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Caçamba

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Meu prédio contratou serviço de caçamba para se livrar de coisas antigas e inúteis.
Azulejos de 1975, gaiolas, portas empenadas…
Vidros, latas, madeiras, aparelhos que nem o Exército da Salvação quis levar embora.
Um sem número de coisas estocadas há anos sem a menor serventia.
Acúmulo.
Vontade de prender o tempo em gavetas.
Necessidade de agarrar coisas para segurar ventos.

Ontem saí de casa e vi um homem.
Magro, baixo, pardo.
Entrou na caçamba, separou madeiras de outros objetos.
Tirou pregos, selecionou pedaços.
Encheu a carroça.
Foi embora.

Hoje os porteiros jogaram mais coisas na caçamba.
Latões, quadros velhos, brinquedos faltando pedaço.
Vieram dois homens.
Enquanto o primeiro retirava pedaços desencontrados,
o segundo esperava por sua vez.

Uma caçamba com guardados de décadas.
R$270,00 para nos livrarmos do passado.
3 homens, uma nação e nenhum futuro.

passado

Sobre o teatro

segunda-feira, 25 de abril de 2011

 

O gato preto cruza seu caminho

Buenos Aires anda mais pobre e fazendo arte como nunca.
Livrarias e Feira do Livro com filas de dobrar o quarteirão.
Zoológico caindo aos pedaços e com brasileiros cheios de opinião.
Circuito broadway porteño lotado de peças, musicais, dramas e comédias.
Assisti uma releitura do teatro de revista. Muita nudez, os corpos em mutação… Vedetes musculosas, peitos explodindo. Homens minguadinhos.
Cenário e figurinos com custo zero.
Coreografias que deixariam Madonna de queixo caído.
Comédia?
Aqui, rir de si mesmo é profissão remunerada.
A verborragia e o gestual frenético me encantam.

Os dois lados da moeda – riqueza e pobreza – saltam aos olhos.
Num asado com algumas das maiores fortunas do país, simplicidade pois não é tempo de exibição.
Pelas ruas, o melhor que se pode fazer com dólar a 4 por 1 é jogar um brilho nos tecidos.

E eu fico me perguntando por que prefiro essa cidade a Recife.
Síndrome de cão vagabundo ou rebeldia?
Memorias del subdesarrollo.

Balança mais não cai

terça-feira, 28 de julho de 2009
Humor, pelo menos na legenda!

Humor, pelo menos na legenda!

Esse ano estou sentindo o peso da velheira.

Engordei +/- 5 kg (em um ano) que não consigo perder.
Esqueço as palavras (como o título genial que tinha bolado para esse post).
Tenho dor nas costas com frequência. (E olha que – até o ano passado – eu corria no parque 5 dias por semana, média de 7k / este ano, baixei para dois dias de corrida na esteira + 4 aulas de pilates e 2 de meia hora de abdominal).
Estou ficando mais paciente.
Estou ficando menos ambiciosa – embora ainda tenha o nariz arrebitado que me traz tantos problemas.

Então, uma idéia fixa me pegou.
Tentar melhorar em pequenas coisas do meu cotidiano.
Tenho que confessar que essa é uma (talvez a única) seqüela do sequestro-relâmpago.

Desque fiz as contas com o bandido (e provei para ele que fazer sequestros era péssimo negócio), comecei a olhar os pobres nos olhos.
Não é clichê não.
A violência, a pobreza, a desigualdade são tamanhas (no Brasil e no mundo) que a gente vai ficando cego para isso. A gente simplesmente não vê.
E desde o sequestro insisto em ver. Afinal, acho que foi o que me salvou. Ficar calma. Falar com os caras.

Olho o mendigo, o pedinte, o menino pobre, o catador de latinhas nos olhos.
Para alguns – contrariando todas as teorias – dou dinheiro.
Para outros, digo que não tenho – e abro a janela do carro para falar. Também contrariando a tudo e todos.
E, claro, procuro os meus sequestradores nesse povo.
Se eu achar, denuncio. Paradoxal, não?

E tenho feito – mentalmente – algumas listinhas.
Tenho que parar de comer porcarias. Se já estou assim agora, imagina em 10 anos.
Tenho que aumentar o salário da Antônia (fazer uma poupança para ela + pagar um plano de saúde).
Tenho que poupar para mim.
Tenho que fazer um plano-velheira (um depósito asilo na Argentina com direito a dois potes de doce de leite por semana).
Tenho que dar bom dia para todos que encontro, todos os dias.
Tenho que dar uma força para os porteiros. O que trabalha domingo já está ganhando almoço bacana. Mas não prometi nada – pois não se pode prometer o que não se pode cumprir (e não fiz as contas para saber se posso bancar o almoço de domingo).
Tenho que saber cobrar mais caro pelo meu trabalho.
Tenho que ajudar mais quem me pede ajuda. Muita gente pede emprego – eu sempre atendo, dou retorno. Mas confesso que ainda apago os emails que chegam com Currículos. Acho que o approach tem que ser outro.
Tenho que pensar a sério no porquê de não querer ter filho.
Tenho que ter coragem de deixar para trás as coisas que não quero mais.
Tenho que aprender a me concentrar nas coisas que interessam. Ontem vi um documentário sobre o Ayrton Senna (peguei um pedaço no GNT, fiz beicinho e acabei vendo até o fim).

Nuno e Senna em treinamento

Nuno e Senna em treinamento

Nuno Cobra, o famoso preparador físico do piloto contou que Senna era pura concentração. Que, num dia de corrida, ele só ouvia o barulho do ronco do motor do carro dele. Não ouvia os cartolas, os engenheiros, os colegas de equipe. E só via o carro e o circuito. Passava o cuircuito mentalmente na cabeça. Várias vezes.

Sobre Senna, um capítulo a parte. Lembram quando ele contou que “sentiu” Deus ao vencer o primeiro campeonato? Que teria sentido algo maior e teria saído do corpo durante a corrida?
Pois eu achava isso tudo muito ridículo, e não me comovi com a morte do Senna. Achei um saco. Imagina, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, tivemos uma semana de debate… Que perda de tempo, pensava.
Mas ontem o documentário me tocou.
O menino rico e vitorioso. Que batalhou para estar no pódio. Que abdicou de muitas benesses advindas do dinheiro para estar ali.
Quando morreu, a surpresa: Senna tinha um super projeto social, mas nunca falou disso, nunca colocou a boca na mídia.
Foi um moço bom.
O Senna foi um de nossos maiores heróis.

Enfim, o que admirei foi a concentração, o foco.
Nem as brigas com os colegas – e a pressão enorme – o dominaram.

Enfim, preciso de mais foco.
Chega do tudo ao mesmo tempo agora.
Engraçado é que o Senna morreu com a minha idade.