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Capítulo 13 – Pausas e Partidas

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Acordou cedo – nunca passava das 7h.
Fazia frio e chovia.
Era bom sair com calça, blusa, colete, malha, sobretudo, meias de lã, sapato com sola emborrachada.
Com tanta roupa, a individualidade quase desaparecia.

Decidiu deixar o carro em casa.
O trânsito estaria caótico.
Enfrentar o transporte público com o olhar de quem não é passageiro cotidiano.
Ver as pessoas apressadas.
Tentar adivinhar a música que toca no iPod da vizinha de cadeira.
Dar lugar para uma moça cheia de sacolas.
Sentir o vagão tremer a cada curva.

Começou a olhar os sapatos.
Trabalhadores têm sapatos gastos.
Olhou para as próprias pernas.
A calça preta de tecido tecnológico.
Não molha, não amassa, não perde a cor.
Distraiu-se…

Foi quando tentou levantar a perna que notou.
Os dois pés estavam presos no solo.
Fincados, cimentados.
Quando queria se movimentar, era o chão que mexia.
A calçada toda corria para a frente ou para trás, como as esteiras quilométricas do aeroporto de Frankfurt.

Estava no meio da Avenida Paulista.
Olhava para os pés.
Os sapatos de sola de borracha (em casa usava chinelos).
Quando caminhava para frente.
A calçada ia para trás – e seu corpo continuava parado.
Tentou andar de costas.
Um movimento de ré desajeitado.
A calçada correu para frente.
Tirou os sapatos.
Com os pés descalços, nada mudava.

Riu um riso nervoso.
Ficou alguns minutos tentando arrancar os pés da calçada.
Os termômetros marcavam 12°C.
O suor escorria por seu rosto, ensopava as costas.
Alguns pedestres que viam seu agito esquizofrênico viravam o rosto.

Todos presos.
Todos sendo levados pelas ruas, calçadas, avenidas.
Ninguém notava?
Se sabiam, por que ninguém tentava soltar os pés?
Não havia bebido, não comera nada diferente. Isso não era alucinação.
Teria enlouquecido?

Mais uma vez, tentou tirar os pés.
Queria comprar uma picareta.
Quebrar tudo, libertar-se.

Olhou em volta.
Indiferentes.
Todos presos.

Pausa

Che e outras elucubrações

domingo, 5 de abril de 2009

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Ontem fomos ver o filme estrelado por Benício del Toro.
Foi bom ouvir o sotaque cubano mais uma vez. Nem todos os atores conseguiram fazer.
Rodrigo Santoro, que vive Raul Castro, bem que tentou.
Mas deu umas derrapadas no espanhol que são passáveis.
Benício Del Toro está grande.
E me parece que o filme foi rodado na terra dele, em Porto Rico.
Mas os cenários são Cuba, Cuba, Cuba.
E nada mudou.
Isso é assombroso.
Os cubanos vivem num universo congelado.
Os meninos que pedem para fazer parte do grupo dos guerrilheiros se vestem como parte da juventude cubana se veste hoje.
E eu, que desci de paraquedas na ilha, fiquei o tempo todo pensando: deu no que deu.
E, paradoxalmente, senti saudades da ilha.
Quando morei em Cuba, tinha 27 anos.
Tinha dúvidas – e ainda tenho.
Tinha uma ousadia de largar o certo pelo incerto – e isso ainda passa.
Talvez seja eu.
Numa auto-sabotagem ou numa rebeldia genuína.
Tinha quilos a menos (!)
Tinha cabelo curto e uma vontade grande de fazer cinema.
E não gostava da esquerda.
Saí da ilha com ódio a Fidel – mais do que quando entrei.
Com pena e raiva dos cubanos – afinal, são corrompidos, perderam a pureza.
E com a certeza que o neoliberalismo é a única saída.
Prefiro morrer no caos, no olho por olho.
Do que amarrada a um regime que se pretende igualitário.
Que sofrimento maior pode ter um povo.
Que receber educação e instrução.
E viver preso numa gaiola?
Sou mais a ignorância.
Porque o buraco ainda é buraco.
Abaixo, algumas fotos de Cuba entre 2001 e 2002.

Minha estréia na direção - numa piscina olímpica vazia

Minha estréia na direção - numa piscina olímpica vazia

Dirigindo os atores com uma amiga de El Salvador, Maura

Dirigindo os atores com uma amiga de El Salvador, Maura


Fábrica abandonada pela família Baccardi

Fábrica abandonada pela família Baccardi


Dirigindo o 2 filme

Dirigindo o 2 filme


Com a família que me emprestou a casa

Com a família que me emprestou a casa


Em Baracoa com roupa típica

Em Baracoa com roupa típica


Moderna fábrica de roupas

Moderna fábrica de roupas


No set, montada

No set, montada


Como atriz, usando roupas de Morango e Chocolate

Como atriz, usando roupas de Morango e Chocolate


Com o diretor, Terence Piard, e uma arma de verdade

Com o diretor, Terence Piard, e uma arma de verdade


Uma venda, típica em Cuba

Uma venda, típica em Cuba


havanavieja
Como cubanos vigiam cubanos

Como cubanos vigiam cubanos


Carona em carro de boi

Carona em carro de boi


Granjita Siboney - para onde Fidel fugiu e quase dançou

Granjita Siboney - para onde Fidel fugiu e quase dançou


Papo en Passa Caballo

Papo en Passa Caballo