Posts com a Tag ‘platão’

do gên. Micrurus, da fam. dos elapídeos

segunda-feira, 23 de novembro de 2009


Pavonice parece nome de caipira.
“Pavonice Santos e Silva”.

A pavonice sempre esteve em alta.
Desde os tempos de Platão (olha a minha exibição de fasianídeo).
As moças ainda hoje são criadas para exercê-la até encontrar a cara-metade.
Depois que têm casa, chuto um número: cerca de 40% deixam a vaidade de lado.
Pode ser um tipo de libertação.

No Brasil, temos um presidente-pavão.
O fato de não saber absolutamente do que está falando (e pior, fazendo) não o atrapalha em nada.
Aliás, os homens têm a pavonice em outro nível.
São pavo cristatus, aqueles que “erguem e abrem em leque a longa cauda com plumas de um verde iridescente e caprichosos ocelos”.
Ocelos (físicos e materiais), de conquistas várias e, quando dão azar, de narciso.

Os feios e feias sempre me encantaram.
Há que se ter talento desde que Vinícius condenou aquelas que não têm graça.
Ser feio – isso sim é uma verdadeira libertação.
Andar sem muletas.

Na sociedade do hiperconsumo, alimentos para fazer nutrir a pavonice se vendem em frascos.
Mas os laboratórios ainda não acertaram a fórmula.
Os efeitos colaterais são uma loucura.
Os peitos crescem até ficarem anti-naturais. O queixo, medo, ganha um furo.
Os dentes brancos de colgate bilham enquanto o nariz arrebita.
E todo mundo, claro, nasceu para aparecer na TV.

Quem me acompanha por aqui, sabe que tenho uma certa experiência. Risos.
Já prevendo o nariz (pontudinho) torcido, dou minha opinião.
Dois terços dos pavões da caixinha mágica são menos ilustrados do que o presidente brasileiro.
E que sucesso!
Ganham dinheiro com isso.
Há que se ter outros talentos… E uma cara de pau daquelas!

Hoje estou chovendo no molhado, eu sei.
Mas deu vontade.
Tudo porque completo uma semana de dolce far niente.
E, nessas condições, perco o prumo.

Esse post veio para dizer que a vida de pavão-do-mato nos condenou.
Estamos todos em busca de aprovação.
Pavão nenhum abre o leque em vão.

O blog é um meio do caminho.
Tem algo de privado e algo de público.
Quem disse que um blog diz verdades?
Ou será um experimento?
Ele tem alguma obrigação?
Este aqui, não.
Ele é um laboratório. E eu sempre quis ser cientista…

O fato é que não me sinto confortável num palco.
Mas gosto de provocar.
Então o blog tem um quê de autotortura e, ao mesmo tempo, de petulância.
Pavão às avessas.
Pavão sem plumas.
Com cara de peru de Ação de Graças.

domingo, 15 de março de 2009

entrelesmurs

Ontem li e gostei desse post no Twitter:

Brilliant essay on this by M. Gladwell http://bit.ly/dLd7 RT @claudiamm37 you begin to lose yourself the moment you begin to concentrate.
2:44 AM Mar 14th from web

Numa tradução livre, você começa a perder o seu eu no momento em que você começa a se concentrar.

A concentração começa assim: você vai para a escola.
Lá, aprende o que precisa para se integrar e, se tudo der certo, virar um vencedor na sociedade.
Falar palavrão é feio.
Seja agradável e sociável.
Principalmente, você a prende a obedecer.

A família te ensina a se encaixar – a entrar na caixa do que é aceitável. E, quase sempre, torce pelo seu sucesso (leia-se ter uma profissão, casar, comprar muitos bens – a casa, o carro -, reproduzir, morrer).
A escola te forma. Bota na forma.
Pronto para ter o mínimo necessário para enfrentar a selva de pedra.

E você tem esse foco: vencer.

Mas o foco, às vezes, fica embaçado.
Você se formou em medicina.
Mas gosta mesmo é de música.
Quando sai de um show, pensa em como teria sido a vida se…
Tivesse trocado os livros pelo violão.
Mas você nunca vai concretizar isso.
Então vai a shows e conforta essa vontade musical que ficou esquecida em alguma sinapse cerebral.

