfalto. Koalas, cangurus e cobras sobreviventes agora correm risco por não encontrarem água e alimento.
Lá, tenho certeza, o aquecimento global será preso, julgado e condenado.
Aqui, quando não é culpa do povo, que constrói em área de risco, a culpa é de São Pedro.
Claro, ele deve ter alguma coisa com a história, afinal Pedro vem do grego Petrus que significa pedra, rocha. Os católicos aprendem cedo que Jesus, antes de se mandar, deu novo nome ao apóstolo Simão e disse:
-“Pedro, tu és pedra e, sobre esta pedra edificarei minha igreja”.
Pois a culpa não é da região pedregosa, onde a água da chuva não se infiltra e arranca a terra onde estão casas, pessoas, cachorros, cavalos e galinhas – todos irregulares e inconsequentes?
A culpa de São Pedro então está comprovada.

Eu, no meu domingo de sol, acordei revoltada com a irresponsabilidade política, impressionanda com gente que não teve a sorte de ser estilista nem sócio de banco e que perdeu pai, filho, mãe e continua com o pé na lama tirando corpos e salvando gente que há dois dias espera por socorro.
Gente que perdeu tudo e que está em estado de transe, tentando arrancar pedaços de gente da lama.
Gente que, de certa forma, teve alguma sorte de não ser classe alta e que, portanto, não foi amplamente fotografado, falado e comentado enquanto enterrava 2 filhos, a irmã, o cunhado, 4 sobrinhos, mãe e pai.

Este sentimento de impotência, esta vontade de sair gritando, louca, pela rua contra a bazófia, esta vontade de chutar pessoas e de beijar os cachorros, este grito que mora no peito.
Esta dita coragem que me faz seguir em frente mesmo assim.
Este confessionário em berros.
E eu penso: qual é a palavra para “blog” em português?