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Sobre queijos e pombos

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Cartaz da prefeitura

Alguém me explica por que o teclado europeu é completamente diferente do americano (vulgo nosso)?
Os poucos minutos que consigo ter acesso a um computador na Sorbonne, eu fico catando milho nesse teclado europeu…
O mundo conspira para eu me desconectar mais vezes…

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Hoje foi pancadão…
Depois de dormir cinco horas – gastei boa parte do meu domingo comendo verbos, advérbios, pronomes…
Essa manhã-tarde foi prova na veia.
A hora de ver se a grana que investi em mim mesma vai ter retorno.
Eu sei que alguns mais íntimos vão torcer o nariz, mas tenho que me elogiar.
Sexta-feira fiz prova de fonética. Não pense que é baba…
É difícil pacas…
Você sabia que existem sílabas orais, ligações consonantais, ligações obrigatórias… e por aí vai?
Pois tirei 8 em 10 com direito a elogio da professora.
Segundo ela, minha pronúncia é (quase) fluente e (algo) elegante.
Devo agradecer à champagne de champagne, bien sûr, e ao vinho de Cassis (fica entre Marseille e Toulon) – eu recomendo o rosé La Ferme Blanche geladinho. Somente o álcool destrava a língua com tanta eficiência e graça!

Viva o álcool francês engarrafado na própria vinícola. Viva o solo estrangeiro!

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Esta manhã, prova de gramática.
Não foi fácil… Confesso que ainda não estou à vontade, mas começo a entender o uso das danadas das flexões.
E fiz a prova com segurança de quem “deu de si”: sou o próprio jogador da segunda divisão rezando para alguém da primeira dar sopa do tipo quebrar a perna.

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Depois de tanta ralação, culinária francesa e causos.

Na estação, atrasada, com calor e aflita… Quase chuto uma pomba!
Detalhe: a estação Vavin tem dois andares de subsolo…
Manca como um palhaço de desenho animado.
Levando susto com os trens que chegavam e os que partiam, mas não deixando de procurar uma migalhinha de qualquer coisa.
Uma pomba.

Ao sair da estação, calculei: foram 3 minutos de túnel… como a pomba entrou?
Na certa ela tem Carte Navigo e pega o metrô sempre naquela hora.
Acabei me lembrando do cara que mora na estação Place Monge.

Todo dia, eu chego às 8h da matina e ele está lá, dormindo na mesma cadeira.
Tem uma mochilinha bem vazia e mais nada.
Algumas vezes, quando meu trem chega, ele sai do sono e sorri para os passantes.

Sorrir é um alimento tão poderoso quanto o pão.

Sorrir quebra muita gente.
E dizem que faz chorar.

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Compradas num estabelecimento de 1825

Queijo. Acabo de comer uma maravilha de outro planeta!
Anote, compre e viaje comigo.
Tomme Noire des Pyrénées. Que queijo incrível, que loucura!
Parece um queijo minas mais caprichado.
Com um pedaço de pão. E o banquete está pronto.
Ai, o chèvre do almoço…

E flores – cravos e flores do campo frescas para amigos que aqui moraram, moram e para o Brasil voltarão.
Um dia.
Esse mundo muito grande que faz a gente andar para lá e para cá como bois de Poty numa página de Guimarães Rosa.

Eu sou aquele da ponta esquerda. Mete a cara e esconde o corpo atrás da boiada.

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A outra pomba…
Estava morta no chão, ao lado de uma poça d’água.
Pobre pomba morta numa calçada.

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E mais tarde… a pomba intelectual vou sobre os livros na Fnac…
Subsolo do shopping na Place Italie. Foram atrás dela.
Ela levantou a poeira – ou você acha que limpam o alto das prateleiras?
Voou pelos caixas e sumiu.
Espero que não tenham matado.
Uma pomba dessas merece respeito.

Literatura

domingo, 31 de janeiro de 2010

Deus nos dá pessoas e coisas,vidaroda
para aprendermos a alegria…
Depois, retoma coisas e pessoas
para ver se já somos capazes da alegria
sozinhos…”

João Guimarães Rosa

João criou Riobaldo e colocou as palavras na boca dele. Riobaldo falou e as palavras ganharam vida, vida que Riobaldo não teve.

Eu não acredito em coincidências, só em brujas. Mas o fato é que gostei de ver a frase usada por mais gentes que encerraram hoje seu 2009. Muitas vezes a religião não consegue trazer conforto. E daí que a literatura é tiro e queda. É que nem pedir um copinho lagoinha com uma branquinha. Ninguém tem nada a ver com isso… E você sai zerado do bar*.

Guimarães para mim tem três passagens (entre várias, porque Diadorim, o burrinho pedrês, o vau da sarapalha e tantos outros vêm e vão o tempo todo, enchem a casa de mato). A primeira foi Buriti. O livro de 1961 foi meu predileto do vestibular. Não teve para Machado nem Ana Cristina César. Muito menos para o próprio Guimarães em obras passadas. E ver recentemente o Palácio do Buriti em Brasília, com o Buriti solitário no espelho d’água… Isso sim é arte… A segunda é dupla. A descoberta de Grande Sertão, Veredas. Ler devagar, de trás para frente, frente para trás. Acelerar quando o sono aperta. Voltar a ler para pegar tudo de novo. Ler com dificuldade, passar o que não entende como quando estudo francês.

E aí, cara dura que sou, ao conversar com uma colega da Veja que tinha acabado de fechar uma página sobre Poty, pedi o telefone do artista. Liguei para ele em Curitiba. Expliquei que meu avô era fazendeiro de Minas. E que admirava muito o trabalho dele. Perguntei se uma gravura saía muito caro. Ele cobrou 240 reais (uma passagem SP-BH). Mandei (por malote) o cheque. Ele devolveu um envelopão. Não era gravura, era um desenho feito com caneta hidrocor em papel cartão neutro. Desenho mesmo. Era o cavaleiro tocando os bois que Poty fez para ilustrar Sagarana. Fiquei até com dó de dar de Natal para meu avô… Mas dei. Hoje é um quadro emoldurado na fazenda predileta dele. Toda vez que penso no futuro, disputo esse quadro com os herdeiros. Esse quadro é dele, mas volta para mim – nem que eu mate quem tentar levar.

A terceira passagem foi agora com a perda do meu João. Ai, esses Joões. Mineiros, interioranos e cardíacos.

Como não piso mais lá, Drummond me acode:

“Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?”

Agora vamos às coincidências.
Trabalhei com a neta de João. Neta bastarda (diziam em voz baixa e maliciosa – só porque o avô era famoso e ela, chata). O fato de ela ser neta da amante não a deixava muito relaxada para falar do avô… Ah se fosse MEU avô…

Mas a vida é assim. As pessoas criam casa de caramujo e de lá não saem. São cheias de certo e errado, cheias de não-me-toques.

Precisam de mais literatura e de um jogo completo de copos lagoinha. E do telefone do Poty no céu.

“Se você escolheu o caminho, não pode recusar a travessia.”

* Sobre o bar, o post é outro