Ontem vi o filme do poster acima.
A história não vou contar. Vá ao cinema porque vale a pena ver.
Na Oprah (sim, eu vejo Oprah), Sean Penn – meio bêbado, meio sonado – falou na manhã seguinte ao Oscar que Entre les murs esse é um filme como ele não via há tempos. Um filme completo, que tem tudo. Documentário, política, ficção, incômodo.

Penn, o diretor e o elenco do filme em Cannes

Penn, o diretor e o elenco do filme em Cannes

O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes. O júri era dirigido por Penn.
Concorreu ao Oscar e não levou. É claro. É óbvio.

O professor se questiona: o que estou fazendo?
Ensinando? Podando? Conformando?
Os alunos, numa turma multicultural, também fazem perguntas.
E confrontam o mundo como deveria ser do mundo que é.
O modelo ideal versus a realidade.

Estudante de direito eu li A República, de Platão.
Mas não entendi nada.
Não tive a maturidade.

Ora, estabelecemos, e repetimos muitas vezes, se bem te recordas, que cada um deve ocupar-se na cidade de uma única tarefa, aquela para qual é melhor dotado por natureza
Platão, A República, livro IV

“A República” (Politéia), foi escrita entre 380 e 370 a.C., quando Platão tinha mais de 50 anos.

No livro, o cenário onde o reunião acontece é a casa de um homem rico, o velho Céfalo, que põe o salão à disposição dos intelectuais, políticos e artistas para discutirem filosofia e assuntos gerais. Participam Sócrates, os filhos do dono da casa, Polemarco, Lísias e Eutiderno, Timeu, Crítias e Trasímaco.
O debate busca determinar como constituir uma sociedade justa.
Como tal não existe na realidade, os participantes se dispõe a imaginá-la, bem como determinar sua organização, governo e a qualidade dos governantes.
Para Platão, a educação (paidéia) seria o ponto de partida e principal instrumento de seleção e avaliação das aptidões de cada um.

Alma = apetite + coragem + razão

Sendo a alma humana (psikê) um composto de três partes: o apetite, a coragem e a razão.
Todos nascem com essa combinação, só que uma delas predomina sobre as demais.
Se alguém deixa envolver-se apenas pelas impressões geradas pelas sensações motivadas pelo apetite, termina pertencendo às classes inferiores.
Por outro lado, se manifesta um espírito corajoso e resoluto, seguramente irá fazer parte da classe dos guardiões, dos soldados, responsáveis pela segurança da coletividade e pelas guerras. Se o indivíduo se deixa guiar pela sabedoria e pela razão é obvio que apresenta as melhores condições para participar dos setores dirigentes dessa almejada sociedade.

Justiça

Desta forma, com cada indivíduo ocupando o espaço que lhe é devido, a justiça está feita.
A Justiça (dikê), para ele, seria a necessidade de que cada um reconheça o seu lugar na sociedade segundo a natureza das coisas e não tente ocupar o espaço que pertence a outro.

Crítica

Aristóteles, discípulo de Platão, questionou: a cidade é a “unidade da multiplicidade”, composta de pequenos grupos e pessoas que são distintas umas das outras e que fazem questão de manifestar abertamente a sua distinção.
Na cidade ninguém quer parecer-se com o outro.
Seria, então, antinatural exigir uma uniformização ou padronização total, como sugerem os moldes platônicos.
Para Aristóteles, a tese de entregar o poder apenas a um segmento da sociedade era contradizer a vocação essencial da cidade, que é ser regida por leis comuns a todos e não apenas por um setor dela, por mais qualificado que o governante pudesse ser.

A(s) pergunta(s) que ficou(aram) para mim – e que anda indo e vindo há anos – é (são):

– Faço o que quero?

Faço o que gosto, uso minhas aptidões?
Até onde vão os estragos produzidos pela família e pela escola e até onde influenciaram minhas decisões?
Há como fugir disso?
Um dia me realizarei?

Platão escreveu A República já maduro.
Eu tenho um longo caminho para soltar as amarras de 34 anos seguindo a cartilha.
Mas dei o primeiro passo. Tomei consciência.
E preciso reler A República.